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3 dicas para promover uma educação antirracista nas escolas

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Apesar de alguns avanços no que diz respeito à equidade racial, nos últimos anos, pessoas negras permanecem vivenciando a exclusão e a marginalização diariamente. Segundo dados da pesquisa Percepções sobre o racismo no Brasil, de 2023, 64% dos brasileiros entre 16 e 24 anos consideram que o racismo começa na escola.

Um estudo realizado em abril de 2023, pelo Instituto de Referência Negra Peregum (IPEC) em parceria com o Projeto Seta, com 2 mil jovens negros com idade entre 16 e 24 anos, revelou que 64% dos entrevistados consideram o ambiente escolar como o local em que mais sofrem racismo.

“A violência em espaços escolares talvez seja a parte mais dramática das violências a que nossas crianças e jovens estão expostos. A escola deveria ser um ambiente seguro, de socialização. Porém, é um espaço que acaba propiciando episódios de violência física e simbólica”, comenta Ana Paula Brandão, analista e gestora do Projeto Seta.

Outros dados coletados pelo IPEC mostraram que 44% dos entrevistados consideram raça, cor e etnia como o principal fator gerador de desigualdades no país. Ainda referente aos números relacionados ao ensino no país, jovens negros de 14 a 29 anos são maioria nas estatísticas de evasão escolar no ensino básico. Eles somam 71,7% dos alunos que abandonam os estudos.

Essa desigualdade pode ser observada em pesquisas como a elaborada pelo Todos pela Educação, que revelou um cenário preocupante: o acesso e a conclusão de estudantes negros ao Ensino Médio equivale a uma década de atraso, se comparada aos indicadores de estudantes brancos.

“Combater o abandono escolar dos jovens requer principalmente políticas inclusivas, acesso equitativo, apoio psicossocial, treinamento de qualidade para professores e envolvimento da comunidade”, afirma Deborah Fracischelli Amonidiretora geral do Curso Evidente.

Ensino obrigatório sobre a história e a cultura afro-brasileira

Algumas medidas de enfrentamento já vêm sendo criadas no âmbito educacional. Em 2023, completaram-se 20 anos da implementação da Lei 10.639, que tornou obrigatório o estudo sobre a história e cultura afro-brasileira no currículo oficial de educação nacional.

“A educação antirracista pode aelerar a ruptura do pensamento moderno/colonial que induz a um complexo de superioridade de algumas pessoas sobre outras. Ela promove conhecimento plural, agregando valores para uma sociedade pacífica, verdadeiramente democrática, com direitos e oportunidades iguais para todos os cidadãos. Por isso, o assessor pedagógico pode se revelar um facilitador para as escolas que pretendem posicionar-se como antirracistas”, afirma Clarissa Limaassessora pedagógica da Plataforma Amplia, Sistema de Ensino para a Educação Básica.

Existem também uma série de ferramentas e conteúdos que podem ajudar a promover uma educação antirracista no dia a dia das escolas. Algumas delas:

Letramento racial: rodas de conversa em sala de aula

Por ser uma prática pedagógica que proporciona uma participação coletiva de debate acerca de determinada temática, as rodas de conversa contribuem grandemente para o processo de conscientização dos estudantes. A assessora pedagógica do Programa Líder em Mim, Fabiana Santana, diz que esse processo é chamado de Letramento Racial.

“Segundo a Academia Brasileira de Letras, Letramento Racial é um conjunto de práticas pedagógicas que têm por objetivo conscientizar o indivíduo da estrutura e do funcionamento do racismo na sociedade e torná-lo apto a reconhecer, criticar e combater atitudes racistas em seu cotidiano”, conta ela.

“Quando propomos rodas de conversas em sala de aula para abordar o tema, estamos criando um ambiente em que o estudante será estimulado a desenvolver competências socioemocionais como “construção de relacionamentos, alinhados com a BNCC no que diz respeito à competência de empatia e cooperação, sendo assim capazes de compreender a importância de respeitar os outros para uma sociedade melhor, tanto em ambiente físico quanto digital”, afirma Fabiana.

