Homens brancos, com mais de 60 anos e que fazem uso de tabaco precisam reforçar a atenção com a saúde, principalmente no que diz respeito ao câncer de bexiga. Isso porque esse perfil é um dos mais atingidos pela doença, que, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), registrou uma estimativa de 11.370 novos casos a cada ano no Brasil no triênio de 2023 a 2025.
O câncer de bexiga é mais comum em homens (7.870 casos anuais), mas também afeta mulheres (3.500 casos) – na sua maioria, da raça branca. As causas exatas ainda são estudadas, mas o tabagismo é isoladamente o principal fator de risco.
As substâncias cancerígenas do cigarro são absorvidas e eliminadas pelos rins, acumulando-se na bexiga e, com o tempo, podem causar tumores”, explica o oncologista André Sasse, coordenador médico do Vera Cruz Oncologia, em Campinas (SP).
A idade também aumenta a probabilidade de desenvolvimento da neoplasia. Cerca de 90% dos pacientes descobrem a doença após os 55 anos, associando-a ao processo de envelhecimento. Além disso, a exposição ocupacional a produtos químicos — como os utilizados nas indústrias de borracha, couro e tintas — também está associada ao aumento do risco.
O câncer de bexiga ocorre quando células do revestimento interno do órgão, chamadas de uroteliais ou transicionais, passam a se multiplicar de forma desordenada. Como a bexiga está em contato constante com a urina, os tumores costumam se manifestar como massas visíveis dentro do órgão”, complementa o médico.
Julho Roxo alerta para a conscientização e mudança no estilo de vida
Campanha nacional busca orientar a população sobre prevenção e identificação precoce da doença
Apesar de ocupar a 12ª posição entre os tumores mais frequentes no Brasil, o câncer de bexiga é uma doença que pode ter o risco reduzido por meio de mudanças no estilo de vida. A campanha Julho Roxo foi criada para conscientizar a população sobre os sintomas, fatores de risco e a importância de realizar exames preventivos.
Na maioria dos casos iniciais, a doença se apresenta de maneira superficial, atingindo a mucosa de revestimento interno, chamada urotélio. O aparecimento de sangue na urina e alterações nos hábitos urinários são sinais característicos e exigem investigação médica imediata.
Se o paciente sentir dor, dificuldade ou até mesmo vontade excessiva de urinar, é preciso procurar um especialista”, alerta o oncologista Higor Mantovani, do Grupo SOnHe. “O sangue na urina também deve ser observado e relatado ao médico. Quanto mais cedo for feito o diagnóstico, maiores são as chances de cura.”
O especialista reforça a necessidade de transformação nos hábitos diários, incentivando o abandono definitivo do cigarro, a prática de atividade física e a adoção de uma alimentação equilibrada.
Identificação dos sinais precoces é fundamental para salvar vidas
Sangue na urina é o principal sintoma e exige consulta médica imediata
Qualquer sinal atípico do corpo deve ser levado a sério. No entanto, muitas pessoas demoram a procurar ajuda, o que compromete o diagnóstico precoce e as chances de sucesso terapêutico.
Entre os sinais de alerta estão dor ou ardência ao urinar, urgência mictória e aumento da frequência diária. O sintoma mais importante — e muitas vezes negligenciado — é a presença de sangue na urina (hematúria), mesmo em pequenas quantidades ou de forma intermitente.
O sangue na urina sempre deve ser investigado. Outros sinais podem ser confundidos com infecções urinárias rotineiras, o que atrasa a descoberta e leva ao diagnóstico em estágios mais avançados”, aponta Mantovani.
O oncologista lembra que o câncer de bexiga superficial tem alta taxa de cura — acima de 90% — quando tratado precocemente com métodos pouco invasivos.
Testes genéticos auxiliam no diagnóstico e no rastreio precoce
Mutações genéticas indicam predisposição e ajudam a definir estratégias personalizadas
O diagnóstico tradicional começa com exames de imagem, como ultrassonografia ou tomografia computadorizada. Diante de alterações, é indicada a cistoscopia, exame que permite visualizar o interior da bexiga e coletar material para biópsia.
Atualmente, a medicina de precisão tem auxiliado no rastreio por meio da análise genética. Testes específicos possibilitam identificar mutações associadas ao surgimento dos tumores antes mesmo que eles se estabeleçam clinicamente.
“Esses exames são indicados para pacientes com histórico familiar da doença ou que já enfrentaram outros tipos de tumores. A partir da identificação da predisposição genética, é possível realizar um acompanhamento rigoroso com exames de imagem e laboratoriais constantes. Isso tem impacto direto na vida do paciente e, no futuro, poderá transformar as políticas de saúde pública no país”, ressalta Allan Munford, gerente regional da Qiagen.
Nos casos avançados ou metastáticos, exames com metodologia de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) em tempo real ajudam a mapear mutações específicas, permitindo direcionar o paciente para terapias-alvo mais eficientes.
Opções de tratamento variam conforme o estágio da doença
Das abordagens cirúrgicas à imunoterapia, a medicina avança no combate aos tumores uroteliais
O tratamento padrão engloba cirurgia e quimioterapia baseada em compostos de platina. Quando o tumor é superficial, a remoção é feita por Ressecção Transuretral (RTU), procedimento minimamente invasivo. Em casos com maior risco de recorrência, pode-se aplicar quimioterapia ou imunoterapia intravesical (diretamente na bexiga).
Se o tumor invade a camada muscular do órgão, a indicação costuma ser a cistectomia radical (retirada completa da bexiga), exigindo a reconstrução do trajeto urinário com segmentos intestinais ou bolsas coletoras externas.
Para estágios avançados ou metastáticos, o uso da imunoterapia sistêmica e de anticorpos conjugados a drogas tem revolucionado os prognósticos.
Conseguimos dobrar ou até triplicar a sobrevida de pacientes em estágio metastático. Alguns alcançam a cura e outros mantêm excelente qualidade de vida por muitos anos”, destaca Higor Mantovani.
Outro avanço é o uso do Erdafitinibe, medicação focada em pacientes que apresentam alterações nos genes FGFR (Receptor do Fator de Crescimento de Fibroblastos), presentes em 15% a 20% dos casos uroteliais. O fármaco já está disponível no Brasil, embora ainda enfrente gargalos de acesso no sistema de saúde suplementar e no Sistema Único de Saúde (SUS).
Com Assessorias




