O Rio de Janeiro está no epicentro de uma epidemia silenciosa: o vício em bets. A capital fluminense lidera o ranking nacional com 1.793.348 de CPFs ativos em plataformas de apostas online. É mais do que o dobro do registrado na cidade de São Paulo – que contabilizou cerca de 715 mil cadastros na mesma pesquisa  do Sistema de Gestão de Apostas (Sigap), vinculado ao governo federal –, revelando uma adesão desproporcional ao tamanho da população.

O avanço desenfreado do mercado de apostas virtuais na cidade acaba de ganhar um novo e decisivo capítulo na saúde pública carioca. A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) do Rio de Janeiro formalizou a inclusão da investigação sobre o vício em apostas (bets) na rotina de atendimentos da Atenção Primária.

A medida passa a integrar as consultas realizadas nas Clínicas da Família e Centros Municipais de Saúde da capital, aplicando uma dinâmica de rastreamento ativo semelhante àquela adotada historicamente para o controle do tabagismo e o diagnóstico de depressão.

Na prática, os profissionais de saúde realizam duas perguntas estratégicas durante o acolhimento. A presença de respostas positivas aciona um sinal de alerta no prontuário eletrônico, dando início imediato ao acompanhamento do paciente e de seus familiares.

Da triagem à busca ativa no Rio: a urgência do diagnóstico precoce

Diante do volume expressivo de apostadores no território fluminense, a nova diretriz municipal busca contornar a resistência do paciente em procurar ajuda por iniciativa própria. Segundo o secretário municipal de Saúde do Rio, Rodrigo Prado, o transtorno raramente se manifesta de forma isolada na porta de entrada do sistema, vindo disfarçado sob sintomas físicos e psicológicos severos.

O vício em apostas é um problema de saúde pública. Ele chega ao nosso sistema em forma de ansiedade, insônia, depressão, violência doméstica, dívida que vira adoecimento da família inteira. Assim como acontece com o tabagismo e com a depressão, é muito difícil a pessoa que tem problema com apostas buscar ajuda por conta própria”, ressalta Prado.

Em apenas uma semana de aplicação do protocolo nas unidades cariocas, das 3.070 pessoas consultadas, 22 admitiram a necessidade de apostar (cerca de 1% da amostragem) e 15 revelaram que mentiam para familiares para esconder o prejuízo financeiro acumulado.

Ao instituir esse rastreio, a gente para de esperar que o paciente nos procure com a demanda do vício e passa a oferecer apoio ativamente, ampliando a capacidade de identificação de casos e, consequentemente, de tratamento”, disse o secretário.

Mapeamento local: perfis e o impacto na dinâmica familiar

A formulação do plano municipal no Rio contou com uma análise prévia liderada pelo Núcleo de Inteligência Assistencial da SMS (NIA), que utilizou modelos de linguagem natural para analisar relatos registrados em prontuários eletrônicos da rede municipal. A varredura identificou 1.378 pessoas associadas ao sofrimento decorrente das apostas.

O levantamento desenhou o perfil sociodemográfico de quem adoece direta e indiretamente na cidade:

  • O perfil do apostador: Entre os 567 adultos que admitiram o hábito e buscaram auxílio por conta própria, quase 60% eram homens, com idade mediana de 37 anos. A faixa etária entre 18 e 39 anos concentrou 53% dos casos registrados.

  • A sobrecarga familiar: No grupo de 325 familiares que procuraram as unidades de saúde em busca de orientação devido ao esgotamento emocional e financeiro, a realidade se inverte: 85% eram mulheres (mães e esposas), com idade mediana de 45 anos.

  • A vulnerabilidade entre adolescentes: Um dos indicadores mais preocupantes do levantamento revelou que 25 pacientes identificados tinham menos de 18 anos — dos quais 22 eram meninos. O achado reforça o alerta sobre o apelo de jogos de azar e aplicativos de apostas de acesso rápido pelo celular junto ao público infanto-juvenil, mesmo diante da proibição legal para menores de idade.

Acolhimento e linhas de cuidado

A nova linha de cuidados na Atenção Primária do Rio prevê uma avaliação clínica individualizada. Os casos detectados recebem abordagens graduadas de acordo com o nível de severidade: orientações e suporte preventivo nas situações brandas, ou encaminhamento para equipes multiprofissionais e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) nos cenários graves.

