A imagem do ex-soldado do Exército Yuri Souza, de apenas 19 anos, salvando uma bebê de 5 meses de idade durante as inundações em Juiz de Fora (MG) viralizaram semana passada nas redes sociais. O jovem herói deu até entrevista no Fantástico deste domingo (1/3).
“Na hora, você não pensa [em riscos, como correnteza]. Na hora eu só fui”, disse. “Estava ali para ajudar e ajudei”, afirmou. Nesse mesmo dia, ele salvou também duas crianças de colo e idosos, todos carregados no colo até o caminhão. No vídeo, é possível ver uma idosa sendo atendida por soldados.
Yuri não tem filhos, mas disse que ficou emocionado com o pedido de ajuda da família e agradece às inúmeras mensagens e elogios que vem recebendo. Ele ficou dois anos no Exército, corporação da qual se despediu na sexta-feira, ao meio-dia. Ele foi dispensado após cumprir o Serviço Militar obrigatório.
© Yuri Souza/Arquivo Pessoal
Desespero para salvar vidas: “tirando com a unha, na mão mesmo, na raça”
No quartel, Yuri recebeu treinamento de primeiros socorros a vítimas de acidentes, mas em boa parte dos desastres climáticos, são os próprios moradores que, muitas vezes, fazem o papel de ‘anjos da guarda’, ajudando a salvar vidas antes mesmo ou até em apoio às equipes oficiais de socorristas.
A Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) traz um dado revelador sobre a dinâmica de desastres: mais de 50% dos resgates em situações de emergência não são realizados por bombeiros ou profissionais treinados, mas sim por pessoas comuns, ou seja, sem preparo técnico.
São pessoas como o pedreiro Danilo Fartes, de 40 anos, um dos muitos moradores de Juiz de Fora que iniciaram os resgates de vítimas da tragédia das chuvas com as próprias mãos. Residente no Parque Jardim Burnier – área vizinha ao deslizamento que vitimou mais de 20 pessoas no dia 23 de fevereiro -, ele ajudou a retirar vítimas dos escombros e da lama e chegou a socorrer uma criança de 3 anos que, infelizmente, não resistiu.
Fiz massagem, joguei para dentro do carro e desci morro abaixo. Mas infelizmente não conseguimos ajudar. Ele não resistiu”, disse ele que, assim como outros voluntários, ignorava o risco de choque elétrico e de enxurradas.
Enquanto vive a incerteza sobre o futuro da família – a casa onde moram está em área de risco próxima de um deslizamento -, Danilo lembra os momentos de angústia para ajudar os vizinhos soterrados.
A população desesperada veio ajudando, tirando com a unha, na mão mesmo, na raça”, conta. Nascido e criado na comunidade, o pedreiro se esforça para manter a esperança entre aqueles que continuam vivos. “A gente vai ajudando do jeito que pode. Não tem muito o que fazer agora”, diz Danilo.
Socorrista improvisado pode se tornar vítima
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Instinto de sobrevivência e solidariedade: Em momentos críticos, como inundações e deslizamentos, moradores são os primeiros a agir para salvar familiares e vizinhos, movidos pelo instinto ou por proximidade física.
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O risco da falta de preparo: A ausência de treinamento técnico coloca em risco tanto a vida de quem tenta ajudar quanto a de quem está sendo resgatado. Sem protocolos, o socorrista improvisado pode se tornar uma nova vítima do desastre.
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Invisibilidade de públicos vulneráveis: A falta de informação dificulta o atendimento a pessoas com necessidades específicas, como autistas, pessoas com deficiência auditiva ou mobilidade reduzida. Estes grupos muitas vezes não sabem como reagir a alertas, e o socorrista leigo raramente sabe como manejá-los adequadamente.
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Rede de proteção: É necessário investir na formação de “Agentes Capazes” dentro das próprias comunidades. Quando professores e líderes locais recebem treinamento em primeiros socorros e gestão de desastres, a taxa de sobrevivência aumenta significativamente.
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Inteligência emocional: A preparação envolve não apenas força física, mas o controle emocional para tomar decisões rápidas sob pressão.
O papel do “socorrista leigo” em emergências
O especialista em resgates Leo Farah defende uma maior conscientização do ciclo completo de risco e desastres, que compreende: prevenção, preparação, mitigação, resposta e recuperação; sugerindo que seja incorporado às políticas públicas, com apoio efetivo do setor privado, envolvendo todos os setores que de alguma maneira participam das causas, dos impactos e das soluções.
