“Nós vamos sorrir. Sorriam!” A célebre frase de Fernanda Montenegro no papel de Eunice, no consagrado ‘Ainda Estamos Aqui’, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2025, pode nos trazer uma série de reflexões. Afinal, temos mesmo motivos para dar risadas? E você, quando foi a última vez que deu uma gargalhada de verdade? Daquelas que surgem espontaneamente, interrompem uma conversa e fazem esquecer, ainda que por alguns minutos, as preocupações?

Em uma rotina marcada por compromissos, cobranças e notificações que parecem não ter fim, encontrar espaço para o bom humor pode ter se tornado mais difícil do que imaginamos.  No Dia Nacional do Riso, celebrado em 6 de novembro, a ciência oferece um bom motivo para recuperar esse hábito: rir também pode fazer bem à saúde. A neurociência confirma esse efeito. Os chamados neurônios-espelho são ativados quando vemos outra pessoa rir, o que faz com que o cérebro responda de forma semelhante, estimulando sensações de prazer e empatia.

O que acontece no organismo quando rimos?

Estudos científicos comprovam os benefícios terapêuticos do riso

Mais do que um momento de descontração, o riso exerce um papel fundamental na manutenção da saúde e do equilíbrio emocional. O riso mobiliza diferentes processos fisiológicos. Uma gargalhada altera temporariamente o ritmo da respiração, envolve a contração de músculos e pode ser seguida por uma sensação de relaxamento. No campo emocional, o humor também pode ajudar a diminuir a tensão diante de situações estressantes e favorecer a aproximação entre as pessoas.

Segundo o estudo “Benefícios Terapêuticos do Riso na Saúde Mental: Uma Revisão Teórica”, o ato de rir desencadeia uma série de efeitos positivos no organismo, entre eles, o relaxamento dos músculos faciais, a melhora da respiração e da circulação sanguínea, a redução dos hormônios do estresse e o fortalecimento do sistema imunológico. Além disso, ele eleva o limiar da dor, aumenta a tolerância e favorece o bom funcionamento da mente.

Uma meta-análise publicada em 2026 no Journal of Psychiatric Research, reunindo 33 estudos, também encontrou efeitos favoráveis de intervenções baseadas no riso sobre sintomas de ansiedade, depressão e estresse. Os resultados não significam que o humor substitua tratamentos médicos ou psicológicos, mas reforçam seu potencial como recurso complementar de bem-estar.

Uma revisão de estudos publicada em 2023 na revista científica Plos One, que reuniu oito pesquisas e 315 participantes, identificou uma redução média de 31,9% nos níveis de cortisol após intervenções envolvendo o riso, em comparação com grupos de controle.  O resultado sugere que uma boa gargalhada pode contribuir para aliviar o estresse, embora os pesquisadores ressaltem que ainda são necessários estudos mais amplos para compreender seus efeitos a longo prazo.

Efeito direto na superação das dificuldades diárias

De acordo com a psicóloga Mariana Ramos, o riso também tem um efeito direto sobre as emoções e a capacidade de lidar com as dificuldades do dia a dia. “Ele nos ajuda a mudar o foco da dor para o alívio, da tensão para o relaxamento”, explica a docente, ressaltando que esse simples ato pode ter um impacto profundo na saúde mental e emocional.

A especialista destaca que rir é um ato humano capaz de transformar a forma como sentimos e enfrentamos os desafios. “O riso não apaga os problemas, e talvez essa seja justamente sua maior força: ele muda a maneira como lidamos com eles”, afirma Mariana.

Segundo ela, quando rimos, o corpo libera endorfina, serotonina e dopamina, substâncias associadas ao prazer e ao bem-estar. “Essa resposta fisiológica reduz a tensão muscular, diminui o estresse e melhora o humor. É como se, por alguns instantes, corpo e mente respirassem alívio juntos”, complementa.

Rir junto também fortalece os vínculos

Existe ainda um aspecto do riso que não depende apenas de suas repercussões no organismo: a capacidade de aproximar pessoas. Uma conversa descontraída, uma lembrança engraçada ou uma brincadeira compartilhada podem criar momentos de conexão em uma época em que boa parte das relações acontece por meio de telas.

