Considerada uma nova esperança contra um inimigo minúsculo que há décadas atormenta a população brasileira – o Aedes aegypti -, uma nova vacina para prevenção da dengue começou a ser vendida esta semana na rede particular. O preço é salgado: em média R$ 400 cada dose (são duas para completar o esquema) – em alguns locais, pode chegar a 1 mil reais as duas – veja pesquisa exclusiva do Portal ViDA & Ação.

Apesar de aprovada em março deste ano pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), ainda não há previsão para a nova vacina chegar aos braços dos brasileiros pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Isso porque, até o momento, o laboratório japonês que produz o imunizante não apresentou qualquer pedido ou documentos para análise da sua inclusão na rede pública.

Será que a empresa terá capacidade de atender à demanda da rede pública de saúde brasileira, com segurança? É o que o Ministério da Saúde quer saber. Nesta quarta-feira (5/7), a pasta divulgou uma nota informando que “mantém diálogo aberto com o laboratório” e que está “na expectativa de apresentação da proposta”.

Ainda de acordo com o MS, desde março vêm sendo feitas reuniões com representantes da empresa, que deve solicitar a incorporação do imunizante no SUS e enviar informações sobre o produto para análise da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec).

“Estamos na expectativa da apresentação da proposta de incorporação por parte da empresa, com preços que considerem a abrangência do SUS e que reflitam o compromisso social das empresas que atuam no campo da saúde pública”, disse Carlos Gadelha, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde do Ministério da Saúde.

Segundo ele, a pasta acompanha com prioridade e o máximo interesse as pesquisas e os avanços tecnológicos relacionados à vacina contra a dengue.  “Nosso compromisso maior é incorporar a melhor tecnologia existente para a população contra a dengue, dando sustentabilidade para manter os brasileiros protegidos ao longo do tempo”, destacou. “Estamos seguindo rigorosamente a análise técnico-científica para garantir o acesso a vacinas que se mostrem efetivas”.

‘Programa integrado de gestão da dengue’

De acordo com a Takeda Pharma, a QDenga (TAK-003) – como a vacina foi batizada comercialmente – é a única vacina contra a dengue aprovada no Brasil para utilização em indivíduos independentemente da exposição anterior à dengue e sem necessidade de teste pré-vacinação. Logo após sua aprovação, pela Anvisa, José Manuel Caamaño, presidente da Takeda no Brasil, exaltou a conquista.

“O Brasil tem uma elevada prevalência de dengue e necessita de opções de vacinas eficazes e seguras para ajudar a gerir o ônus significativo da dengue no sistema de saúde e nas comunidades”, afirma. Ele chegou a dizer que o imunizante poderia se tornar “uma ferramenta importante para ajudar a combater a dengue como parte de um programa integrado de gestão da dengue, juntamente com o controle do vetor”.

“Com base nos resultados dos nossos estudos clínicos, esperamos que Qdenga possa ter um impacto positivo na incidência de dengue sintomática no Brasil, incluindo casos de dengue que requerem hospitalização”, comentou o executivo.

Cada dose da vacina é vendida por até 500 reais

Desde o último sábado (1/7), a vacina Qdenga já está no mercado para pessoas de 4 a 60 anos em todas as regiões do país. São duas doses, com intervalo de três meses entre cada uma. É preciso esperar de 28 a 30 dias para se vacinar com outros imunizantes. A exceção é para a febre amarela e a hepatite A, que podem ser administradas juntos com a de dengue.

Os valores variam de acordo com o lugar onde e o bolso do paciente. Em rápida pesquisa, ViDA & Ação identificou os seguintes valores:

A clínica Salus Imunizações informou que oferece a vacina a valores que variam de R$ 400 a R$ 450. Já o Grupo Sabin disponibiliza o imunizante em seu e-commerce por R$ 428 (dose) e R$ 836 (combo).

O Tecnocold Vacinas – que detém 65% de participação no atendimento a hospitais, clinicas, laboratórios e farmácias – informou que o valor varia entre R$ 350 e R$ 500 cada dose.

Na Alliança Saúde, a dose sai por R$ 399 nos 9 estados com o serviço: CBD e Plani (São Paulo); Axial e São Judas Tadeu (Minas Gerais); Multiscan (Espírito Santo), Delfin (Bahia); CSD (Pará); Multilab (Amazonas, Amapá, Mato Grosso do Sul) e Sabedotti (Paraná).

