A asma é uma doença inflamatória crônica que atinge aproximadamente 260 milhões de indivíduos no mundo, sendo 20 milhões de brasileiros. Ela é responsável por mais de 450 mil mortes anuais, a maior parte evitável quando o tratamento é contínuo e acessível. A doença é uma das principais causas de hospitalizações no SUS. A mortalidade pela doença tem crescido, resultando em uma média de seis mortes diárias no país.
No período em que a sociedade volta sua atenção para o Dia Mundial da Asma, celebrado em 5 de maio, resultados preliminares do Projeto CuidAR evidenciam um cenário alarmante sobre o manejo da doença no Brasil. A ausência de controle inflamatório adequado cobra um preço alto da saúde respiratória.
O levantamento com cerca de 400 pacientes atendidos em Unidades Básicas de Saúde (UBS) aponta que a maioria das pessoas atendidas na Atenção Primária à Saúde (APS) é sujeita a tratamentos defasados e danos pulmonares significativos.
O estudo constatou que 60% dos adultos apresentam função pulmonar reduzida (abaixo de 80%), um dano que não se reverteu nem com a aplicação de broncodilatador durante a espirometria. O problema também atinge a faixa pediátrica: 33% das crianças mostraram perdas de capacidade pulmonar.
60% dos pacientes perdem dias de estudo ou trabalho
O impacto social acompanhado pelo estudo reflete a gravidade desse cenário. Em média, 60% dos pacientes analisados perderam dias de estudo ou trabalho ao longo dos últimos 12 meses devido à asma. O absenteísmo atinge mais de 80% das crianças e adolescentes, e 50% dos adultos, afetando o aprendizado e a produtividade.
Além disso, quase 70% dos participantes relataram três ou mais crises recentes, quase metade precisou ir ao pronto-socorro e, entre esses, 10% foram hospitalizados. Isso mostra que a asma ainda causa muito sofrimento e sobrecarrega os serviços de urgência.
O estudo foi conduzido pelo Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS).
O perigo da “bombinha de resgate” e os danos ao pulmão
Uma das descobertas mais críticas do estudo é a inadequação terapêutica. No período do estudo, metade dos pacientes utilizaram unicamente os broncodilatadores de curta ação (SABA), conhecidos popularmente como “bombinhas de resgate“, como forma de tratamento.
Segundo diretrizes mundiais da Global Initiative for Asthma (GINA), atualizadas desde 2019, o uso exclusivo dessa medicação não é recomendado, pois mascara a inflamação, é ineficaz a longo prazo e eleva o risco de exacerbações graves e mortalidade.O tratamento padrão atual preconizado globalmente exige a combinação de um corticoide inalatório com um broncodilatador de longa ação (LABA).
Nosso estudo mostra que tanto crianças quanto adultos começaram o teste de função pulmonar com o pulmão funcionando abaixo do esperado antes de usarem a bombinha. Após o remédio, um terço das crianças e a maioria dos adultos não conseguiram normalizar a função pulmonar, o que sugere que, em muitos casos, o dano ao pulmão já pode ser irreversível devido à falta de tratamento adequado ao longo dos anos”, aponta Paulo Pitrez, pneumologista pediátrico, responsável técnico do estudo CuidAR e o único especialista latino-americano membro do Comitê Científico Global de Diretrizes da Asma.
Alternativa à espirometria tradicional pode ser acessível no SUS
Em paralelo, a pesquisa analisa a implementação do medidor de pico de fluxo expiratório (Peak Flow). Com custo aproximado de R$ 200,00, o dispositivo de fácil manuseio surge como uma alternativa viável e acessível para o SUS em substituição à espirometria tradicional, um exame complexo que chega a custar R$ 15 mil e possui longas filas de espera.
Nas unidades básicas de saúde, a asma ainda é tratada majoritariamente como uma emergência aguda, focada no alívio de sintomas passageiros, e não como uma doença crônica que exige controle contínuo”, alerta o especialista. “É imperativo mudarmos esse paradigma, não só por meio da implementação de estratégias preventivas e farmacológicas atualizadas no SUS, mas também através da conscientização da população, que não deve ignorar a gravidade da doença, principalmente em um cenário de longo prazo.”