Para Farah, o ideal é que o trabalho da HUMUS não seja mais necessário: “O sonho da HUMUS, uma associação sem fins lucrativos, é não precisar existir. Para isso, é necessário que os desastres não aconteçam ou que seus impactos possam ser suportados pela própria comunidade. Enquanto isso for apenas um sonho, estamos dispostos a ajudar nessa missão, antes que aconteça novamente”.
Fundada em 2021 por Léo Farah e Fernando Queiroz, especialista em comunicação humanitária, a ONG HUMUS é a primeira organização brasileira de ajuda humanitária sem fins lucrativos, que atua com foco em desastres em áreas de risco ou afetadas por um evento natural extremo.
A organização tem capacidade para agir principalmente nas etapas de resposta, de recuperação e, também antes que aconteça, em iniciativas de prevenção através da conscientização e preparação da população em geral ou de profissionais da área.
Portanto, além de apoiar nas ações de buscas e salvamentos em emergências, a HUMUS desenvolve programas que visam capacitar comunidades para enfrentar os desafios que se tornaram mais intensos e frequentes com as mudanças climáticas, sendo cada vez mais importante e urgente compartilhar informações e medidas que possam reduzir os impactos e salvar vidas.
Por que treinar moradores das áreas de risco?
Diante dessa realidade, a recomendação da USAID e de organizações como a Humus é que a prevenção não deve ficar restrita aos órgãos oficiais. Entre as soluções apresentadas pela Humus estão a capacitação de agentes para elaboração de planos de contingência adaptados à realidade de cada local, o treinamento em comunidades e escolas, o uso de inteligência artificial para mapear áreas de risco e rotas seguras.
Se medidas não forem tomadas nesse momento, enquanto podemos planejar e prevenir, grandes tragédias vão se repetir, inclusive nos mesmos locais em que a vida está sendo retomada”, alertou o especialista, que é mestre em Engenharia Geotécnica e Especialista em Gestão de Desastres no Brasil, Chile e Japão, pela Unesco e em Redução de Riscos pela ONU.
Uma comunidade resiliente e preparada é a primeira barreira de defesa contra os impactos de eventos climáticos extremos, protegendo a integridade humana em simbiose com o ambiente onde vivem.
“Eu só fui”: diz ex-soldado que salvou bebê de inundação
Aos 19 anos, Yuri Souza viveu seu maior ato de bravura na última semana de serviço militar obrigatório. Na terça-feira (24), poucos dias antes de ser desligado, ele enfrentou uma rua alagada, com água na cintura, para salvar uma bebezinha de 5 meses.
Eu e mais um soldado saímos perguntando quem estava precisando de ajuda e queria ser resgatado, quando o pai da criança me chamou para tirar a bebê e a mãe, presas no segundo andar da casa”, contou.
A família estava em uma das últimas casas da rua onde os soldados atuavam, de difícil acesso. “O bairro Industrial inteiro estava debaixo d’água”, lembrou Yuri. “Foi até difícil para o Exército chegar, fomos com a viatura até onde deu, até a água bater no motor”.
Ouça o depoimento de Yuri Souza na Radioagência Nacional
Yuri atuava no resgate de crianças e idosos no bairro Industrial, um dos mais afetados pelas chuvas, quando o pai da bebê pediu ajuda. As imagens que viralizaram nas redes sociais mostram Yuri com água barrenta quase na cintura, caminhando calmamente em um trecho completamente inundado, embaixo de fios da rede elétrica, com a bebezinha no colo.
O ex-soldado conta que o caminhão do Exército estava 300 metros adiante e que era preciso andar até lá para deixar todos em segurança. Então, acompanhado do pai e da mãe da pequena, que não aparecem nas imagens por estarem mais atrás, Yuri segurou firme a criança e caminhou.
‘Eu vi um anjo de farda, que escolheu arriscar a vida’
O pai da criança, Jeferson Rinco, também homenageou Yuri com uma mensagem emocionante nas redes.
No meio daquela inundação, da água levando nossos sonhos, lembranças e tudo o que construímos com tanto esforço, estava a minha filha, pequena, frágil, nos braços do soldado Yuri. Quando eu vi aquela imagem, de novo chorei. Eu vi um anjo de farda, que escolheu arriscar a vida para salvar o que temos de mais precioso nesse mundo”, completou.
Na mensagem, Jeferson Rinco revela que o momento era de desespero. A família, incluindo seis gatos, passa bem. A mãe e a bebê se abrigaram na casa de parentes, enquanto ele e os animais estavam no telhado da residência alagada. Eles perderam bens e móveis com as chuvas, mas esperam conseguir recuperar com apoio e doações.
Com informações da Agência Brasil e da ong Hum






