Até as pessoas altamente otimistas e proativas atravessam períodos de baixa energia, falta de esperança e pensamentos negativos. Mas é preciso lutar contra a autossabotagem, começando pela disposição de vislumbrar cenários favoráveis.

Outro dia, arrumando uma estante, encontrei um bilhete escrito por mim mesma alguns anos atrás. Nele, eu agradecia a Deus por ter vendido minha casa na Vila Mariana para um casal muito bacana, recebido o valor combinado no prazo e conseguido comprar uma chácara em um condomínio na Rodovia Castelo Branco.

O curioso é que, quando escrevi aquilo, nada disso tinha acontecido ainda. Eu agradecia como se já tivesse acontecido. E sentia, antecipadamente, a alegria de ver tudo dando certo. Deu. Vendi a casa, recebi o que me era devido e comprei a chácara.

Mais tarde, durante os anos difíceis da pandemia de Covid-19, aquele pedaço generoso de terra se tornou o lugar onde pude reunir minha família e atravessar um período tão estranho com espaço, natureza e proximidade. Ao reencontrar o bilhete, percebi que aquela não tinha sido uma experiência isolada.  Em diferentes momentos da minha vida, fiz algo parecido: imaginei o que desejava, agradeci antes da hora e procurei experimentar a sensação de que aquilo era possível.

Mas talvez a parte mais interessante dessa história seja outra. Encontrei o bilhete justamente numa semana em que eu estava para baixo. Desanimada, adoecida, cansada, sem energia e com enorme dificuldade de enxergar a vida pelas lentes que normalmente procuro usar.

Percebi a ironia do momento. Foi uma versão mais otimista de mim mesma, registrada naquele pedaço de papel anos antes, que veio me lembrar de algo que eu estava esquecendo: a gente não precisa estar bem todos os dias. Mas também não precisa fazer dos dias ruins uma previsão do futuro.

Ser positivo não é sorrir quando queremos chorar

Ser positivo não é sorrir quando queremos chorar, negar problemas ou repetir diante do espelho que tudo vai dar certo. Isso seria apenas trocar a realidade por uma fantasia. Positividade, para mim, é outra coisa. É reconhecer o que está difícil sem entregar a essa dificuldade o poder de decidir tudo o que virá depois. É deixar aberta a possibilidade de que alguma coisa boa aconteça. É trocar, de vez em quando, a pergunta “e se der errado?” por outra muito mais interessante: “e se der certo?”

E parece que nosso corpo também agradece essa disposição. Uma meta-análise publicada no JAMA Network Open, que reuniu 15 estudos e mais de 229 mil pessoas, encontrou uma associação entre maior otimismo e risco 35% menor de eventos cardiovasculares.

Os mais otimistas também apresentaram menor risco de mortalidade por todas as causas. Isso não significa, é claro, que pensamentos positivos sejam remédio ou que substituam médicos, exames, alimentação, exercícios ou tratamentos. Significa algo mais razoável e, ainda assim, fascinante: a maneira como encaramos a vida parece caminhar junto com a maneira como cuidamos dela.

Talvez porque o otimismo não aconteça apenas dentro da cabeça. Pessoas otimistas tendem a apresentar comportamentos mais favoráveis à saúde, como praticar mais atividade física, não fumar, alimentar-se de modo mais saudável e dormir bem, segundo a American Heart Association.

E há ainda aquilo que nenhum estudo precisa nos ensinar. Quando acreditamos que existe uma saída, procuramos por ela. Quando acreditamos que podemos melhorar, damos o primeiro passo. Quando imaginamos um futuro possível, nossas decisões de hoje começam, pouco a pouco, a apontar naquela direção.

Aos 50, 60 ou 70 anos, já acumulamos evidências suficientes de que a vida não obedece aos nossos planos e muitas vezes nos surpreende. Algumas coisas pelas quais agradecemos antecipadamente jamais acontecerão. Outras acontecerão de um jeito completamente diferente.

É bom olhar para a frente com esperança

Positividade não nos dá controle sobre o mundo. Mas pode nos devolver algo que às vezes perdemos no meio do cansaço, das decepções e das perdas: a disposição de continuar apostando na vida. E talvez seja exatamente aí que esteja sua maior força.

Depois de encontrar aquele velho bilhete, fiquei com vontade de escrever outro. Não porque tenha redescoberto uma fórmula mágica para conseguir tudo o que quero, mas porque me lembrei de como é bom olhar para a frente com esperança. Escolher alguma coisa que desejo, imaginá-la acontecendo, agradecer por ela e sentir por alguns instantes a alegria da conquista.

Você pode chamar isso de fé, visualização, otimismo ou simplesmente esperança. O nome pouco importa. Entre gastar minha energia imaginando tudo o que pode dar errado e usá-la para vislumbrar tudo o que ainda pode dar certo, eu fico com a segunda opção. Afinal, se ainda não sabemos o que vem pela frente, por que não imaginar o melhor?

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