Desde 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a transexualidade da lista de transtornos mentais. No entanto, o sofrimento causado pela disforia de gênero — o profundo desconforto entre a identidade de gênero e o sexo biológico — ainda é uma realidade que impacta a saúde emocional e social das pessoas transexuais.
Segundo Thiago Caetano, urologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o processo de afirmação de gênero, que pode incluir intervenções clínicas e cirúrgicas, é fundamental para reduzir esse sofrimento. “Estudos mostram que, quando bem realizados, esses procedimentos promovem melhora da autoestima e da saúde mental”, afirma o médico.
Acesso ao tratamento hormonal
Um dos maiores desafios enfrentados pela população trans é o acesso ao tratamento hormonal. Com o objetivo de alinhar as características físicas à identidade de gênero, a terapia utiliza hormônios exógenos — como o estradiol para mulheres trans e a testosterona para homens trans.
Especialistas da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) alertam que a automedicação representa um sério risco à saúde. Como cada organismo responde de forma única, o acompanhamento médico é indispensável para monitorar dosagens e prevenir efeitos colaterais deletérios. “A hormonização deve seguir um tratamento específico, individualizado e monitorado”, explicam os especialistas da SBEM-SP.
A voz como ferramenta de proteção
Para além da endocrinologia, outras especialidades têm desempenhado papéis cruciais. A cirurgia vocal e a fonoterapia, por exemplo, são vistas hoje como formas de proteção contra a violência. Guilherme Catani, otorrinolaringologista, ressalta que a voz é um marcador social de gênero.
Quando há uma incongruência vocal, a pessoa trans fica mais exposta a situações de preconceito e misgendering (uso do pronome incorreto). Ser ouvido sem medo é parte do direito de existir com dignidade”, defende Catani.
O que você precisa saber sobre o cuidado integral
O atendimento à população trans deve ser pautado pela Resolução CFM nº 2.265/2019, que garante atenção integral e livre de discriminação.
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Equipe multidisciplinar: O acompanhamento ideal envolve endocrinologistas, psicólogos, psiquiatras e cirurgiões.
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Procedimentos comuns: Além da hormonização, incluem-se mastectomia masculinizante, mamoplastia, feminização facial e cirurgias de redesignação sexual.
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Respeito e acolhimento: O uso do nome social e dos pronomes corretos é o primeiro passo para um atendimento ético e inclusivo em qualquer unidade de saúde.
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Perigos da automedicação hormonal
A busca por resultados rápidos ou a dificuldade de acesso médico levam muitas pessoas à automedicação, prática que oferece riscos graves e, por vezes, irreversíveis.
1. Riscos cardiovasculares e tromboembólicos
O uso inadequado de estrogênios sintéticos (como o etinilestradiol, comum em anticoncepcionais) aumenta drasticamente o risco de Trombose Venosa Profunda (TVP) e Embolia Pulmonar. O uso de hormônios veterinários (como o E.C.P.) é extremamente perigoso, podendo causar infarto, derrame e danos hepáticos severos.
2. Sobrecarga hepática e renal
Hormônios são metabolizados pelo fígado. Sem exames de sangue regulares para monitorar as enzimas hepáticas, a automedicação pode levar a hepatites medicamentosas e falência do órgão.
3. Riscos na masculinização (testosterona)
O excesso de testosterona sem controle pode causar policitemia (aumento excessivo de glóbulos vermelhos), tornando o sangue “mais grosso” e aumentando o risco de AVC. Além disso, doses erradas podem ser convertidas pelo corpo em estrogênio, gerando efeitos opostos aos desejados.
4. Impacto na saúde mental
Flutuações hormonais bruscas sem acompanhamento psicológico e médico podem agravar quadros de ansiedade, depressão e irritabilidade severa, prejudicando o bem-estar que o processo de afirmação deveria proporcionar.
Como proceder de forma segura
Se você está em transição ou deseja iniciar, o endocrinologista solicitará exames de base (glicemia, perfil lipídico, função hepática e níveis hormonais) para prescrever a dose mínima eficaz para o seu corpo.
Centros de referência em saúde trans no Brasil
Para garantir sua segurança e o acesso a direitos, é fundamental conhecer os serviços especializados e os riscos envolvidos no processo de transição. No Brasil, o SUS oferece o Processo Transexualizador, que garante desde o acompanhamento ambulatorial até intervenções cirúrgicas.
Atualmente, o país conta com unidades habilitadas pelo Ministério da Saúde para o atendimento especializado. Caso seu estado não possua um centro cirúrgico habilitado, o SUS deve garantir o deslocamento para outra região (TFD – Tratamento Fora de Domicílio).
| Região | Unidade / Hospital de Referência | Cidade/UF |
| Sudeste | Hospital das Clínicas da FMUSP (Ambulatório AMTIGOS) | São Paulo/SP |
| Centro de Referência e Treinamento DST/Aids (CRT) | São Paulo/SP | |
| Núcleo Trans da UNIFESP | São Paulo/SP | |
| Hospital Universitário Pedro Ernesto (UERJ) | Rio de Janeiro/RJ | |
| IEDE – Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia | Rio de Janeiro/RJ | |
| Hospital Eduardo de Menezes | Belo Horizonte/MG | |
| Hospital das Clínicas de Uberlândia | Uberlândia/MG | |
| Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes | Vitória/ES | |
| Sul | Hospital de Clínicas de Porto Alegre (UFRGS) | Porto Alegre/RS |
| CRE Metropolitano / CPATT | Curitiba/PR | |
| Ambulatórios Trans (Rede Municipal) | Florianópolis/SC | |
| Centro-Oeste | Hospital das Clínicas da UFG | Goiânia/GO |
| Ambulatório Trans do Hospital Dia | Brasília/DF | |
| Hospital Universitário Maria Aparecida Pedrossian | Campo Grande/MS | |
| Nordeste | Hospital Universitário Professor Edgard Santos (UFBA) | Salvador/BA |
| Ambulatório LGBT Patrícia Gomes | Recife/PE | |
| Ambulatório Trans do Hospital de Saúde Mental Frota Pinto | Fortaleza/CE | |
| Ambulatório Trans do Hospital Clementino Fraga | João Pessoa/PB | |
| Norte | Unidade Especializada em Doenças Infectoparasitárias | Belém/PA |
Nota: O acesso inicial deve ser feito preferencialmente pela Unidade Básica de Saúde (UBS), que fará o encaminhamento para os centros especializados via sistema de regulação.