Além disso, a estratégia contempla o suporte e o acolhimento preventivo aos familiares, permitindo que recebam orientação na Atenção Primária mesmo que o apostador ainda recuse o acompanhamento terapêutico. As ações incluem a capacitação contínua de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) por meio de qualificações oferecidas pelo Ministério da Saúde, fortalecendo o olhar atento durante as visitas domiciliares.

O prefeito Eduardo Cavaliere destacou a urgência de agir no âmbito do cuidado contínuo:

A cidade do Rio foi pioneira entre as grandes cidades brasileiras no combate à propaganda e publicidade de bets. Agora, a Prefeitura começou a agir também dentro da rede de saúde. Toda consulta nas clínicas da família da cidade e nos centros municipais de saúde passou a ter duas perguntas sobre apostas. Se aparecer um sinal de problema, entra no prontuário, e a equipe começa a acompanhar a pessoa imediatamente”, reforça Cavaliere.

Rio no topo das apostas e explosão de atendimentos no SUS

A urgência de implementar o rastreio ativo na Atenção Primária não acontece por acaso.  Dados recentes divulgados pelo Ministério da Fazenda apontam o estado na liderança nacional no volume absoluto de apostadores em plataformas digitais e explicam por que o Rio vem sendo chamado nas análises de mercado como a “capital das Bets” do país. 

  • Capital (Cidade do Rio de Janeiro): Cerca de 1,8 milhão de pessoas realizaram apostas em plataformas regulamentadas. Esse contingente de apostadores ativos na cidade supera a população inteira de capitais como Porto Alegre, Belém ou Goiânia.

  • Estado do Rio de Janeiro: O total de apostadores cadastrados (CPFs ativos) atinge a marca de aproximadamente 1,8 milhão a 2,2 milhões de pessoas em todo o território fluminense, posicionando o estado no topo do ranking nacional de adesão absoluta a plataformas de apostas online.

Impacto financeiro e adesão proporcional

  • Volume financeiro: Um levantamento divulgado no final de julho pelo Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises (IFec RJ) indicou que os moradores da Região Metropolitana do Rio gastam cerca de R$ 2,2 bilhões por ano com apostas.

  • Renda familiar: O esgotamento financeiro que tem levado famílias inteiras ao adoecimento também é mensurável localmente. A pesquisa apontou que 22,7% da população da região já aderiu aos jogos, sendo que 36% desse público sobrevive com renda entre um e dois salários mínimos — justamente a fatia mais vulnerável e dependente da rede pública de saúde.
  • Percentual populacional: Estudos de percepção de mercado e dados populacionais indicam que cerca de 38,2% dos moradores adultos do estado do Rio de Janeiro já tiveram algum contato ou engajamento recente com jogos de apostas virtuais.

Cenário nacional e canais de apoio

O raio-x do Ministério da Fazenda revela a dimensão do problema: em 2025, o Brasil somava mais de 25 milhões de apostadores ativos — o equivalente a cerca de 18% da população adulta. O perfil predominantemente atingido é composto por homens entre 18 e 50 anos. Juntos, esses jogadores acumularam perdas estimadas em R$ 38 bilhões no último ano.

Levantamentos como o do DataSenado e estudos do setor mostram que, em termos proporcionais (porcentagem da população que aposta), estados do Norte e Nordeste, como Tocantins, Roraima, Pará e Alagoas, registram as maiores taxas de engajamento por habitante.

O fenômeno companha a sobrecarga nos serviços de saúde pública. Dados do Ministério da Saúde divulgados no último mês de maio indicam que a procura por assistência em saúde mental no Sistema Único de Saúde (SUS) devido ao vício em jogos registrou um salto de 140% entre 2018 e 2025.

Para conter o avanço do ludopatia, o governo federal estruturou canais de apoio e prevenção:

  • Plataforma de autoexclusão de CPF: Integração via portal do Governo Federal com o Ministério da Fazenda que permite ao cidadão solicitar o bloqueio voluntário do seu CPF em todas as casas de apostas autorizadas do país, interrompendo o envio de publicidade direcionada e bloqueando novos cadastros.

  • Teleatendimento e triagem no Meu SUS Digital: Ferramenta com autoteste anônimo para avaliar o nível de dependência do usuário, direcionando para assistência na rede física do SUS ou teleatendimento com profissionais de saúde mental.

 

Com informações da SMS-Rio

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