Casos de dengue aumentam 17,5% e cenário pode piorar no verão

78% dos criadouros do mosquito Aedes aegypti estão em residências. Mudanças climáticas e surgimento dos sorotipos 3 e 4 agravam quadro

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Tradicionalmente, com o início do período das chuvas e das altas temperaturas, o número de casos de denguechikungunyaZika tende a aumentar. Dados divulgados nesta sexta-feira (8) pelo Ministério da Saúde indicam que os casos prováveis de dengue no Brasil aumentaram 17,5% em 2023 em relação ao ano passado. As ocorrências passaram de 1,3 milhão de casos em 2022 para 1,6 milhão de casos este ano. Já a taxa de letalidade ficou em 0,07% nos dois anos, somando 1.053 mortes confirmadas em 2023 e 999 no ano passado.

“Fatores como variação climática, aumento das chuvas, número de pessoas suscetíveis às doenças e mudança na circulação de sorotipo do vírus podem ter contribuído para esse crescimento”, avaliou o ministério em nota. Os estados com maior incidência de dengue são Espírito Santo, Minas Gerais, Santa Catarina, Paraná, Mato Grosso do Sul, Distrito Federal e Goiás. 

A pasta destacou que a projeção de aumento de casos de dengue no verão brasileiro se deve a fatores como a combinação entre calor e chuva intensos, possíveis efeitos do El Niño, conforme aponta a Organização Mundial da Saúde (OMS). Outro agravante é o ressurgimento recente dos sorotipos 3 e 4 do vírus no Brasil.

“Estamos fazendo uma projeção de que, com a possibilidade de ampliação do sorotipo três da dengue, nós tenhamos um aumento de registro de casos. Temos mais de 15 anos sem a circulação desse vírus aqui no Brasil”, explica a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente Ethel Maciel.

Chikungunya e zika

Em relação à chikungunya, até dezembro de 2023, foram notificados 145,3 mil casos da doença no país, com taxa de incidência de 71,6 casos por 100 mil habitantes. Em comparação com o mesmo período de 2022, quando foram notificados 264,3 mil casos (123,9 casos por 100 mil habitantes), a redução foi de 42,2%. Este ano, foram confirmados ainda 100 óbitos provocados pela doença. As maiores incidências estão em Minas Gerais, no Tocantins e Espírito Santo. 

Já os dados de zika foram coletados pela pasta até o fim de abril de 2023. Ao todo, foram notificados 7,2 mil casos da doença, com taxa de incidência de 3,6 casos por 100 mil habitantes. Houve aumento de 289% em relação ao mesmo período de 2022, quando 1,6 mil ocorrências da doença foram notificadas. Até o momento, há registro de um óbito por zika em investigação.

78% dos criadouros estão em residências

O Levantamento Rápido de Índice de Infestação por Aedes aegypti (LIRAa) e o Levantamento de Índice Amostral (LIA) indicam que, em 2023, 74,8% dos criadouros do mosquito da dengue estão nos domicílios, como em vasos e pratos de plantas, garrafas retornáveis, pingadeiras, recipientes de degelo em geladeiras, bebedouros em geral, pequenas fontes ornamentais e materiais em depósitos de construção (sanitários estocados, canos).

Os números mostram ainda que depósitos de armazenamento de água elevados (caixas d’água, tambores, depósitos de alvenaria) e no nível do solo (tonel, tambor, barril, cisternas, poço, cacimba, cisterna) aparecem como segundo maior foco de procriação dos mosquitos, com 22%, enquanto depósitos de pneus e lixo têm 3,2%.

A pesquisa é realizada pela amostragem de imóveis e criadouros com água positivos para larvas de Aedes aegypti no âmbito municipal. Os estados consolidam os dados dos municípios e encaminham ao ministério. Para evitar o agravamento dos casos, a população deve buscar o serviço de saúde mais próximo ao apresentar os primeiros sintomas.

De acordo com o Ministério da Saúde, com as mudanças climáticas, altas temperaturas e períodos chuvosos, a expectativa é que o número de criadouros aumente e por isso, alerta para o empenho da sociedade para eliminar os criadouros e evitar água parada. As medidas são simples e podem ser implementadas na rotina. O MS sugere que a população faça uma inspeção em casa pelo menos uma vez por semana.

