Ainda não descobriram a cura da Aids, mas o enfrentamento a essa epidemia global alcançou conquistas históricas. Hoje, uma pessoa que vive com HIV e realiza o tratamento antirretroviral adequado mantém o vírus sob controle e indetectável em seu organismo. Com isso, ela não transmite o vírus por via sexual (conceito conhecido como Indetectável = Intransmissível, ou I=I)[²] e tem a mesma expectativa de vida de qualquer pessoa que não tem o vírus.
Apesar dos enormes avanços científicos da última década, o estigma continua sendo um dos piores entraves para que o mundo atinja a meta da UNAIDS de erradicar a AIDS como ameaça de saúde pública até 2030. Aliado à desinformação, o preconceito ainda é a maior barreira para o combate ao HIV no Brasil.
Uma pesquisa internacional inédita, feita pela campanha Tackle HIV em 2026, revela dados preocupantes sobre o conhecimento do brasileiro. Apenas 29% sabem que pessoas em tratamento eficaz com carga viral indetectável não transmitem o HIV por via sexual (I=I) e 36% ainda ignoram que homens heterossexuais correm o risco de contrair HIV
Ainda assim, o medo do preconceito afasta as pessoas dos testes e do início do tratamento. Projeções indicam que a falha em combater o estigma social do HIV pode causar mais de 440 mil mortes evitáveis em todo o mundo nesta década. A falta de conhecimento sobre esses avanços científicos fica evidente nos dados coletados no Brasil pela nova pesquisa da Tackle HIV.
- Grupo de risco no imaginário popular: 36% dos brasileiros entrevistados ainda acham que homens heterossexuais não correm risco de contrair o HIV; 37% acreditam no mesmo em relação a mulheres heterossexuais. Na realidade, o vírus não escolhe orientação sexual, e as mulheres representam mais da metade das pessoas que vivem com HIV no mundo.
- Falta de hábito de testagem: Apenas 48% dos entrevistados já fizeram um teste de HIV na vida. Entre os 40% que cogitariam fazer, a maioria dos que rejeitam a ideia justifica dizendo que “não se consideram em risco”.
- O mito da transmissão: Apenas 29% da população sabe que pessoas sob tratamento eficaz e com carga viral indetectável não transmitem o HIV em relações sexuais. Além disso, 19% dos brasileiros ainda acreditam erroneamente que quem vive com HIV não pode manter uma vida sexual ativa.
Lenda do rubgby divulga campanha no Brasil
Para debater como o esporte pode ajudar a conscientizar a população e derrubar estigmas, Gareth Thomas – a lenda do rugby mundial e ativista que vive com o vírus – está no Brasil para participar da 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada esta semana no Rio de Janeiro.
Gareth Thomas, que defendeu a seleção de Gales em 100 partidas e capitaneou os prestigiosos British & Irish Lions, fez história em 2009 ao se tornar o primeiro jogador profissional de rugby em atividade a se declarar homossexual. Dez anos depois, em 2019, o atleta compartilhou publicamente seu diagnóstico de HIV positivo, tornando-se uma das vozes ativas mais potentes no combate à discriminação.
O ex-capitão da seleção de Gales lidera a Tackle HIV, campanha que usa o poder transformador do esporte para educar o público, desmistificar o vírus e romper as barreiras do preconceito que ainda cercam as pessoas que vivem com HIV.
Desde que descobri que tenho HIV e iniciei a campanha, aprendi muito sobre o vírus e sobre como ele afeta as pessoas que vivem com ele”, conta Gareth Thomas. “Como nossas pesquisas demonstram claramente, o HIV ainda é mal compreendido e, por isso, o estigma persiste. Trazer a campanha para o Brasil é uma excelente oportunidade para continuarmos a educar sobre o HIV e a usar o poder do esporte para ajudar a mudar a percepção pública.”
Ele lembra que o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana) ataca as células de defesa do corpo. Sem o devido acompanhamento, a infecção pode evoluir para a AIDS (Síndrome da Imunodeficiência Adquirida). No entanto, graças aos medicamentos modernos, o HIV tornou-se uma condição crônica totalmente controlável.
O tratamento contínuo reduz a presença do vírus no sangue a níveis tão baixos que os testes laboratoriais comuns não conseguem detectá-lo. Nessa condição (carga viral indetectável), o vírus deixa de ser transmitido por vias sexuais”, afirma.
