O início do inverno, que acontece oficialmente neste domingo (21 de junho), acende um alerta vermelho para a saúde pública no Brasil. A chegada da estação mais fria do ano coincide com o Dia Nacional de Controle da Asma, uma data que serve como um divisor de águas clínico: é o momento em que as temperaturas caem, o ar fica mais seco e os vírus respiratórios passam a circular com maior intensidade.
Para os cerca de 20 milhões de brasileiros que convivem com a asma, o cenário é alarmante. Estimativas apontam que apenas 1 em cada 8 pacientes tem a doença sob controle no país. O grande perigo reside em um equívoco comum: associar a falta de sintomas diários ao controle da patologia.
Estudo nacional publicado no Journal of Asthma revela que apenas 12,3% dos pacientes diagnosticados atingem o patamar de controle real, que significa não acordar à noite com tosse, não ter limitações para atividades físicas e não depender frequentemente de broncodilatadores de resgate (as populares “bombinhas” de alívio). Os outros 87,7% entram no inverno vulneráveis a um gatilho perigoso: as Infecções das Vias Aéreas Superiores (IVAS).
O gatilho das infecções respiratórias e o gargalo no SUS
O reflexo desse descontrole impacta diretamente o Sistema Único de Saúde (SUS). Condições sensíveis à atenção primária, categoria que inclui a asma e as infecções respiratórias, respondem por mais de 20% das internações no SUS, conforme dados do Departamento de Informática do SUS (DATASUS).
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil registrou um salto de 63% nas internações por asma em um período recente de cinco anos, saltando de 47.814 para 78.314 casos. Entre 2019 e 2023, a doença — que é perfeitamente tratável — foi a causa da morte de 12.195 pessoas no país.
A falta de diagnóstico na infância agrava o problema. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) apontou que 23% dos estudantes do 9º ano apresentavam sintomas compatíveis com a asma, mas apenas 12% tinham o diagnóstico médico formal.
A recomendação da Iniciativa Global para a Asma (GINA) é enfática: o pilar do tratamento eficaz baseia-se no uso regular de corticoides inalatórios para o controle contínuo e prevenção de ataques fatais. A diretriz preconiza o acesso universal a esses dispositivos, preferencialmente em inaladores combinados “2 em 1” (corticoide inalatório associado a um facilitador de alívio rápido).
No Brasil, o Programa Farmácia Popular do Brasil oferece gratuitamente o broncodilatador (salbutamol) e o corticoide inalatório (beclometasona) mediante a apresentação de prescrição médica válida.
Haja coração: como as emoções da Copa do Mundo podem engatilhar crises de asma
Fora de campo, a forte carga emocional dos jogos da Seleção Brasileira atua como gatilho biológico para quem não está com a doença controlada
Além do inverno, o Dia Nacional de Controle da Asma (21 de junho) em 2026 traz um ingrediente extra de atenção para os brasileiros: a Copa do Mundo. Gols nos acréscimos, decisões por pênaltis e a tensão das partidas da Seleção Brasileira mudam o ritmo cardíaco e a respiração dos torcedores. Para quem convive com a asma, essa descarga severa de adrenalina e nervosismo pode se transformar em um gatilho perigoso para crises.
É comum associar o agravamento da doença apenas a fatores ambientais, como a poeira e o ar frio. No entanto, as situações de forte ansiedade vividas na torcida alteram diretamente o funcionamento do organismo, funcionando como um estopim clínico em indivíduos mais suscetíveis.
Camilla Miranda, pneumologista do Hospital Casa Evangélico, localizado na Tijuca, Rio de Janeiro, explica como o estresse dos 90 minutos de jogo se reflete diretamente nos brônquios. Segundo ela, em momentos de grande tensão ou emoção, o organismo entra em estado de alerta e libera hormônios relacionados ao estresse, como a adrenalina e o cortisol. Isso pode provocar alterações no padrão respiratório, levando a uma respiração mais rápida e superficial.
Em pessoas com asma, quando a doença não está bem controlada, essa mudança pode aumentar a sensibilidade das vias aéreas e favorecer o surgimento de sintomas como falta de ar, chiado no peito, tosse e sensação de aperto no tórax. Não significa que toda emoção desencadeará uma crise, mas pode funcionar como um fator em indivíduos mais suscetíveis.”
A especialista reforça que, quando o tratamento preventivo é realizado corretamente no dia a dia, o pulmão fica protegido e o paciente consegue lidar muito melhor com esses picos emocionais. “Com acompanhamento médico regular, o paciente leva uma vida ativa, podendo praticar atividades físicas e participar de atividades do dia a dia sem limitações, inclusive em momentos de grande emoção como a Copa do Mundo”, afirma a médica, incentivando a torcida pelo hexa, mas com a saúde respiratória protegida.
Cuidados para o torcedor asmático nos dias de jogos
Para garantir que a vibração pelo Brasil aconteça sem sustos ou idas de emergência ao pronto-socorro, algumas medidas simples devem ser adotadas antes de a bola rolar:
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Medicação em dia: Nunca interrompa ou esqueça o uso dos corticoides inalatórios de controle contínuo, especialmente nos dias de maior tensão.
