A cidade do Rio de Janeiro se transforma, entre os dias 26 e 31 de julho de 2026, no epicentro mundial dos debates sobre o enfrentamento do HIV e da Aids. A 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026) reúne pesquisadores, ativistas e líderes globais de saúde pública em um momento marcado tanto pelo entusiasmo com inovações científicas de ponta quanto pela urgência de garantir que essas tecnologias cheguem a quem mais precisa.

O grande destaque é o lenacapavir, medicamento de prevenção ao HIV considerado uma revolução por requerer apenas duas aplicações anuais e demonstrar eficácia próxima a 100%. Apesar de o Brasil ter sediado ensaios clínicos decisivos que viabilizaram a aprovação do medicamento, a tecnologia ainda enfrenta barreiras econômicas para ser incorporada de forma ampla e acessível à população local e em diversos países da América Latina.

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) aproveita o evento no Rio de Janeiro para intensificar a pressão contra a farmacêutica norte-americana Gilead Sciences. A entidade cobra que o lenacapavir – medicamento injetável de ação prolongada administrado como Profilaxia Pré-Exposição (PrEP) – seja disponibilizado a um custo máximo de US$ 40 por pessoa ao ano em países de baixa e média renda.

Com o mote “Duas doses. US$ 40. Em todos os lugares”, a campanha global lançada por MSF expõe o abismo entre o custo de produção do fármaco e a política de preços praticada pela fabricante. Nos Estados Unidos, o tratamento chega a custar US$ 28 mil por ano por paciente (cerca de R$ 150 mil). Estimativas apontam que o medicamento poderia ser produzido e distribuído com lucro por menos de US$ 40 ao ano (aproximadamente R$ 220).

Exclusão da América Latina e do Brasil de acordos genéricos

Apesar de o Brasil, juntamente com Argentina, México e Peru, ter sediado ensaios clínicos essenciais para demonstrar a eficácia da profilaxia injetável, a Gilead manteve a região fora dos acordos de licenciamento voluntário firmados com fabricantes de genéricos. O modelo excludente impede a compra direta por órgãos públicos locais a preços acessíveis e proíbe a venda do insumo até mesmo para ações humanitárias diretas de MSF.

É inaceitável que comunidades no Brasil tenham contribuído para os ensaios clínicos que abriram caminho para a aprovação e a venda do lenacapavir em países de todo o mundo e, ainda assim, as pessoas aqui continuem enfrentando dificuldades para acessar esse medicamento revolucionário. A Gilead não deveria decidir sozinha quem recebe o lenacapavir e quem não recebe”, afirma Antonio Flores, consultor sênior de HIV e tuberculose da Unidade Médica da África Austral de Médicos Sem Fronteiras.

Com o bloqueio comercial, populações em maior vulnerabilidade às infecções pelo HIV — como homens que fazem sexo com homens, pessoas transgênero, trabalhadores do sexo e comunidades em áreas de conflito — continuam privadas da tecnologia.

Quando falamos que cerca de 1,2 milhão de pessoas passaram a viver com HIV no mundo em 2025, estamos falando de vidas que poderiam ser protegidas por ferramentas eficazes de prevenção. O impacto da falta de acesso é calculado em vidas. Sem acesso, inovação não salva vidas”, reforça Flores.

Apelo ao governo brasileiro e flexibilidades do TRIPS

Diante do impasse com a indústria farmacêutica, MSF defende que o Ministério da Saúde do Brasil e governos de outros países em desenvolvimento adotem medidas legais de proteção à saúde pública previstas no acordo de Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPS), da Organização Mundial do Comércio (OMC).

A principal ferramenta sugerida é a emissão de licenças compulsórias (mecanismo popularmente conhecido como “quebra de patente”), que autoriza a produção local de versões genéricas ou a importação por outros fabricantes sem o consentimento da empresa detentora do monopólio.

Estamos aqui na conferência sobre AIDS 2026 com uma demanda principal: o lenacapavir deve estar disponível por um custo não superior a 40 dólares por pessoa ao ano em todos os países de renda baixa e média. Vimos pessoalmente o que acontece quando ferramentas médicas têm preços inacessíveis: pessoas morrem desnecessariamente e comunidades sofrem. Não podemos permitir que a história se repita”, enfatiza Renata Reis, diretora-geral de Médicos Sem Fronteiras no Brasil.

Desigualdades raciais e regionais acentuam a urgência no SUS

A discussão sobre o acesso a novas profilaxias ganha contornos críticos diante dos dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde. Embora os indicadores de novos diagnósticos no Brasil registrem estabilidade geral no comparativo nacional — com 39.216 casos registrados em 2024 e 38.222 em 2023 —, o perfil da epidemia evidencia a expansão da vulnerabilidade entre populações historicamente marginalizadas:

  • Inversão racial na última década: Em 2014, as pessoas brancas respondiam por 49% dos casos notificados de HIV no país. Em 2024, 59,7% das infecções ocorreram entre a população negra (pretos e pardos), enquanto a proporção entre brancos caiu para 36,8%.