Gareth reforça que o HIV é transmitido através do sangue, sêmen, fluido vaginal, secreções anais e leite materno de pessoas que apresentam carga viral detectável. O vírus não é transmitido por meio de abraços, beijos, suor, compartilhamento de copos, talheres, tosse ou contato social cotidiano.
Agenda para inclusão no Rio de Janeiro
Com o título de CBE (Comandante da Ordem do Império Britânico), um dos nomes mais icônicos da modalidade esportiva lidera globalmente a campanha, que conta com a chancela de nomes como Sir Elton John e o Príncipe Harry, além do financiamento e apoio da ViiV Healthcare.
Nesta segunda-feira (27/7), Gareth Thomas participou de um painel de debate no palco principal do Global Village (espaço cultural e comunitário oficial da AIDS 2026, com entrada gratuita), ao lado deRaquel Kochhann. tleta da seleção brasileira de rugby e símbolo de superação na saúde; de Marta McBritton, do Instituto Barong, e de Boyd Mkandawire. diretor geral da Grassroot Soccer Zâmbia.
Ao lado de atletas brasileiros, Gareth também vai comandar em uma ação social com treino aberto e testes rápidos de HIV na Praia de Ipanema (29/07). A clínica interativa de rugby na areia é voltada para jovens de comunidades vulneráveis e apaixonados pelo esporte. Paralelamente, a unidade móvel (van educativa) do Instituto Barong e a equipe da Secretaria Municipal de Saúde (SMS-Rio) estarão no local oferecendo orientações de saúde e testes rápidos e gratuitos de HIV.
Parcerias locais e o poder do esporte na comunidade
O Brasil possui hoje a maior prevalência de HIV da América Latina, o que torna a realização da AIDS 2026 no Rio de Janeiro um momento estratégico para expandir as ações da campanha. Para aproximar o debate da realidade brasileira, a Tackle HIV fechou parcerias com o tradicional Instituto Cultural Barong, com a Confederação Brasileira de Rugby (Brasil Rugby), com o Rio Rugby e com a organização juvenil Grassroot Soccer.
O foco das ações será mostrar como a prática esportiva e a linguagem do esporte conseguem abrir portas para conversas difíceis e necessárias. Enquanto o Barong atua diretamente no campo da prevenção e educação em saúde sexual no Brasil, a Grassroot Soccer utiliza o futebol como ferramenta de acolhimento e mentoria para jovens em situação de vulnerabilidade social.
Sob o tema central “Mudar as atitudes do público em relação ao HIV e desafiar o estigma: o poder do esporte para influenciar o pensamento e o comportamento”, a campanha promoverá debates científicos e ações diretas com a comunidade carioca. A iniciativa conta ainda com o apoio institucional da Coordenação de IST/AIDS da SMS-Rio.
A ciência avançou de forma extraordinária nas últimas quatro décadas, mas o preconceito não acompanhou esse ritmo. Em muitas partes do mundo, testemunhamos retrocessos que ameaçam direitos conquistados a duras penas e reforçam o estigma relacionado ao HIV”, explica Marta McBritton, presidente do Instituto Cultural Barong.
“O esporte é uma das formas mais poderosas de unir as pessoas, romper preconceitos e criar oportunidades para conversas que talvez nunca ocorressem em outros contextos; A sexualidade é uma parte natural da vida, e a saúde sexual e reprodutiva é um componente essencial da saúde integral. Ao unir esporte, ciência e organizações comunitárias, podemos demonstrar que o HIV é uma responsabilidade social compartilhada e que enfrentá-lo exige conhecimento, dignidade, solidariedade e acesso equitativo aos serviços de saúde.
A presença de Gareth e da campanha Tackle HIV no Rio durante a conferência AIDS 2026 é uma excelente oportunidade para darmos continuidade às nossas ações comunitárias, incorporando iniciativas de educação em saúde e sobre o HIV, além de promover o rugby e seus valores ao lado de uma superestrela mundial do esporte”, diz Gui Pereira, CEO do Rio Rugbi. “O esporte tem uma capacidade única de conectar pessoas de todas as idades e ajudar a promover mudanças de mentalidade e comportamento. Nossa comunidade do rugby está entusiasmada para colocar isso em prática em relação ao HIV.”
Com Assessorias