Admilson Reis, superintendente de Responsabilidade e Gestão de Riscos do Hospital Moinhos de Vento, reforça que reverter a sobrecarga nos serviços de urgência gerada pela asma exige olhar para a sustentabilidade do SUS.
Ao testarmos ferramentas acessíveis como o medidor de pico de fluxo em substituição a exames de alto custo, e aliarmos isso à capacitação profissional, o Hospital Moinhos de Vento reafirma seu compromisso em reduzir complicações associadas à doença e democratizar o acesso à saúde de qualidade no Brasil”.
Capacitação de profissionais da linha de frente do SUS
Considerado o maior estudo focado em intervenção para asma já realizado no Brasil, o CuidAR busca reverter o quadro da doença no Brasil por meio da educação continuada de profissionais da saúde, avaliando como a capacitação na Atenção Primária pode reduzir as taxas de hospitalização e exacerbação de pacientes que sofrem com a doença.
Para Ana Paula Tussi Leite, supervisora do Programa de Residência em Medicina de Família e Comunidade do Hospital Moinhos de Vento e liderança operacional do estudo, os dados preliminares mostram que precisamos mudar urgentemente a linha de cuidado.
O Projeto CuidAR representa um avanço significativo nessa frente porque também considera uma questão fundamental: a educação. Ao capacitarmos os profissionais da Atenção Primária com diretrizes atualizadas, buscamos melhorar a qualidade do atendimento na porta de entrada do sistema, garantindo um diagnóstico preciso e mitigando os graves impactos da doença na rotina dos pacientes”, destaca
Com o intuito de consolidar essas descobertas científicas, os dados preliminares do CuidAR serão apresentados à comunidade médica internacional no Congresso Americano de Pneumologia, que ocorrerá entre os dias 16 e 20 de maio. Atualmente, o projeto segue recrutando pacientes, com a meta de engajar 960 voluntários que receberão acompanhamento qualificado durante 12 meses em até 40 unidades de saúde distribuídas pelas cinco regiões do Brasil.
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Desinformação contribui para abandono do tratamento da asma
O Dia Mundial da Asma (05/05) deste ano traz para discussão o tema ‘Acesso ao tratamento anti-inflamatório inalado para todos com asma: uma necessidade urgente!’ O objetivo é alertar e conscientizar sobre a necessidade de garantir que todas as pessoas com asma tenham acesso aos medicamentos inalatórios essenciais para o controle da doença e a prevenção de crises.
Segundo o coordenador do Departamento Científico de Asma da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), Herberto Chong, o custo dos medicamentos inalatórios e a desinformação seguem como grandes obstáculos para o tratamento da doença.
O SUS disponibiliza tratamentos inalatórios para o tratamento da asma, no entanto, o acesso ao médico especialista tem sido demorado. Além disso, enfrentamos mitos de que as ‘bombinhas’ causam dependência ou prejudicam o coração, o que não é verdade. Esse tipo de desinformação leva muitos pacientes a abandonarem o tratamento, que deve ser mantido ao longo da vida, já que é uma doença crônica e, até o momento, não tem cura. A interrupção pode gerar agravamento dos sintomas e, em situações graves, risco de morte”, afirma Dr. Chong.
Os principais fatores de risco para a asma
A asma é uma doença inflamatória crônica das vias respiratórias e pode se apresentar em formas leves, moderadas ou graves. Em todos os casos, o diagnóstico precoce e o uso correto de medicamentos são fundamentais para prevenir crises e permitir uma vida normal. Como afeta diretamente os pulmões, o uso de tratamentos inalatórios é considerado a forma mais eficaz de entregar o medicamento ao local necessário.
Diversos fatores podem desencadear ou agravar as crises de asma, como ácaros da poeira, mofo, polens, infecções virais, excesso de peso, rinite, refluxo gastroesofágico, uso de determinados medicamentos e predisposição genética.
Os principais sintomas relacionados à inflamação dos brônquios incluem:
- Falta de ar
- Chiado no peito
- Tosse
- Sensação de cansaço
- Dor no peito (frequentemente após esforço físico ou até mesmo ao falar e rir)
Com Assessorias