Manual gratuito para escolas antirracistas

Camino School, escola da zona Oeste de São Paulo, desenvolveu o Manual para Escolas Antirracistas, que traz orientações práticas e pedagógicas para auxiliar no enfrentamento do racismo estrutural e inspirar instituições públicas e privadas a adotarem uma postura antirracista no dia a dia.

De fácil leitura, o material está disponível gratuitamente na internet para que todas as escolas interessadas em se aprofundarem no tema e atuar efetivamente contra o racismo possam se instruir. Além de orientações, o manual traz dados atuais sobre a desigualdades de raça no país e um glossário de conceitos para o letramento racial.

“A diferenciação do manual está na proposta de desenvolvimento de ações específicas para as instituições de ensino, contribuindo diretamente para as práticas antirracistas”, afirma Leticia Lyle, diretora da Camino School. “E, para tal, a gestão precisa implementar as orientações, os professores necessitam trabalhar em sala de aula de forma positiva as contribuições das populações afrodescendentes e indígenas. Para além disso, os estudantes e familiares precisam estar atentos para identificar situações de racismo estrutural e seus derivados”, finaliza Leticia.

Filmes e séries que abordam a temática do racismo

A escola é o espaço perfeito para descontruir o racismo, o preconceito e a discriminação. Assim, a sétima arte pode contribuir para que os educadores, por meio da apresentação e discussão de filmes, construam um caminho em que crianças e jovens se sintam pertencentes ao espaço escolar. Magna Celene Parreiras De Assis, coordenadora de Segmentos do Núcleo SP, do Grupo Salta, listou 4 produções audiovisuais que retratam a luta de homens e mulheres contra a discriminação racial, ao longo dos últimos séculos. Confira!

●     Doze anos de escravidão (2014) – conta a história de Solomon Northup, um homem negro livre, excelente violinista, que vive em paz ao lado da esposa e filhos. Até que um dia é sequestrado, acorrentado e vendido como um escravizado, passando 12 anos nessa condição violenta, marcada por constantes humilhações físicas e emocionais.

●     Menino 23: Infâncias Perdidas no Brasil (2016) – O documentário retrata o caso de uma família de empresários na década de 1930 levavam meninos negros dos orfanatos para serem explorados no trabalho em uma fazenda do interior de São Paulo, um caso de escravidão em pleno século XX.

●     Mandela – O Caminho da Liberdade (2013) – O filme é inspirado na biografia de Nelson Mandela, líder sul-africano, que conta a história de uma criança negra que vivia numa pequena aldeia rural que conseguiu ser eleito de forma democrática para o cargo de Presidente da República da África do Sul. Mas, sua luta pelo fim do apartheid, regime racista e segregacionista do país, o levou para a prisão e durante 27 ficou preso por acreditar na possibilidade de construir uma sociedade pacífica e mais igualitária para todos.

●     Escravidão – Século XXI (2021) – A série documental, com cinco episódios, retrata o trabalho análogo à escravidão no Brasil atual. A partir de relatos daqueles que sobreviveram à exploração do trabalho, em pleno o século XXI, a série dá visibilidade à “cultura da escravidão” que ainda faz parte do cotidiano de norte a sul do Brasil.

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Projeto cria embaixadores antirracistas em escola de São Paulo

O Dia da Consciência Negra, celebrado no dia 20 de novembro, faz referência à morte de Zumbi, um líder do Quilombo de Palmares, da Região Nordeste do Brasil. No Marista Escola Social Ir. Lourenço, localizado na Zona Leste de São Paulo, este é um assunto que está em pauta o ano todo.

escola, que atende crianças e adolescentes do Ensino Fundamental e Médio gratuitamente, criou um projeto chamado “Embaixadores Maristas Por uma Educação Anti Racistas “, que tem como objetivo promover formações sobre o tema, assim como atuar como parceiros da Gestão Escolar e de toda a comunidade educativa.