Para garantir a proteção contra o mosquito vetor das arboviroses, o Ministério da Saúde encaminha um biolarvicida aos estados e municípios, de acordo com a situação epidemiológica local e com a demanda. O produto representa uma alternativa eficiente no controle das larvas dos mosquitos, com baixo impacto ambiental.

Medidas de prevenção são intensificadas

De acordo com o Ministério da Saúde, o momento é de intensificar os esforços e as medidas de prevenção por parte de todos para reduzir a transmissão das doenças, por meio do mosquito Aedes aegypti. Cerca de 11,7 mil profissionais de saúde foram capacitados em 2023 para manejo clínico, vigilância e controle de arboviroses.

Como parte das ações de enfrentamento às doenças, a pasta anunciou R$ 256 milhões para o fortalecimento da vigilância das arboviroses. Do valor total do investimento, R$ 111,5 milhões serão efetivados até o fim deste ano, em parcela única, sendo R$ 39,5 milhões para estados e o Distrito Federal e R$ 72 milhões para municípios. Além disso, haverá repasse de R$ 144,4 milhões para fomentar ações de vigilância em saúde em todo o país.

“O combate a essas doenças é um esforço integrado com estados e municípios e, também, com a sociedade, para que possamos ter sucesso. Cerca de 74% das larvas do mosquito são encontradas próximas às residências e no, peridomicílio, que é o entorno das casas. Portanto, precisamos estar atentos e receber bem os agentes de endemia que cumprem um papel fundamental no enfrentamento à dengue”, disse a ministra da Saúde, Nísia Trindade.

Essas e outras iniciativas de combate às arboviroses foram apresentadas, nesta sexta-feira (8), em entrevista coletiva na sede do ministério, em Brasília. Foi lançada ainda a campanha de conscientização “Combate ao Mosquito: para fazer diferente, precisamos agir antes”.  A iniciativa de comunicação será veiculada na TV aberta, nas redes sociais e em locais de grande circulação de pessoas em todo país.

Confira a apresentação de slides na íntegra

COP28: Mudanças climáticas são desafio à saúde

A ministra da Saúde, Nísia Trindade, destacou a importância de ações coordenadas de combate às arboviroses, de esclarecimento junto à população e de acompanhamento epidemiológico e cientifico das doenças. Ela contou que pela primeira vez a COP28 – Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas teve um evento dedicado à saúde na programação oficial.

“Sabemos que, com as mudanças climáticas e o processo de aquecimento, há um impacto geral na saúde e, em especial, nos grupos mais vulneráveis. Há também um impacto muito acentuado em relação às arboviroses”, disse, ao citar o que classifica como um cenário desafiador.

Segundo ela, este desafio envolve as chamadas doenças de determinação ambiental e social porque afetam grupos mais vulneráveis. “É onde vemos esse impacto maior. Não só pela circulação do vírus, pela transmissão via Aedes aegypti e pelos criadouros de larva, mas também porque vemos essa situação em relação aos cuidados clínicos necessários.”

Nísia lembrou que o país já possui conhecimento científico validado que permite uma maior proteção da população.

“Estamos, neste momento, já pactuando muitas ações com estados e municípios. Como tudo que se faz no SUS, não é possível fazer de gabinete. Entre essas ações, destaco o fortalecimento da vigilância, o controle de vetores. Para isso, contamos com muitos meios no SUS e estamos destinando R$ 256 milhões.”

Acompanhe a transmissão do evento:

Consulta pública para incluir vacina da dengue no SUS

A Comissão Nacional de Incorporações de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) analisa neste momento a incorporação da vacina Qdenga ao Sistema Único de Saúde (SUS). Nessa quinta-feira (7), o ministério abriu consulta pública sobre o tema.

Considerando o cenário epidemiológico, a comissão já recomendou a incorporação do imunizante inicialmente para localidades e públicos prioritários a serem definidos pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI). 

