Expressões como “estou em hiperfoco nessa série”, “meu hiperfoco agora é academia” se tornaram comuns no ambiente digital. O termo “hiperfoco” ganhou popularidade nas redes sociais nos últimos anos e passou a ser usado de forma ampla para descrever qualquer interesse intenso ou entusiasmo momentâneo por um assunto.
Os interesses intensos passam a ser um alerta para um hiperfoco clínico, associado a condições como o TDAH – Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e TEA – Transtorno do espectro autista, quando o indivíduo apresenta nível muito elevado de concentração e dificuldade de desengajamento em atividades, envolvendo uma absorção muito profunda e persistente, frequentemente acompanhada de perda da noção do tempo.
E quando a pessoa fica tão obstinada ou focada em um único pensamento, estímulo, objeto ou preocupação que se torna incapaz de desviar a atenção para outras coisas essenciais da rotina? Neste caso, os especialistas chamam de hiperprosexia, uma alteração da atenção caracterizada por um estado de hipervigilância ou atenção excessiva e fixa em algo específico. alteração da atenção caracterizada por um estado de hipervigilância ou atenção excessiva e fixa em algo específico.
Diferente da concentração saudável ou do hiperfoco clínico como uma característica comum no espectro autista, marcada por uma habilidade de concentração obsessiva e profunda em um único interesse, a hiperprosexia é um sintoma disfuncional e involuntário.
Ela funciona quase como um “efeito funil” na mente, onde o cérebro ignora todo o resto do ambiente ao redor. A pessoa com hiperprosexia não está com “falta de atenção” (hipoprosexia), ela está com excesso de atenção canalizado no lugar errado, o que gera exaustão mental e prejuízo nas atividades do dia a dia.
Hiperprosexia vs. Hiperfoco: Qual a diferença?
1. Hiperfoco (o foco baseado no interesse)
- Como funciona: O cérebro entra em um estado de absorção tão profunda que a pessoa perde a noção do tempo, esquece de comer ou dormir. Embora possa prejudicar a rotina, o hiperfoco costuma gerar sentimentos de satisfação, alta produtividade e relaxamento para quem o vivencia.
- Exemplo clássico: Passar 10 horas seguidas programando um código, desenhando ou estudando exaustivamente um tema de interesse específico (como astrofísica ou dinossauros).
2. Hiperprosexia (A Atenção Rígida e Sofrente)
- Como funciona: Não há prazer envolvido. A atenção da pessoa é “sequestrada” de forma involuntária por um estímulo, pensamento ou preocupação fixa. Ela não consegue alternar o foco para as demandas comuns da vida por fadiga ou bloqueio rígido do fluxo mental.
- Exemplo clássico: Uma pessoa que não consegue trabalhar porque sua mente está fixada obsessivamente na palpitação do próprio coração (medo de infarte) ou na ruminação contínua de uma falha do passado.
Em quais transtornos a hiperprosexia está geralmente presente?
- Transtornos de Ansiedade e Transtorno Misto (CID F41): Manifesta-se como uma hipervigilância ao perigo. O paciente fixa sua atenção em sintomas físicos (taquicardia) ou em pensamentos de catástrofe iminente, sem conseguir se distrair com estímulos externos.
- Transtorno Depressivo (CID F32): Aparece na forma de ruminações depressivas. A atenção do paciente fica presa e petrificada em ideias de culpa, inutilidade, ruína ou rejeição.
- Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC):A atenção fica totalmente cravada na ideia obsessiva (ex: contaminação, simetria ou checagem), impedindo que o fluxo de pensamento do indivíduo prossiga normalmente até que uma compulsão seja realizada.
- Episódios de Mania (Transtorno Bipolar):Em estados de euforia ou agitação extrema, o paciente pode apresentar uma hiperprosexia transitória e instável, onde ele se fixa obstinadamente em um plano grandioso ou ideia mirabolante com infatigabilidade.
- Esquizofrenia e Delírios:A atenção pode se voltar inteiramente para estímulos internos (como alucinações auditivas) ou para a interpretação de pistas do ambiente que alimentem um delírio persecutório (como achar que as câmeras da rua o estão filmando).
Hiperfoco: até onde ter muito interesse por coisas e assuntos é normal?
O interesse mais direcionado por determinados assuntos costuma começar a aparecer ainda na primeira infância, geralmente entre os 2 e 6 anos, embora isso varie bastante de criança para criança. Nessa fase, é comum surgirem fascínios intensos e repetitivos por temas específicos, como dinossauros, trens, espaço, animais, mapas, números, princesas, super-heróis, músicas, entre outros.
Segundo o psicólogo Marcelo Freitas, orientador educacional do Brazilian International School – BIS, de São Paulo (SP), isso acontece por uma combinação de fatores ligados ao desenvolvimento cerebral, emocional e social. “Conforme a criança cresce, ela passa a reconhecer padrões, criar preferências, exercitar a memória e buscar atividades que gerem prazer e previsibilidade. O cérebro infantil também é naturalmente muito curioso.
Quando algo desperta encantamento ou oferece recompensas emocionais e cognitivas, a tendência é que a criança queira repetir aquela experiência várias vezes. Isto pode ser percebido no dia a dia: a criança vê um mesmo desenho diversas vezes, escuta a mesma música, mesmo sabendo o enredo”, explica.
Na idade escolar, especialmente entre 6 e 10 anos, esses interesses costumam ganhar mais profundidade. A criança já consegue acumular informações, fazer conexões mais complexas e desenvolver senso de identidade (‘eu gosto disso’, ‘quero aprender mais sobre aquilo’). “Em muitos casos, esses interesses ajudam no desenvolvimento da linguagem, da criatividade, da autonomia e até da socialização”, acrescenta Freitas.