Para Andreia Aparecida Castro, diretora da Escola Social, é missão da escola atuar neste tema de forma transversal. “Atuamos em momentos de formação, no atendimento individual a famílias e estudantes, assim como em eventos culturais que podem ser integrados e abertos aos pais, familiares e toda comunidade”, finaliza.

O projeto foi idealizado em 2022 na busca por estratégias para atender a duas situações distintas responder aos desafios e questões relacionais entre os estudantes mediante a reprodução do racismo estrutural no ambiente escolar e identificar, reconhecer e potencializar a atuação de alguns adolescentes e jovens que já estão buscando fazer a diferença.

“Ao todo, 9 alunos foram selecionados do Ensino Fundamental Anos Finais e Ensino Médio, e eles tornaram-se parceiros de toda escola, em momentos de estudo, assim como na implantação de rodas de conversas, debates, clube de leitura, incluindo o tema da maneira que o diálogo seja a principal ferramenta de transformação”, reforça Andreia.

Jovens protagonistas e defensores de direito

Andreia afirma que os benefícios são notados ao longo do projeto. “A implantação do projeto garantiu o engajamento dos estudantes na pauta antirracista, assim como o protagonismo e o empoderamento dos adolescentes e jovens, a representatividade entre os pares, a parceria com a gestão escolar e os educadores e a relação de cuidado de estudante para estudante”, finaliza.

Entre as pautas debatidas, os estudantes encontram em livros, filmes e referências forma de conversar sobre o tema. “Já conversamos sobre a questão da beleza, e dos cabelos de quando uma estudante passou a aceitar mais o seu cabelo e a se achar bonita a partir das conversas que teve com uma colega. Com esses indícios, percebemos que estava valendo a pena”, reforçou.

A ideia é que o projeto se estenda para os pais e responsáveis, e comunidade educativa. “Algumas famílias têm demonstrado o interesse e o compromisso na promoção de uma educação antirracista, algumas têm se colocado como parceiras tanto na participação das formações como também de se colocando como formadores e multiplicadores de um futuro melhor”.

Crianças propõem acervo literário com obras sobre racismo

Projeto de Intervenção de alunos do Colégio Marista Arquidiocesano busca combater o racismo por meio do conhecimento (Foto: Divulgação)

Várias expressões presentes no cotidiano dos brasileiros são racistas. Podem parecer apenas um “jeito de falar”, mas são palavras ofensivas e têm origem na época colonial, quando os africanos foram trazidos para serem escravizados no Brasil.

“Essa linguagem contribui para reforçar a relação preconceituosa entre negritude e negatividade. Por isso, é necessário refletir sobre o preconceito existente por trás dessas palavras e tirá-las do nosso vocabulário”, afirma Tatiani Ferreira Miranda, professora do quinto ano do Ensino Fundamental do Colégio Marista Arquidiocesano, um dos mais tradicionais da capital paulista e que completa 165 anos de sua fundação em 2023.

Seus alunos estão produzindo um projeto denominado “No jogo e na vida, vista a camisa antirracista!”, que tem como objetivo compreender o racismo e conhecer formas de combatê-lo. Os alunos, com média de idade de 10 a 11 anos, pretendem propor a criação de um acervo literário na biblioteca do colégio, apenas com obras infantil-juvenis, prestigiando a produção de autores negros.

No pátio central do Arquidiocesano, a turma irá disponibilizar uma tenda com o nome de “Quilombo de palavras”, em que serão expostos livros que tratam da intolerância racial, inclusão e cultura afro-brasileira, escritos para crianças e jovens.

A exposição estará aberta para toda a comunidade escolar. Os visitantes irão receber um mimo dos alunos – as Abayomi, bonecas de pano, criação original de Lena Martins, artista e artesã, natural de São Luís, no Maranhão. Abayomi significa, na língua iorubá, “o melhor de mim para ti”, sendo um símbolo de resistência e tradição.

“A leitura é uma ferramenta extremamente importante para a nossa formação. Podemos dizer que é um dos passos mais relevantes para entender e repudiar todo e qualquer tipo de preconceito”, frisa a professora.

O projeto e Vinicius Jr. 

