O Brasil é reconhecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um exemplo no combate ao tabagismo – o país tem um dos menores índices de fumantes do mundo, cerca de 10% da população acima de 18 anos, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca). Apesar dos avanços da política antitabagista no país, o vício ainda afeta mais de 20 milhões de pessoas.

Mas é bom lembrar que o tabagismo continua sendo o maior fator de risco para o câncer de pulmão, presente em mais de 80% dos casos da doença e responsável por ampliar em cerca de 20 vezes o risco de surgimento da doença no Brasil e no mundo. É por este motivo que o mês de agosto foi designado ao alerta do câncer de pulmão. A campanha Agosto Branco busca conscientizar as pessoas sobre a prevenção dessa doença e, de quebra, combater o tabagismo.

“Todo ano, cerca de dois milhões de pessoas são diagnosticadas com câncer de pulmão ao redor do globo. E quem fuma tem de 20 a 30 vezes mais chances de desenvolver esse tipo de tumor. Isso porque as substâncias químicas presentes no cigarro danificam e provocam mutações no DNA das células pulmonares, fazendo com que deixem de ser saudáveis e se transformem ​​em células malignas”, explica a oncologista Mariana Laloni, do Grupo Oncoclínicas.

Mas não é apenas este tipo de tumor que o tabagismo provoca: segundo o Inca, 161.853 mil mortes poderiam ser prevenidas anualmente se o tabaco fosse evitado, sendo que cerca de um terço desses óbitos são decorrentes de algum tipo de câncer devido ao hábito de fumar. AOMS considera o tabagismo uma epidemia, uma vez que 8 milhões de pessoas morrem por ano, direta ou indiretamente, devido a esse vício.

Somente no Brasil, segundo o Inca, em 2023, 73.500 pessoas deverão ser diagnosticadas com algum tipo de câncer provocado pelo tabagismo e 428 pessoas morrem diariamente no país por conta dele. Em 79% dos casos de câncer de pulmão, por exemplo, os pacientes eram fumantes, ou ex-fumantes. Apenas 21% nunca tiveram contato com o tabaco.

O hábito de fumar também contribui para o aumento no risco de ocorrência de ao menos outros 12 tipos de câncer: bexiga, pâncreas, fígado, ovário, colo do útero, esôfago, rins e ureter, estômago e cólon, laringe (cordas vocais), faringe (pescoço), cavidade oral (boca), além da leucemia mieloide aguda, segundo o Inca. Adicionalmente, o hábito está relacionado a formas mais graves de infecção pelo vírus da Covid-19.

Apenas no Brasil, é estimado que durante o triênio 2023-2025 cerca de 32.560 casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão, como classifica o Inca, sejam descobertos a cada ano. A maioria dos pacientes com câncer de pulmão apresenta sintomas relacionados ao próprio aparelho respiratório. Os sinais de alerta são tosse, falta de ar e dor no peito.

“Outros sintomas inespecíficos também podem surgir, entre eles perda de peso e fraqueza. Em poucos casos, cerca de 15%, o tumor é diagnosticado por acaso, quando o paciente realiza exames por outros motivos. Por isso, a atenção aos primeiros sintomas é essencial para que seja realizado o diagnóstico precoce da doença, o que contribui amplamente para o sucesso do tratamento”, diz.

Segundo ela, existem hoje trabalhos mostrando o benefício de se fazer rastreamento para câncer de pulmão em uma população considerada de alto risco, pacientes que tenham sido expostos a uma alta carga tabágica.

Cigarro eletrônico também é ameaça aos pulmões

De fato, a política nacional antitabagista colaborou para a diminuição do número de fumantes no país nos últimos anos. Contudo, o cenário otimista pode não se concretizar, por conta de novas práticas de consumo. Um dos desafios é a chegada dos cigarros eletrônicos e outros dispositivos de vape, que têm conquistado principalmente os jovens.

“Nós vemos novas formas de tabagismo chegando, como o cigarro eletrônico, por exemplo, que tem atraído principalmente os adolescentes, pelo formato, pela novidade e pela falta de informação também sobre o impacto nocivo deles. Então, estamos vendo uma geração que tinha largado o cigarro, voltar para versões digamos, mais modernas, do mesmo mal. Além do cigarro convencional, outras formas de tabagismo, como o charuto, o cachimbo, cigarros eletrônicos e narguilé, são extremamente nocivos para a saúde”, alerta Mariana Laloni.

Segundo ela, há cerca de 30 anos, o cigarro convencional era visto como sinônimo de status e isso não tem sido diferente para o cigarro eletrônico, principalmente entre os mais jovens. “Apesar de na última década o Brasil ter diminuído 40% o número de fumantes, não devemos fechar os olhos para um problema que, mesmo tendo um outro formato, faz parte da narrativa atual”, comenta a médica.

Os vapes ou e-cigarretes passaram a ser mais socialmente aceitos em diversos ambientes, além de serem mais atrativos devido sua tecnologia. Mas, podem fazer tão mal quanto o cigarro tradicional, apesar de uma imagem distorcida. Eles possuem várias substâncias tóxicas que, quando combinadas, acabam mascarando os efeitos prejudiciais à saúde”, ressalta, lembrando que o consumo pode causar enfisema pulmonar, doenças respiratórias e até mesmo câncer”, reforça.

“O cigarro eletrônico é sim uma grande preocupação. É uma tecnologia recente que vem muito focada na população jovem, que não presenciou com tanto vigor as altas incidências que a gente tinha de tabagismo no Brasil. Nossa preocupação é também com relação ao tipo de entrega que esse cigarro apresenta, uma vez que ele não é legalizado e a gente não tem controle das substâncias que são oferecidas nele”, opina. “Na tentativa de deixar o tabagismo, é preocupante que muitos usuários ainda usem os cigarros eletrônicos. Essa apelação pode torná-los usuários duplos e fazer com que o vício ocorra em ambas as frentes. Por isso, é preciso ter muita força de vontade e saber pedir e aceitar ajuda”, explica Mariana Laloni.

Vida nova longe do hábito de fumar

A conscientização de que o tabagismo é a principal causa do desenvolvimento do câncer de pulmão e de que fumantes passivos (que respiram a fumaça, sem serem usuários de tabaco) também estão entre as vítimas frequentes, é o caminho mais fácil para a diminuição dos números.

Para a oncologista, parar de fumar é a forma mais eficaz de prevenir o câncer de pulmão e diversos outros tumores, além de doenças cardíacas, doença pulmonar obstrutiva crônica, pneumonia, AVC (acidente vascular cerebral) e complicações severas decorrentes da contaminação pela Covid-19.

“Deixar o hábito de lado é dar uma segunda chance aos pulmões. Lá na frente, as pessoas que abandonaram esse vício irão se deparar com diversos benefícios ao organismo, como um menor risco de desenvolver vários tipos de cânceres e ainda a recuperação de sequelas adquiridas pelo tabagismo. Entretanto, antes de remediar, é fundamental que as neoplasias sejam prevenidas”, aposta.

A melhor alternativa é sempre parar de fumar e alertar a população de forma geral, principalmente os mais jovens, sobre os riscos que o cigarro tradicional e eletrônico podem causar. Segundo ela, o fumante precisa transformar seus hábitos e estilo de vida.

“É possível superar o vício e apostar em uma nova vida sem o cigarro, seja ele eletrônico ou tradicional. De duas a 12 semanas sem cigarro há a melhora da função pulmonar e da circulação, entre 1 e 9 meses a tosse e falta de ar diminuem e em 10 anos a mortalidade por câncer de pulmão chega a ser a metade da de um fumante”, destaca.

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