Já na adolescência, é bastante comum que jovens desenvolvam interesses intensos por artistas, bandas, séries, jogos, esportes ou influenciadores. Colecionar álbuns, acompanhar entrevistas, decorar informações, participar de fã-clubes e consumir conteúdos relacionados àquilo faz parte do processo típico de construção de identidade, pertencimento social e expressão emocional dessa fase da vida.
A adolescência é marcada por mudanças cognitivas e emocionais importantes, além de uma busca mais intensa por referências, grupos de identificação e interesses que ajudem o jovem a definir gostos, valores e personalidade. Ter assuntos favoritos faz parte do desenvolvimento típico. Por isso, é natural que determinados temas ocupem grande espaço no cotidiano dos adolescentes durante esse período”, afirma Alessandra Mafra Ribeiro, da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP).
Nessa fase, os interesses tendem a ser mais flexíveis, socialmente compartilhados e transitórios, mesmo quando parecem exagerados e obsessivos para os adultos ao redor. Segundo Alessandra, o problema é quando o jovem, seja ele neurodivergente ou neurotípico, passa a se isolar socialmente ou deixa de realizar atividades básicas para manter a atividade em que está interessado.
Em vez de limitar completamente a atividade, algumas sugestões, para os pais, são construir combinados e estabelecer limites junto com a criança ou jovem. Por exemplo: se a família janta todos os dias às 19 horas, pode haver um acordo para que ele faça uma pausa nesse horário, garantindo um momento em família e a refeição com qualidade. Ou ainda, se ele tem uma prova em dois dias, combinar que, após o jantar, ele dedicará um determinado tempo aos estudos”.
Quando o interesse excessivo é um alerta
Gostar muito de um tema, ou passar horas no fim de semana vendo vídeos sobre um assunto específico não configura necessariamente hiperfoco clínico. Segundo Carla Litrenta, psicopedagoga e educadora parental da Escola Internacional de Alphaville – EIA, de Barueri (SP), o que diferencia interesses comuns do hiperfoco clínico é principalmente o nível de intensidade, rigidez e impacto funcional.
No hiperfoco, a criança e jovem pode apresentar dificuldade real de interromper a atividade ou mudar de assunto, mesmo quando precisa realizar outras tarefas importantes, como estudar, dormir, se alimentar ou interagir socialmente. Também pode haver sofrimento, irritação ou desregulação quando esse interesse é interrompido”, afirma.
No caso do TDAH, crianças e adolescentes podem ter dificuldade para manter o foco em atividades consideradas pouco estimulantes, mas mergulhar intensamente em temas que despertam grande interesse, prazer ou recompensa imediata.
Nesses casos, o transtorno está mais relacionado à dificuldade de regular a atenção do que à incapacidade de se concentrar. É comum que ignorem distrações externas, percam a noção do tempo e tenham dificuldade de interromper a atividade em questão”, explica Carla.
Já no transtorno do espectro autista (TEA), é comum que crianças e adolescentes desenvolvam interesses muito intensos e específicos por determinados temas, atividades ou objetos. Esses interesses proporcionam ao autista uma certa sensação de conforto, segurança e bem-estar.
Dependendo da intensidade e da forma como se manifestam, podem até mesmo contribuir positivamente para aprendizagem, memória e aprofundamento de conhecimentos”, diz Carla. “Mas o interesse excessivo, em alguns casos, também pode causar sofrimento, isolamento, dificuldades na rotina ou grande irritação diante de mudanças, interrupções ou da necessidade de realizar outras atividades”.
Pais e responsáveis devem estar atentos
Na opinião de Caroline Sternberg, orientadora parental e educacional do colégio Progresso Bilíngue de Itu (SP), as famílias devem observar não apenas a intensidade do interesse da criança ou adolescente, mas principalmente os impactos deste comportamento na rotina, no bem-estar emocional e nas relações sociais.
Em vez de proibir ou ridicularizar os assuntos de interesse, o mais indicado é acolher esse entusiasmo, mas ao mesmo tempo ajudar a criança a desenvolver equilíbrio e flexibilidade no dia a dia. Uma forma de fazer isso é estabelecer combinados e incentivar pausas entre as atividades, convidando a criança para outras experiências, como brincar ao ar livre, praticar esportes, participar de momentos em família ou conversar sobre temas diferentes”, afirma Caroline.
Outra forma de ajudar a criança ou o adolescente é avisar com antecedência sobre mudanças de atividade, criar transições graduais e mostrar que há espaço para o interesse especial sem que ele ocupe toda a rotina. A escola também exerce papel fundamental nesse processo, atuando como parceira da família na observação de comportamentos e no desenvolvimento de estratégias para ampliar repertórios e estimular habilidades sociais, emocionais e acadêmicas.
Educadores conseguem perceber, por exemplo, quando o estudante demonstra dificuldade constante para mudar de assunto, se irrita intensamente ao ser interrompido, evita interações sociais ou deixa de participar de atividades importantes por causa daquele interesse específico”.
O diálogo entre família e escola ajuda a entender se aquele comportamento faz parte do desenvolvimento esperado ou se está trazendo prejuízos reais para a criança ou adolescente. “Em situações de sofrimento emocional, isolamento excessivo ou impactos significativos na aprendizagem e na rotina, é preciso buscar avaliação com profissionais de saúde mental, como psicólogos, psiquiatras e neurologistas”, finaliza Caroline.