Os alunos se informaram sobre algumas notícias que tomaram conta dos meios de comunicação e viraram assunto entre todos os colegas: os ataques racistas sofridos pelo jogador Vinicius Jr., do Real Madrid e da seleção brasileira. Com isso, perceberam que este tema merecia uma atenção especial. A turma promoveu então uma votação para decidir o assunto norteador do estudo: o tema Racismo foi o escolhido.

Os estudos tiveram início com a leitura do livro “Óculos de Cor”, da autora Lilia Moritz Schwarcz. Alvo e Ebony, os personagens centrais dessa história, um dia se conhecem e uma jornada especial tem início na vida dos dois. Nesse caminho, Alvo se dá conta de que o mundo é muito mais diverso do que ele imaginava e que é possível “ver e enxergar” além da própria existência e com muito ‘mais cores’.

“Por meio da leitura desse livro, passamos a entender conceitos importantes relacionados ao tema do nosso projeto, entre eles: racismo, escravização, quilombo, democracia, negritude, branquitude, discriminação entre outros. A partir da ligação entre eles, começamos a compreender porque o racismo no Brasil é estrutural, por que a intolerância racial ainda é tão forte em nossa sociedade”, esclarece a professora Tatiani Ferreira Miranda.

As crianças também fizeram a leitura do livro “Vovô Mandela”, uma lição sobre como não deixar as ideias e os sonhos serem aprisionados; sobre como todos devem se unir para lutar por uma sociedade mais justa e inclusiva. O livro também reforça a importância da filosofia ‘Ubuntu’ para o povo africano: “Eu sou porque todos somos”.

A professora Jussara Santos, responsável pelo Núcleo de Educação para as Relações Étnico-Raciais da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (SP), trouxe, de forma leve e amorosa, provocações sobre o significado da palavra racismo. Relatou experiências pessoais, propôs discussões em pequenos grupos e se encantou com o engajamento dos alunos em relação ao assunto.

A docente reforçou que o racismo no Brasil é estrutural e está presente no nosso dia a dia, nas pequenas coisas, como uma “piada” ou um “meme” compartilhado, um olhar ou gesto de julgamento ou exclusão, entre outros. “Afinal, não basta não ser racista. É preciso ser antirracista”, reforçou a ativista.

O trabalho na escola está sendo orientado pela coordenadora pedagógica Lilian Gramorelli  e faz parte do desenvolvimento do Projeto de Intervenção Social (PIS) da turma, uma prática pedagógica Marista que promove o diálogo e o protagonismo, permitindo entender as necessidades humanas e sociais, questioná-las e traçar caminhos para enfrentar as problematizações contemporâneas.

Campanha para conscientizar sobre racismo

Para celebrar o Dia da Consciência Negra, a agência curitibana Páprica Comunicação, em parceria com o Marista Brasil, Colégios Maristas, Escolas Champagnat, Escolas Sociais e seu próprio núcleo interno de Diversidade e Inclusão, desenvolveu uma campanha com o objetivo de conscientizar os alunos sobre a questão do racismo, instigando ações que façam a diferença no combate ao sistema de opressão e desigualdades.

O mote da campanha “Consciência gera respeito, abre diálogo e inspira ação”, segue uma construção lógica: primeiro a consciência que leva ao respeito, após isso promove o diálogo e inspira a ação, destacando a importância da conscientização para uma sociedade que promove o respeito.

“Desenvolver esse KV foi uma forma de trazer a representatividade negra a fim de refletirmos sobre nossa sociedade como um todo, homenageando a cultura africana e representando o seu legado que vive até hoje”, comenta Talison Nascimento, designer, membro do Comitê de Diversidade e Inclusão da Páprica e responsável pela direção de arte do KV (Key Visual).

Outro papel da consciência, é promover a comunicação. As pessoas se tornam mais capazes de expressar suas opiniões e ouvir as dos outros de maneira empática e construtiva, abrindo novas oportunidades de diálogo”, completa. Até o final do mês de novembro, a campanha vai circular em todas as unidades do Marista no Brasil.

Com Assessorias

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