  • Desigualdade territorial: A Região Norte contrapôs a tendência nacional de queda ao registrar um crescimento de 9,2% nas taxas de detecção de Aids por 100 mil habitantes. Em 2024, os maiores índices do país foram computados em Roraima (41,3), Amazonas (35,2), Amapá (28,4) e Pará (27,4).

Como parte da programação paralela da AIDS 2026, MSF promove no dia 30 de julho o painel “Onde está meu lenacapavir? Como quebrar monopólios e acabar com a epidemia de HIV”, reunindo lideranças da Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA), especialistas de Farmanguinhos/Fiocruz e ativistas internacionais para articular saídas jurídicas e políticas capazes de democratizar a tecnologia.

Gilead apresenta avanços do lenacapavir enquanto debate sobre acesso ganha força

Aids 2026 traz novidades promissoras para prevenção e cura do HIV, mas reacende o debate sobre a inclusão do medicamento injetável no SUS

Durante o evento, a Gilead Sciences apresenta os dados mais recentes de seu portfólio de prevenção, tratamento e pesquisas voltadas à cura da infecção pelo HIV. A farmacêutica anunciou que eidulga orás dados de acompanhamento de longo prazo (52 semanas) das fases de extensão aberta dos estudos pivotais de Fase 3, PURPOSE 1 e PURPOSE 2. Os resultados confirmaram a alta eficácia e a segurança do lenacapavir injetável sem a identificação de novos alertas de segurança:

  • PURPOSE 1: Entre os participantes que continuaram ou migraram da PrEP oral diária para o lenacapavir injetável, nenhuma nova infecção por HIV foi registrada.

  • PURPOSE 2: Registrou-se apenas uma infecção por HIV no grupo de acompanhamento contínuo e nenhuma entre os participantes que migraram da PrEP oral para o injetável semestral.

  • Adesão e aceitação: A adesão ao esquema de duas aplicações anuais manteve-se expressiva, atingindo 96% no PURPOSE 1 e 92% no PURPOSE 2. Além disso, mais de 95% dos participantes elegíveis optaram por receber a injeção em vez das pílulas diárias na fase aberta.

O progresso no enfrentamento da epidemia de HIV requer tanto inovação científica quanto parcerias duradouras com comunidades ao redor do mundo. Os dados apresentados na AIDS 2026 refletem nosso compromisso contínuo em avançar a pesquisa em prevenção, tratamento e cura, ampliando escolhas que apoiem as diversas necessidades e preferências das pessoas afetadas”, destacou Jared Baeten, vice-presidente sênior de Desenvolvimento Clínico e líder da Área Terapêutica de Virologia da Gilead Sciences.

Tratamento e busca pela cura do HIV

Além da prevenção, a conferência serve de palco para a apresentação dos resultados completos do estudo de Fase 3 ISLEND, conduzido em parceria entre a Gilead e a Merck (MRK). A pesquisa avalia um regime de tratamento oral combinado administrado uma vez por semana, unindo o islatravir ao lenacapavir.

Também ganham destaque na programação:

  • Terapias semestrais: Avaliação do lenacapavir combinado a anticorpos amplamente neutralizantes (teropavimab e zinlirvimab), em fase avançada de estudos (Daybreak 1 e 2).

  • Novo inibidor de integrase: Caracterização do perfil de resistência do composto experimental GS-3242, pensado para futuros tratamentos injetáveis semestrais.

  • Dados de vida real e pediatria: Resultados de longo prazo do uso do Biktarvy (B/F/TAF) em crianças e adolescentes, além de análises de efetividade no estudo BICSTaR.

O desafio global do acesso e a realidade brasileira

O contraste entre a inovação científica e a disponibilidade prática do medicamento dá o tom das discussões durante a AIDS 2026. A Gilead anunciou a expansão de seus compromissos com o PEPFAR e o Fundo Global, prevendo alcançar até 3 milhões de pessoas em programas sem fins lucrativos em 10 países prioritários da África Subsaariana até 2028, além do avanço do planejamento para a produção de genéricos nessas regiões.

Para a América Latina, a empresa informou que mantém negociações com a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e avança com submissões regulatórias regionais. No entanto, o ritmo de incorporação em sistemas públicos de saúde como o SUS brasileiro permanece sob rigorosos debates de sustentabilidade financeira, custos de licenciamento e políticas de equidade em saúde global.

Paralelamente às sessões científicas, a programação comunitária da conferência inclui simpósios focados na tomada de decisão compartilhada e no cuidado centrado no paciente, além do evento pré-conferência Women Know What Works, voltado às especificidades do cuidado e prevenção do HIV para mulheres e meninas.

Com Assessorias

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