Além de aliviar o estresse, o riso também fortalece vínculos e melhora a conexão entre as pessoas. Quando compartilhamos o riso com alguém, criamos uma ponte invisível,  um tipo de empatia silenciosa que aproxima, acolhe e fortalece os laços humanos”, explica Mariana, que atua como professora de Psicologia.

No ambiente profissional, o bom humor também pode contribuir para relações mais acolhedoras, desde que não seja utilizado para constranger colegas ou minimizar situações de sofrimento. Para Cristiane, empresas que desejam promover saúde mental precisam compreender que um ambiente saudável não se constrói apenas com metas e resultados, mas também com respeito, segurança psicológica e relações humanas de qualidade.

O humor pode aproximar as pessoas e tornar a convivência mais agradável, mas precisa existir de maneira respeitosa. Não adianta incentivar momentos de descontração se o ambiente continua marcado por cobranças excessivas, medo e falta de acolhimento. O bem-estar emocional depende de um conjunto de fatores, e a qualidade das relações é um deles. As pessoas precisam sentir que podem ser espontâneas, sem a obrigação de demonstrar felicidade o tempo inteiro”, destaca.

Como a falta de leveza na rotina pode afetar o equilíbrio emocional

Para a psicóloga Cristiane Belmonte, fundadora e diretora técnica da Clínica Belmonte Saúde, em São Paulo, o riso tem uma função que vai além da diversão. Ele pode representar uma pausa emocional em meio às pressões do cotidiano, ajudando a enfrentar situações difíceis sem transformar cada problema em um peso permanente.

Estamos vivendo uma época em que as pessoas se cobram o tempo inteiro. Existe uma preocupação constante em produzir, resolver problemas e corresponder às expectativas. Nesse cenário, o riso acaba perdendo espaço, como se a leveza fosse algo secundário”, explica a psicóloga.

Cristiane observa que o problema não está em passar um dia sem rir, mas em perceber que a vida se tornou uma sequência de obrigações, sem espaço para experiências que proporcionem satisfação.

Quando uma pessoa passa muito tempo sob pressão, pode começar a funcionar no automático. Ela trabalha, cumpre tarefas, resolve questões familiares, mas deixa de perceber aquilo que lhe proporciona prazer. A perda persistente do interesse por atividades antes agradáveis merece atenção, principalmente quando vem acompanhada de cansaço, irritabilidade e alterações no sono”, afirma.

Segundo a especialista, é importante entender que saúde mental não é apenas a ausência de sofrimento, mas também a possibilidade de experimentar bem-estar.  “Permitir-se rir, descansar e viver momentos prazerosos também faz parte do cuidado com a saúde mental. Não significa fugir das responsabilidades, e sim encontrar equilíbrio para lidar com elas”.

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Como é possível recuperar a leveza?

Embora não exista uma quantidade ideal de gargalhadas por dia, pequenas mudanças podem favorecer momentos de prazer. Retomar encontros com amigos, assistir a uma comédia, brincar com os filhos ou reservar tempo para atividades que despertam interesse são possibilidades simples que podem ajudar a tornar a rotina menos desgastante.

Cristiane Belmonte ressalta, porém, que transformar a felicidade em mais uma obrigação pode produzir o efeito contrário. Sentir tristeza, preocupação ou desânimo em determinados momentos faz parte da experiência humana, e ninguém precisa esconder essas emoções atrás de um sorriso.

Precisamos compreender que rir não é uma obrigação e que ninguém precisa estar bem o tempo todo. O importante é construir uma rotina em que exista espaço para diferentes emoções, inclusive a alegria. Muitas vezes, as pessoas esperam que tudo esteja resolvido para aproveitar a vida, quando, na realidade, os pequenos momentos de prazer também ajudam a atravessar períodos difíceis.