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Atenção aos ambientes: Evite aglomerações em locais fechados e com fumaça de cigarro, narguilé ou churrasqueiras, que inflamam ainda mais as vias aéreas.
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Hidratação constante: Beba água durante os jogos. Manter as mucosas hidratadas ajuda a diminuir a irritação na garganta provocada pelos gritos de gol.
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Sinal de alerta: Se os sintomas de falta de ar e chiado começarem a se intensificar durante a partida e não melhorarem com a medicação de resgate, busque assistência médica imediatamente.
A diferença entre aliviar o sintoma e tratar a inflamação
A asma é uma doença inflamatória crônica dos brônquios. Durante o inverno, o ar frio e seco atua como um irritante direto das vias aéreas, que já estão sensíveis, gerando episódios de falta de ar, chiado no peito, tosse seca e sensação de opressão torácica.
O erro de muitos pacientes é interromper o uso das medicações assim que sentem uma melhora inicial, recorrendo apenas aos broncodilatadores de curta ação (como o salbutamol) na hora da crise. Médicos alertam que esses medicamentos apenas aliviam o espasmo muscular momentâneo, mas não tratam a raiz do problema.
Rafael Futoshi Mizutani, pneumologista do Hospital Nipo-Brasileiro (HNipo), alerta para os motivos dessa vulnerabilidade histórica durante a estação:
O inverno é o período mais crítico para o paciente asmático, pois o ar seco e a permanência em locais fechados fragilizam as defesas do pulmão. O grande perigo reside na falta de controle contínuo da doença. Muitos pacientes interrompem o uso das medicações assim que sentem uma melhora inicial dos sintomas, enquanto outros enfrentam sérias barreiras para acessar os serviços de saúde e os medicamentos essenciais, deixando o organismo totalmente exposto a crises severas”.
Asma infantil: quando o resfriado exige atenção imediata
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estima que crianças saudáveis em ambientes urbanos podem contrair de oito a 12 infecções respiratórias por ano, com tosses que duram em média 10 dias. Contudo, em crianças asmáticas — onde a asma alérgica é a manifestação mais comum —, o monitoramento deve ser rigoroso.
Talia Andrea Soria Muñoz, pneumologista pediátrica da Pediatria Star, do Hospital Vila Nova Star (Rede D’Or), destaca os sinais de alerta que indicam que a crise ganhou gravidade e a família deve buscar um pronto-socorro pediátrico imediatamente:
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Respiração visivelmente rápida ou realizada com grande esforço;
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Afundamento das costelas ou da região da fúrcula (abaixo do pescoço) ao respirar;
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Dificuldade para falar, mamar ou se alimentar devido ao cansaço;
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Lábios ou extremidades dos dedos arroxeadas (cianose);
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Prostração ou sonolência excessiva;
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Ausência de resposta à medicação de resgate previamente orientada pelo médico.
O que fazer com uma criança em crise de asma?
De acordo com dados da Alice, plano de saúde corporativo, as idas ao pronto-socorro (PS) por IVAS — quadros que englobam rinite, laringite e o resfriado comum — já registraram uma alta de 16% em maio de 2026, antecipando o pico do inverno.
Quando pais e responsáveis não têm a quem recorrer às onze da noite com uma criança tossindo há cinco dias, o pronto-socorro vira a única resposta disponível. Não porque seja a mais resolutiva para aquela queixa, mas porque é a única porta aberta”, explica Daniel Knupp, líder médico na Alice.
Para um asmático sem o tratamento preventivo adequado, o que parece um vírus banal pode evoluir rapidamente para uma crise respiratória grave.
O que a medicina de família faz nesse momento é diferente: ela avalia o histórico, considera se a criança tem asma ou rinite e decide junto com os pais se é hora de observar, tratar em casa ou ir ao pronto-socorro. Isso é coordenação de cuidado.”
Guia de cuidados para passar pelo inverno sem crises
A asma não tem cura, mas o diagnóstico precoce e a adesão ao tratamento preventivo garantem uma vida normal e livre de internações, transformando o inverno em apenas mais uma estação comum. Para reduzir a exposição aos gatilhos ambientais na estação fria, especialistas recomendam adotar medidas práticas de prevenção no dia a dia:
| Categoria | Cuidados recomendados |
| Imunização | Manter a carteira de vacinação atualizada, incluindo as doses anuais contra a gripe, Covid-19 e pneumonia. |
| Ambiente doméstico | Higienizar a casa com pano úmido (evitando vassouras que suspendem a poeira); eliminar ácaros, mofo e pelos de animais; evitar cheiros fortes e o uso excessivo de produtos químicos de limpeza. |
| Atividade física | Manter os exercícios regulares para fortalecer a capacidade respiratória, mas evitar locais próximos a vias de grande tráfego devido à poluição concentrada. |
| Hábitos diários | Manter o corpo agasalhado, evitar banhos excessivamente quentes que ressecam a pele e manter uma ingestão rigorosa de água para garantir a hidratação das mucosas respiratórias. |
Com Assessorias
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