O cenário artístico brasileiro amanheceu de luto neste sábado, 28 de fevereiro. O ator, diretor e dublador Dennis Carvalho morreu aos 78 anos no Hospital Copa Star, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Embora a unidade não tenha detalhado a causa exata de sua morte, a pedido da família, a saúde de Dennis vinha sendo motivo de apreensão por fãs e admiradores nos últimos três anos.

A fase final da vida do ex-poderoso diretor do núcleo de teledramaturgia da TV Globo, desde o rompimento do contrato fixo com a emissora, à qual se dedicou por 47 anos, foi marcada por um misto de superação física e sofrimento emocional. O quadro geral de saúde do artista era acompanhado de perto nas redes sociais e incluía diagnósticos severos e de alto risco de óbito.

Fumante por décadas, Dennis Carvalho já tinha a saúde fragilizada desde que enfrentou um câncer de pulmão. Em julho de 2002, o ator e diretor passou por uma cirurgia para retirada de um tumor num dos pulmões no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Vinte anos depois, no final de 2022, ainda sob o impacto psicológico do fim do contrato com a Globo naquele ano ele precisou ser internado no Rio por conta de uma pneumonia.

O quadro evoluiu para uma septicemia (também conhecida como infecção generalizada ou infecção hospitalar), um grave quadro responsável pela morte de milhares de brasileiros anualmente. A condição, que o manteve intubado, em coma induzido, por aproximadamente um mês em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), o levou a complicações respiratórias e cardiológicas.

O que eu achava ser fadiga e estresse acumulados era uma pneumonia extensa, que levou a uma septicemia (infecção generalizada). Precisei ser intubado e ficar em coma induzido. Para piorar, soube que tive ainda uma embolia pulmonar. Foi barra-pesada”, disse ele à Revista Veja, em maio de 2023.

‘Ganhei uma segunda chance’

Mas não parou por aí. Após a primeira alta hospitalar, o dramaturgo passou por mais duas internações para controlar novos princípios de pneumonia e instalar um marca-­passo, devido a uma arritmia cardíaca, uma das principais causas de morte súbita no Brasil.

Sobre a longa internação, Dennis contou que custou a acreditar que tinha ficado em estado gravíssimo e dias seguidos no “delicado equilíbrio entre a vida e a morte”. As complicações seguintes o fizeram refletir sobre sua forma de viver. “Um quadro de saúde tão assustador faz a gente repensar tudo e dar mais valor à vida“, confessou.

Só estou aqui hoje porque, além de contar com a competência de bons médicos, acho que não era minha hora mesmo. Tenho plena consciência de que ganhei uma segunda chance“, celebrou à época.

Mudança de hábitos e autocuidado

E foi nessa busca por viver mais e com qualidade de vida que o diretor resolveu implementar uma mudança de hábitos. Na mesma entrevista, ele contou que só depois do marca-passo é que abandonou de vez o tabagismo.

Larguei completamente o cigarro, coisa que devia ter feito há pelo menos quinze anos, quando descobri um câncer nos pulmões e perdi parte de um deles. Mas continuei com a loucura. Em fases de grande tensão, como a estreia de novelas, fumava dois maços e meio por dia“.

Assim como o cigarro, Dennis contou que também cortou o álcool e tentava manter uma alimentação mais saudável. “Nunca gostei de ficar bêbado, mas tomava todos os dias para relaxar, antes de dormir, uma dose de vodca com Coca-Cola”, relembrou. Na ocasião da entrevista, ele ainda revelou que se dedicava com disciplina à recuperação.

Depois de tão longo período internado, perdi massa muscular e, por enquanto, só consigo andar em casa. Tenho saído a bordo de uma cadeira motorizada e feito fisioterapia duas vezes por dia”.

 

Mágoa com a Globo: ‘merecia mais respeito’

Na ‘segunda chance’, no entanto, a saúde física de Dennis Carvalho parecia caminhar lado a lado com o desgaste psicológico após sua saída da TV Globo – seu contrato fixo foi encerrado de forma abrupta e unilateral em 2022.

Esse furacão todo aconteceu numa época em que ainda estava sob o impacto da saída da Globo. Não chegou a ser surpresa. Toda hora a gente vê notícias de talentos sendo dispensados, e sabia que podia chegar em mim. A questão foi quem e como me comunicaram que eu não era mais útil“.

Ainda à Veja, ele detalhou que foi comunicado do cancelamento do contrato por seu antigo pupilo, Ricardo Waddington (então diretor dos Estúdios Globo). “Foi meu assistente e aprendeu muito comigo”. Ele contou que Waddington o chamou na sala e disse: “Nós não vamos renovar seu contrato, querido. Preferimos te chamar por obra certa, tá bom?”. Dennis não reagiu: “O que me restava responder? “Tá bom”, falei, e saí”.