A definição dos grupos e localidades para receber o imunizante deve considerar as regiões de maior incidência e transmissão da dengue e as faixas etárias de maior risco para agravamento da doença. A restrição de público, segundo o ministério, também leva em conta a capacidade de fornecimento das doses por parte da fabricante.

Todas as recomendações de incorporação de medicamentos e insumos feitas pela Conitec são submetidas à consulta pública por um período de 20 dias. A pasta destacou, entretanto, que, considerando a projeção epidemiológica para o próximo verão, com a possibilidade de aumento de casos de dengue, a consulta ficará aberta pelo prazo de dez dias.

Controle e vigilência são reforçados

Ainda em nota, o Ministério da Saúde informou estar em alerta e acompanhando o cenário das arboviroses desde o começo de 2023 no Brasil. No período de março a junho deste ano, quando se costuma registrar maior incidência de arboviroses no país, a pasta mobilizou o Centro de Operações de Emergências de Arboviroses (COE).

Ao todo, foram realizadas 11 ações de apoio aos estados com maior número de casos e óbitos por dengue e chikungunya. Também foram distribuídas cerca de 345 mil reações de sorologia e 131 mil exames de RT-PCR.

A pasta investiu R$ 84 milhões na compra de adulticida e larvicida para as ações de combate ao mosquito nos estados e municípios; lançou o painel público de dados de arboviroses; antecipou a campanha nacional de mobilização da população; capacitou de mais de 9.500 profissionais de saúde via UNA-SUS (Universidade Aberta do SUS) e 2.196 profissionais de saúde para manejo clínico, vigilância e controle de arboviroses com treinamento presencial.

Além disso, foi iniciado o processo de estratificação de risco intramunicipal em áreas prioritárias para a implementação de novas tecnologias, como armadilhas disseminadoras de larvicidas, Wolbachia e borrifação residual intradomiciliar. Também foi realizada uma Reunião de Preparação para o Período de Alta Transmissão das Arboviroses, que contou com a participação de representantes dos 26 estados e do Distrito Federal, além de 42 municípios prioritários.

Nas próximas semanas está previsto o lançamento do Guia de Manejo de Dengue e de Chikungunya, e das Diretrizes de Controle Vetorial. Haverá, ainda, investimentos na implementação de novas tecnologias de controle vetorial em 177 municípios de grande porte.

Método Wolbachia é ampliado

O governo federal anunciou ainda a ampliação do chamado método Wolbachia. A estratégia consiste na liberação de Aedes aegypti injetados com a bactéria Wolbachia, que inibe a transmissão de doenças. A proposta é que esses mosquitos se reproduzam com outros Aedes aegypti locais e ajudem a estabelecer uma nova população de insetos, todos portando a bactéria e, consequentemente, não transmitindo doenças.

O método Wolbachia está sendo expandido atualmente para Natal, Uberlândia (MG), Presidente Prudente (SP), Londrina (PR), Foz do Iguaçu (PR) e Joinville (SC). A estratégia já é utilizada em Campo Grande (MS), Petrolina (PE), Belo Horizonte (MG), Niterói (RJ) e no Rio de Janeiro.

Todas as ações em desenvolvimento e as futuras atividades de monitoramento e combate serão coordenadas pela SNA, com a participação de várias secretarias do Ministério da Saúde. O espaço terá como competência planejar, organizar, coordenar e controlar as medidas a serem empregadas durante a resposta; articulação com gestores estaduais e municipais do SUS; divulgação à população relativas à situação epidemiológica e assistência; e o acionamento de equipes.

“Vamos trabalhar também com o treinamento das equipes de Saúde da Família para o manejo desses casos, junto também com as coordenações de arboviroses em estados e municípios para aperfeiçoar a atuação dos agentes de combate a endemias (ACE)”, acrescenta a secretária Ethel Maciel.

Segundo ela, com os recursos, estados e municípios poderão ainda aumentar o número de ACEs e fazer a adesão à compra de soro fisiológico, sal de reidratação oral de outros insumos essenciais para lidar com uma possível epidemia de arboviroses e o aumento de casos de dengue em alguns estados.

Da Agência Brasil e Ministério da Saúde

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