A saúde mental e emocional de crianças e adolescentes deve ser acompanhada desde o nascimento, e não apenas quando surgem transtornos. Essa é a principal mensagem de um relatório da Academia Americana de Pediatria (AAP), publicado em maio de 2026 na revista Pediatrics, e acende um sinal de alerta nos consultórios médicos neste Dia do Pediatra (27 de julho).
Recentemente, a Academia Americana de Pediatria (AAP) passou a recomendar triagens anuais de saúde mental para crianças, ressaltando que quase 40% dos jovens americanos serão diagnosticados com alguma condição mental, emocional ou comportamental até os 16 anos.
Segundo o documento, uma em cada cinco crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos desenvolverá uma condição mental ou emocional com diagnóstico formal. Além disso, aproximadamente o dobro apresentará dificuldades emocionais que comprometem o funcionamento cotidiano sem preencher critérios diagnósticos, o que pode atrasar intervenções precoces.
O documento também mostra desigualdades no acesso aos cuidados em saúde mental. Nos Estados Unidos, crianças negras e hispânicas recebem atendimento ambulatorial em cerca de metade da frequência observada entre crianças brancas.
Além disso, mais de 50% dos jovens LGBTQ+ entre 13 e 24 anos relatam não ter recebido o atendimento em saúde mental que desejavam. Para os autores, esses dados reforçam a necessidade de que a promoção da saúde mental faça parte do cuidado oferecido a todas as crianças.
O documento propõe integrar o desenvolvimento mental e emocional à rotina das consultas pediátricas, com a mesma importância atribuída ao crescimento, à vacinação e à prevenção de doenças. O relatório aponta que a saúde mental infantil atravessa uma crise importante e defende que a pediatria incorpore ações contínuas de promoção da saúde mental, prevenção, identificação precoce, orientação às famílias e acompanhamento do desenvolvimento emocional.

Tratar a saúde mental e não esperar um transtorno

Para a pediatra Anna Dominguez Bohn, especialista em desenvolvimento infantil, presidente do Núcleo de Estudos da Criança com Deficiência da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP) e membro da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o maior avanço da diretriz é reconhecer que saúde física e saúde mental são dimensões inseparáveis do desenvolvimento infantil.
A saúde mental deixa de ser vista apenas como algo que precisa ser tratado quando há um transtorno. Ela passa a integrar o cuidado pediátrico desde o início da vida, da mesma forma que acompanhamos o crescimento, a alimentação e a vacinação.”
Segundo a especialista, agir apenas quando um transtorno está instalado significa perder oportunidades importantes de prevenção. “Muitas crianças apresentam dificuldades emocionais que interferem na rotina sem preencher critérios para um diagnóstico. Elas também podem se beneficiar de intervenções precoces. Por isso, não devemos esperar que o problema se agrave para começar a cuidar.”
Na prática, a diretriz recomenda que o pediatra promova o desenvolvimento mental e emocional em todas as consultas, por meio de orientações às famílias, acompanhamento do desenvolvimento socioemocional, vigilância clínica, rastreamento quando indicado, intervenções breves e encaminhamento para especialistas apenas quando necessário.
O documento também propõe substituir a visão de “normal ou anormal” por uma avaliação contínua do desenvolvimento e do funcionamento da criança. “O pediatra pode fortalecer fatores de proteção, observar fatores de risco e identificar precocemente sinais de sofrimento, ampliando a capacidade de prevenção”, esclarece a Dra. Anna.
Outro ponto destacado é que muitos comportamentos considerados preocupantes fazem parte do desenvolvimento esperado e precisam ser interpretados conforme a idade da criança. “As birras, por exemplo, muitas vezes fazem parte do processo de desenvolvimento da autorregulação emocional. O papel do pediatra é ajudar a família a compreender o que é esperado em cada fase e identificar quando determinado comportamento realmente merece investigação”, afirma a especialista.
Os autores também reconhecem que a implementação desse modelo exige mudanças estruturais. O relatório cita pesquisas mostrando que mais de 65% dos pediatras relatam não ter recebido treinamento suficiente para abordar questões relacionadas à saúde mental infantil e mais de 50% afirmam não se sentir confiantes para conduzir esse tipo de atendimento.
São necessárias mais capacitação, tempo de consulta e integração com equipes de saúde mental. Essa transformação depende tanto dos profissionais quanto da organização dos serviços,” pontua a Dra. Anna.
Para a médica, a principal contribuição da nova diretriz é reforçar que promover saúde mental significa fortalecer o desenvolvimento infantil desde os primeiros anos de vida. “O pediatra acompanha a criança desde o nascimento e está em uma posição privilegiada para fortalecer vínculos, orientar as famílias, identificar precocemente dificuldades e promover o desenvolvimento integral antes que os problemas se instalem”, finaliza a Dra. Anna Dominguez Bohn.
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