A situação dos oceanos atingiu um patamar crítico que exige respostas coordenadas e imediatas de governos, cientistas e sociedade civil. O terceiro ciclo da Avaliação Mundial dos Oceanos (WOA-3), divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) neste Dia Mundial do Oceano (8 de junho) aponta que os principais indicadores de saúde marinha pioraram drasticamente nos últimos anos.

O documento, que reuniu mais de 550 especialistas de 86 países, mostra que o aquecimento das águas, a elevação do nível do mar e a perda de biodiversidade avançam em ritmo acelerado. O relatório destaca que o oceano funciona como o principal amortecedor da crise climática global, mas os sinais de estresse estão se tornando cada vez mais evidentes prejudicando sua atuação na regulação climática.

Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e um dos coautores brasileiros do relatório da ONU, explica que o aquecimento global altera o comportamento da atmosfera e do mar, intensificando extremos mesmo em períodos tradicionalmente frios.

A superfície do mar mais quente — em um estado que chamamos de oceano febril — libera mais calor e umidade, alimentando sistemas atmosféricos e provocando ventos e chuvas cada vez mais intensos”, explica o pesquisador.

Os principais indicadores da crise global dos oceanos

Os dados coletados entre 2018 e 2023 revelam uma aceleração preocupante nos danos ambientais:

  • Elevação do nível do mar: A taxa média global subiu para 4,3 mm por ano no período de 2013 a 2023. No levantamento anterior, a média era de 3,2 mm anuais.

  • Degelo recorde: As regiões polares registraram perdas históricas e consecutivas de gelo nos anos de 2022, 2023, 2024 e 2025.

  • Poluição por plástico: O número de espécies marinhas afetadas por resíduos plásticos saltou de 1,4 mil no relatório anterior para mais de 4 mil no diagnóstico atual.

  • Insegurança alimentar: A porcentagem de estoques pesqueiros biologicamente sustentáveis caiu de 64,6% (em 2019) para 62,3% (em 2021).

Ameaça iminente: 90% de chance de um novo El Niño em 2026

O cenário de instabilidade deve se agravar no segundo semestre de 2026 no Brasil com um novo episódio do El Niño entre julho e dezembro.  Análises conjuntas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da agência norte-americana NOAA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) apontam uma probabilidade superior a 90% de consolidação do fenômeno.

Os modelos meteorológicos indicam o risco de um evento de forte intensidade. O El Niño altera a circulação atmosférica global e costuma provocar severa irregularidade no regime de chuvas no Brasil, intensificando a probabilidade de ciclones extratropicais e frentes frias ativas no Sul e Sudeste, ao mesmo tempo em que eleva o risco de secas prolongadas e ondas de calor extremo nas demais regiões do país.

Um estudo inédito da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica identificou um crescimento expressivo dos desastres associados a ciclones, frentes frias e ondas de frio no Brasil. Entre 1991 e 2024, foram registrados 407 desastres relacionados a esses fenômenos.

O dado mais alarmante refere-se aos últimos quatro anos, quando a média anual saltou de 2,3 para 44 ocorrências — um aumento drástico de 1.800% em relação à década de 1990. Mais de 1 milhão de pessoas já foram diretamente afetadas por esses eventos nas últimas décadas, sendo as ondas de frio responsáveis por 54% dos registros.

Coexistência de extremos: frio recorde, seca e reservatórios em queda

O país ingressou em um novo ciclo climático marcado pela coexistência de fenômenos opostos e simultâneos em diferentes regiões:

  • Frio intenso no Sul e Sudeste: Termômetros registraram marcas históricas em maio de 2026. Em São Joaquim (SC), a mínima atingiu -4,61°C, a menor do país no ano. Na capital paulista, a estação do Mirante de Santana registrou 9,4°C, a menor temperatura para o início de maio em 37 anos, enquanto outros pontos da cidade chegaram a 7,2°C, e Campinas (SP) marcou 8,3°C.

  • Estiagem e alerta hídrico: O interior de São Paulo e o oeste e norte de Minas Gerais já enfrentam níveis críticos de umidade do ar, próximos de 26%. O reflexo disso está nos reservatórios: o Sistema Cantareira, que abastece a Região Metropolitana de São Paulo, opera atualmente com cerca de 40% de sua capacidade, bem abaixo dos 58% registrados no mesmo período de 2025.

  • Excesso de chuvas no Norte e Nordeste: Em contraste com a seca do Centro-Sul, estados como Pará, Amazonas, Pernambuco e Alagoas enfrentam cheias acima da média histórica. Em Belém (PA), volumes superiores a 100 milímetros colocaram áreas urbanas em estado de emergência.

Impactos diretos no litoral brasileiro

As consequências do diagnóstico global já se fazem notar de forma severa na costa e no interior do Brasil.  Fenômenos meteorológicos e ecológicos antes considerados excepcionais começam a se tornar recorrentes no Atlântico Sul.  Os impactos para o Brasil incluem maior vulnerabilidade costeira, riscos para cidades litorâneas, pressão sobre pesca e aumento de eventos extremos associados ao Atlântico tropical.

Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), Ronaldo Christofoletti explica que o aquecimento das águas e o aumento de eventos extremos ameaçam diretamente a pesca artesanal e industrial, além de acelerar o branqueamento e a morte de recifes de coral.

O que vemos no novo relatório é que fenômenos antes considerados excepcionais estão se tornando recorrentes, inclusive com impactos potenciais para o litoral brasileiro, para a pesca, para os recifes de coral e para as populações costeiras”, explicou o professor.

No cenário nacional, o avanço do sufocamento dos mares por resíduos plásticos está diretamente atrelado a gargalos históricos de infraestrutura. A falta de saneamento básico adequado, a gestão ineficiente de resíduos urbanos e a poluição crônica de rios e estuários fazem com que as cidades brasileiras funcionem como canais de escoamento de lixo diretamente para as praias e ecossistemas costeiros, agravando a crise sanitária e ambiental.

Nota da Redação – Toda essa degradação ambiental escancara a urgência de abordarmos a saúde de forma integrada. A destruição dos ecossistemas marinhos afeta diretamente a segurança alimentar, a economia e a saúde humana, evidenciando o conceito de Saúde Única (One Health) — a indissociável conexão entre a saúde humana, animal e ambiental.

O colapso dos oceanos não é apenas uma crise ecológica, mas uma ameaça direta à sobrevivência e ao bem-estar das populações que dependem da estabilidade climática e dos recursos marinhos.

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