Em declarações sensíveis, Dennis não escondeu a mágoa com a emissora:

Bate um vazio, claro. Sinto saudade das pessoas, do convívio nos estúdios. É inevitável guardar uma certa mágoa. Acho que merecia um pouco mais de respeito“.

Etarismo na dispensa de veteranos

O ex-diretor da Globo aproveitou para criticar a emissora pelo critério etarista ao dispensar artistas veteranos do seu banco de talentos. “Acho essa nova política da casa precipitada e injusta. Eles deveriam encontrar um meio-termo, no lugar de perder tanta gente boa”, disparou.

Dennis também fez referência uma a uma suposta ‘geladeira’ com a nova política de cancelar os contratos fixos e contratar o elenco apenas para trabalhos pontuais. E fez questão de reforçar a importância do seu trabalho para inúmeros sucessos de audiência da emissora.

Também não considero correto alguém passar três anos sem trabalhar, como acontecia com alguns contratados. Mas, no meu caso, sempre produzi — dirigi mais de 40 programas, dos quais 28 novelas, entre as quais Dancin’ Days, Vale Tudo e O Dono do Mundo‘”, ponderou.

‘Tenho muita lenha pra queimar’

Apesar da mágoa com a Globo, Dennis ainda mantinha a esperança de novos contratos avulsos e voltar a atuar na emissora onde colecionou amigos.

Diante de todo o turbilhão, não passa pela minha cabeça parar (de trabalhar). Caso seja chamado pela emissora para dirigir uma obra, aceitarei se o projeto me interessar, não só porque é a Globo”, disse ele, citando trabalhos em negociação para outros canais. “Sempre gostei de me reinventar. Tenho muita lenha pra queimar, quero morrer trabalhando“, desabafou.

Para amigos próximos, o impacto emocional da dispensa – que os psicólogos classificam deluto demissional‘ – e a sensação de subutilização de seu talento podem ter fragilizado o sistema imunológico de Dennis Carvalho, abrindo caminho para uma sequência de novas complicações que culminaram no triste fim neste sábado. Com a palavra, os especialistas.

O diretor Dennis Carvalho participa do lançamento do “Criança Esperança”, no Projac, no Rio, em 2014 (Foto: Alex Palarea e Felipe Assumpção/AgNews)

Vida e obra de Dennis Carvalho

Uma carreira brilhante que terminou no ostracismo

Um dos pilares da construção da identidade visual e narrativa da TV Globo por décadas,  Dennis Carvalho dirigiu novelas de grande audiência, como Celebridade, Selva de Pedra, Corpo a Corpo, História de Amor, Fera Ferida e Paraíso Tropical.

Também sob sua batuta, a emissora apresentou séries de sucesso, como Anos Rebeldes e o programa de humor Sai de Baixo, exibido semanalmente, com grande Ibope. Seu último trabalho na emissora carioca foi a novela ‘Segundo Sol’, em 2018, onde atuou na direção artística.

Considerado um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, Dennis somou mais de 50 anos de carreira. O início de sua trajetória na TV em 1964 foi marcado por participações em teleteatros e dublagens de atrações televisivas marcantes.

Também teve passagens marcantes pelo teatro (como na peça Hair) e foi um dublador respeitado. Foi a voz, por exemplo, do capitão Kirk, de Star Trek (Jornada nas Estrelas).  Essas experiências no currículo abriram as portas para Dennis na TV Globo, onde atuou em sucessos como “Antônio Maria” e “Ídolo de Pano”

Família e despedida

O artista deixa três filhos de três casamentos com atriz da Globo: Luíza, do casamento de 24 anos com Deborah Evelyn, sua maior amiga, como dizia; Leonardo, da união com Christiane Torloni, e Tainah, filha de Monique Alves, além de três netos – Lucca, Nina e Laura.

Ele ainda era pai de Guilherme, gêmeo de Leonardo, que faleceu aos 12 anos, em 1991, em um trágico acidente de carro. Dennis também foi casado com as também atrizes Bete Mendes, Tássia Camargo e Ângela Figueiredo, além da professora de educação física Maria Tereza Schimidt.

O velório ocorreu neste domingo (01/03),  no Rio de Janeiro, onde amigos, familiares e fãs puderam se despedir de Dennis Carvalho e relembrar suas obras e momentos que compartilharam durante a sua trajetória.

O grande artista partiu, mas sua história reforça que a arte é eterna, enquanto o corpo exige um olhar atento e integrado. Que seu legado inspire não apenas novos “contadores de histórias” na TV., no teatro e no cinema brasileiuro, mas também uma nova consciência sobre o cuidado com a vida.

Com informações de agências e Veja

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