Por Jorge Jaber*

Numa eleição novamente marcada pela polarização, um tema vem superando divergências ideológicas: a proteção às mulheres. Da esquerda à direita, por cálculo eleitoral ou convicção legítima, a necessidade de ações de combate ao feminicídio e à violência de gênero, entre outras medidas voltadas ao público feminino, entrou de vez na pauta.

Não por acaso: a explosão de episódios de agressões físicas, psicológicas e até patrimoniais sofridas diariamente por elas justifica nosso repúdio e preocupação. Há, porém, um outro ponto que merece atenção, até porque nasce da misoginia e da cobrança sobre o comportamento e desempenho das mulheres em casa, na rua e no trabalho: o aumento dos casos de dependência química entre elas.

O fenômeno, constatado a cada estudo, tem um detalhe ainda mais perturbador: embora a doença não escolha cor, classe ou gênero, no universo feminino seus impactos surgem de forma mais veloz e agressiva, e a busca por tratamento é muitas vezes tardia.

A análise dessas pesquisas, aliada à observação no cotidiano das clínicas e consultórios, mostra que as mulheres passam do uso experimental para o abusivo mais rápido que os homens – não raro, em poucos meses. Nelas, os danos a órgãos como fígado, cérebro e coração também surgem mais cedo, e a probabilidade de contrair infecções sexualmente transmissíveis é maior. O mesmo ocorre com o índice de distúrbios psiquiátricos, a ponto de mais da metade das pacientes relatarem tentativas de suicídio ou automutilação.

Sim, elas com frequência sofrem os impactos físicos, psiquiátricos e sociais antes dos homens, mas isso não é fruto de uma vulnerabilidade inata. Esse quadro se deve, em parte, a características hormonais e metabólicas de seu corpo, mas também – talvez principalmente – a fatores psicológicos (maior exposição a traumas, abandono ou violência) e socioculturais (estigma moral e sobrecarga de trabalho, entre outros). Física, mental e emocionalmente esgotadas, ficam mais vulneráveis à droga e a seus efeitos.

A desigualdade de gênero que as oprime em casa – onde normalmente são responsáveis pela maior parte das tarefas e pela criação dos filhos – e no trabalho – onde muitas vezes recebem menos do que homens com funções semelhantes – também mostra as garras quando a dependência se instala. Nos homens, é uma questão de “perda de controle”; nelas, de “perda de valor”. Essa diferença ainda marca políticas públicas de atendimento e as práticas profissionais, levando muitas a encararem sozinhas a doença.

A busca por tratamento, consequentemente, é lenta e penosa. Elas costumam demorar mais do que eles a procurar apoio, não por desleixo ou desinformação, mas pelo contexto social: vergonha, culpa, medo de ser vista como promíscua e até de perder a guarda dos filhos. Admitir e expor a dependência, para elas, é ganhar a pecha de egoísta, de caráter fraco, sem valor e incapaz de cumprir suas tarefas. O mesmo preconceito que as leva ao consumo, portanto, as afasta do atendimento médico apropriado. 

Este cenário precisa ser levado em conta por nossos futuros governantes, responsáveis pelas políticas de saúde. Ações contra o feminicídio e outras violências contra as mulheres são, mais que desejáveis, urgentes, e com certeza devem estar no discurso dos candidatos. A verdadeira epidemia de dependência química e distúrbios mentais entre elas, muitas vezes silenciosa mas nem por isso inofensiva, também é uma ameaça a sua integridade física e emocional.

Está mais que na hora de o Brasil, a exemplo de outros países, levar mais a sério esse assunto, investindo no atendimento primário, com foco na escuta e prevenção a esses casos. Nossas mães, filhas, esposas – todas, enfim, que nos cercam – merecem esse cuidado, e as eleições podem ser um ponto de partida para essa tarefa inadiável.

*Psiquiatra e diretor-presidente da Clínica Jorge Jaber

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