O discurso de ódio é o primeiro passo no caminho da desumanização — um percurso que frequentemente conduz à violência e a crimes atrozes. O alerta, feito pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, marca a passagem da quinta edição do Dia Internacional de Combate ao Discurso de Ódio, celebrado em 18 de junho.  Na era digital, essa propagação ganhou velocidade alarmante, impulsionada por algoritmos que recompensam a indignação e o preconceito.

Diferente do ecossistema que alimenta comunidades virtuais misóginas (red pills, incels e assemelhados), o cenário real aponta para um cansaço e uma repulsa crescentes por parte dos próprios homens. De acordo com um levantamento exclusivo conduzido pela Hibou Pesquisas e Insights em março de 2026, mais da metade dos homens brasileiros entrevistados acredita que os conteúdos red pill configuram incitação à violência.

A pesquisa com mais de 1.100 brasileiros trouxe dados contundentes sobre o impacto desse ecossistema:

  • Exposição massiva: Mais de 60% dos homens já ouviram falar em comunidades red pill ou semelhantes, e mais da metade relatou exposição direta a esses conteúdos.

  • Percepção de agressividade: Para 59% dos homens, esses discursos contribuem diretamente para o aumento do desrespeito e da agressividade contra as mulheres.

  • Clamor por punição: A urgência por limites legais uniu gêneros: quase 90% das mulheres e 68% dos homens defendem que o Brasil deveria criar uma legislação específica para criminalizar a misoginia.

Os dados mostram que a misoginia não é um fenômeno marginal, ela está presente nas redes, no cotidiano e nas relações sociais. O ‘Red é de Sangue’ surge justamente para transformar essa consciência em ação coletiva”, explica Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa.

O papel das redes sociais nesse processo é visto de forma crítica por quase toda a população: 78,1% dos entrevistados apontam as plataformas digitais como o principal espaço para a disseminação desse tipo de ódio.

Campanha Red é de Sangue

No Brasil, uma das faces mais violentas dessa realidade ganha um novo contraponto com o lançamento da plataforma Red é de Sangue, uma iniciativa desenhada especificamente para enfrentar o avanço da misoginia digital e o impacto do chamado movimento red pill.

Criada pelo braço de ESG da agência Fresh PR, com o apoio institucional do Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do Tribunal de Contas da União (Sindilegis), a plataforma busca desarmar a engrenagem que lucra com a incitação à violência de gênero.

A iniciativa conta com parcerias de acolhimento e de grupos reflexivos: MuRA (Mulheres em Relações Abusivas), MEMOH e plataforma Homem Autêntico. A campanha conta com figuras históricas da defesa dos direitos das mulheres — como Rosmary Corrêa, criadora da primeira Delegacia da Mulher do país.

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Educação, denúncia e apoio psicológico

A plataforma “Red é de Sangue” estrutura sua atuação em três frentes essenciais para quebrar o ciclo da violência:

1. Educação e conscientização

Com suporte de um corpo técnico formado por sociólogos, psicólogos e acadêmicos — como Luciano Ramos, consultor de Masculinidades da Unesco, e Isabel Bernardes (PUC-SP) —, o portal traduz estudos científicos sobre violência de gênero para uma linguagem acessível. Artigos didáticos explicam, por exemplo, como referências externas moldam o comportamento de meninos até a manifestação extrema do feminicídio.

2. Mobilização pública e canais de denúncia

O site disponibiliza um tutorial detalhado que ensina a sociedade civil a denunciar crimes de ódio na internet. Enquanto os projetos de lei específicos para tipificar a misoginia seguem em debate no Congresso Nacional, a plataforma orienta o uso dos mecanismos jurídicos vigentes e promove um abaixo-assinado para pressionar as autoridades por maior rigor legislativo.

3. Redes de acolhimento

Entendendo que o problema exige intervenções estruturais de saúde mental e social, a iniciativa conecta os usuários a projetos parceiros já consolidados:

  • Para mulheres: Acesso ao coletivo MuRA (Mulheres em Relações Abusivas), que oferece terapia em grupo gratuita para vítimas de violência física ou psicológica.

  • Para homens: Encaminhamento para os grupos terapêuticos e reflexivos das iniciativas Homem Autêntico e MEMOH, voltados para homens que buscam romper com padrões machistas e repensar suas masculinidades.

É muito importante proporcionar esse encaminhamento para homens incomodados com o discurso red pill e o próprio comportamento, notando padrões que não querem mais reproduzir”, pontua Pedro de Figueiredo, fundador do MEMOH.

O reflexo global do ódio

Secretário-geral António Guterres, durante o lançamento da Estratégia e Plano de Ação das Nações Unidas contra o Discurso de Ódio, em 18 de junho de 2019 (Foto: Divulgação ONU Brasil)

A necessidade de iniciativas locais como a “Red é de Sangue” ecoa as preocupações globais da ONU. Ao analisar o cenário internacional, o secretário-geral António Guterres relembrou que o silêncio ou a omissão diante do discurso de ódio historicamente antecedem tragédias humanitárias severas.

Um exemplo perene é o Genocídio de 1994 contra os Tutsis em Ruanda — relembrado na sede da ONU pela escultura “Kwibuka – Chama da Esperança” —, onde anos de desinformação sistemática e desumanização de minorias prepararam o terreno para o assassinato de mais de um milhão de pessoas.

Para Guterres, conter a barbárie moderna exige o fim da anonimidade digital que protege predadores virtuais e uma ação coordenada que envolva a regulação ética de empresas de tecnologia, o amparo irrestrito às vítimas e a educação como principal vacina social.

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