Segundo a especialista, a psicoterapia também pode contribuir muito nesse processo, ajudando a pessoa a reconhecer o que tem tirado espaço do prazer, a lidar com o estresse e a construir formas mais saudáveis de atravessar as dificuldades. Cuidar da saúde mental é aprender a respeitar o sofrimento sem abrir mão da possibilidade de ser feliz”, afirma Cristiane.

Terapia do Riso: quando rir se torna tratamento

Pesquisas científicas apontam que o ato de rir pode atuar como uma forma eficaz de terapia. O estudo “Laughter as Medicine”, publicado em 2023, analisou dezenas de pesquisas internacionais sobre os efeitos terapêuticos do riso e concluiu que ele pode funcionar como um recurso complementar de cuidado à saúde, trazendo benefícios físicos e emocionais.

Essa é a base da chamada risoterapia, ou terapia do riso, uma prática que utiliza o riso de forma intencional para estimular a liberação de hormônios do bem-estar, reduzir a ansiedade e fortalecer o sistema imunológico.

No Brasil, a prática já começa a ganhar espaço. Embora ainda não esteja implementada no Sistema Único de Saúde (SUS) em nível nacional, cidades como o Rio de Janeiro já autorizam oficialmente sua aplicação em hospitais, clínicas de saúde e casas de repouso da rede pública municipal, onde técnicas de humor terapêutico são usadas para promover o bem-estar emocional e psicológico de pacientes e idosos.

Ações podem estimular o riso no ambiente de trabalho

Em sua experiência com empresas, ações de saúde mental também podem abrir espaço para uma relação mais leve com o cotidiano. Durante a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho), por exemplo, a empresa pode promover uma apresentação teatral ou outra atividade que estimule o riso de forma respeitosa, sem transformar ninguém em alvo.

Também podem ser organizadas rodas de conversa sobre a maneira como lidamos com os problemas, sobre leveza e sobre os limites do humor. Afinal, o riso não deve ser usado para constranger, expor ou praticar bullying. Quando isso acontece, deixa de ser descontração e passa a causar sofrimento”, enfatiza a especialista.

4 motivos pelos quais o riso faz bem para a sua saúde mental

Conheça alguns dos principais motivos pelo qual o riso pode ser considerado um dos grandes aliados à saúde mental:

1. Reduz o estresse e regula o sistema nervoso

Quando rimos, o cérebro libera endorfina e dopamina, neurotransmissores ligados ao prazer e à sensação de recompensa.

Ao mesmo tempo, há uma queda nos níveis de cortisol e adrenalina, hormônios do estresse.

Pesquisas da Mayo Clinic e da Harvard Medical School mostram que o riso pode atenuar a resposta de “luta ou fuga”, ajudando o corpo a voltar ao estado de relaxamento e segurança.

2. Fortalece conexões sociais (protege a mente)

O riso é um comportamento social poderoso: ele estimula a liberação de ocitocina, o chamado “hormônio do vínculo”.

Estudos em psicologia social apontam que rir junto com outras pessoas aumenta a sensação de pertencimento e reduz a solidão, dois fatores fortemente relacionados à prevenção de depressão e ansiedade.

Em resumo: rir com alguém é uma forma natural de cuidar da saúde emocional.

3. Melhora a flexibilidade cognitiva e emocional

O humor ajuda o cérebro a ver situações sob diferentes perspectivas.

Pesquisas em neuropsicologia mostram que o riso ativa áreas do córtex pré-frontal ligadas à criatividade, resiliência e solução de problemas.

Por isso, pessoas que cultivam o bom humor costumam lidar melhor com frustrações — não porque ignoram a dor, mas porque conseguem reinterpretá-la de forma mais leve e adaptativa.

4. Promove alívio emocional e autorregulação

Rir tem um efeito catártico: permite expressar e liberar tensão acumulada, algo essencial para a regulação emocional.

Segundo estudos da American Psychological Association (APA), o riso genuíno pode funcionar como uma forma de “descarga emocional saudável”, ajudando o corpo e a mente a se reequilibrarem.

Em terapias baseadas em aceitação e mindfulness, o humor é visto como uma ferramenta para se relacionar com o sofrimento sem negá-lo, mas também sem se aprisionar nele.

Com Assessorias

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