Já na Panvel Clinic, na Região Sul e em São Paulo, a vacina é oferecida por R$ 369,00 a dose ou R$ 339 cada para quem comprar as duas doses (totalizando R$ 678), até domingo (9/7) – a compra dá direito a aplicação.

A rede ainda oferece o Exame Rápido de Dengue Duo, que detecta de maneira diferencial e simultânea os anticorpos IgG e IgM e antígeno NS1. “De forma prática e segura, com apenas uma gota de sangue, o resultado sai em 15 minutos”, promete a Panvel.

Outras redes laboratoriais que estão aproveitando a liberação para divulgar os benefícios da vacina e propagar seus serviços não informaram o valor do imunizante em suas unidades.

Como a nova vacina foi produzida e seus benefícios

O imunizante previne cerca de 80% dos casos gerais de dengue, cerca de 15% a mais do que vacinas anteriores, e reduz em mais de 90% a hospitalização. Pode ser aplicado para quem teve exposição ao vírus da dengue, mas não é indicado para grávidas, lactantes e pessoas em tratamento com imunossupressão.

A eficácia é alta para casos sintomáticos e também previne mortalidade. A vacina protege contra todos os quatro tipos do vírus causadores da doença, apresenta maior eficácia que a anterior disponível no mercado.

A nova vacina contra a dengue foi produzida a partir do tipo 2, vírus mais grave da doença e faz proteção contra os quatro tipos de vírus. São quatro os vírus que podem causar dengue: DENV1, DENV2, DENV3 e DENV4, sendo os tipos 1, 2 e 4 os mais comuns no Brasil. Já o tipo 3 não causa epidemias no país há cerca de 15 anos.

Especialistas observam que quando uma situação como essa acontece, de um sorotipo ser introduzido ou voltar a circular, aumentam as chances de um surto ou epidemia, porque há muitas pessoas sem defesas contra aquele tipo de vírus da dengue.

“Como existem quatro sorotipos de vírus da dengue, quando a pessoa é contaminada, fica imune (protegido) àquele tipo específico, por exemplo o DENV1. Mas pode contrair novamente a doença pelos outros tipos do vírus. A nova vacina mostrou-se eficaz na proteção contra todos os sorotipos”, explica a médica infectologista Ana Rosa dos Santos, consultora de Imunização do Sabin Diagnóstico e Saúde.  

Redução da dependência externa de vacinas e outros insumos

A atual gestão do Ministério da Saúde informa que retomou o fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde para “reduzir a dependência externa do país e para assegurar o acesso da população a insumos essenciais”. Carlos Gadelha, secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Complexo da Saúde do MS, diz que a prioridade à produção nacional não impede a importação de produtos.

“O Ministério da Saúde tem uma política de apoiar a produção local, todavia, jamais essa orientação será em detrimento do acesso da população quando as tecnologias se mostrarem eficazes e com possibilidade de aquisição pelo SUS”, afirma.

Segundo ele, em nenhum momento o Ministério da Saúde se colocou contrário, em caso de necessidade da população, de importar vacinas que tenham qualidade, eficácia, segurança para as pessoas e que as empresas tenham compromisso social de apresentar um preço que seja viável de garantir o acesso universal”, explica.

Entenda o fluxo de incorporação de tecnologias em saúde no SUS

Para que um medicamento ou vacina chegue à população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), um rigoroso processo deve ser seguido, levando em conta a segurança, eficácia, custo-efetividade, necessidade, impacto orçamentário, além do aval da Anvisa, que autoriza a circulação do produto no país.

À Conitec, cabe a tarefa de recomendar ou não a inclusão, alteração ou exclusão de um medicamento, imunizante ou outra tecnologia em saúde no sistema público brasileiro. Ao Ministério da Saúde cabe a decisão final sobre a incorporação da tecnologia no SUS.

A comissão tem 180 dias, prorrogáveis por mais 90, para a tomada de decisão. Todas as recomendações emitidas pela Conitec são submetidas à Consulta Pública pelo prazo de 20 dias, exceto em casos de urgência do tema, quando o período pode ser reduzido a 10 dias.

vacina pode ser aplicada para quem teve exposição ao vírus da dengue, mas não é indicada por grávidas, lactantes e pessoas em tratamento com imunossupressão. Além disso, é preciso esperar de 28 a 30 dias para se vacinar com outros imunizantes. A exceção é para a febre amarela e a hepatite A, que podem ser administradas juntos com a de dengue.

Com Ministério da Saúde e Assessorias (atualizada em 6/7/23)

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