A primavera de 2026 começa oficialmente nesta terça-feira, 22 de setembro, às 21h05 (horário de Brasília), marcando a transição para dias mais quentes no Hemisfério Sul. Tradicionalmente, a chegada da estação é sinônimo de flores, temperaturas mais altas – ou pelo menos, deveria – e, para uma boa parte da população, costuma criar a impressão de que a temporada de doenças respiratórias ficou para trás.
Mas a mudança de estação não significa o fim da circulação de vírus. Enquanto agentes como influenza e vírus sincicial respiratório (VSR), mais associados aos meses frios, tendem a perder força, rinovírus e metapneumovírus humano podem continuar circulando e provocar novos casos de infecções respiratórias.
A primavera não representa uma pausa nas infecções respiratórias, mas uma mudança no perfil dos vírus que circulam com maior intensidade. Cada agente possui um comportamento sazonal próprio, por isso não podemos considerar que o fim do inverno significa o fim das viroses”, explica o infectologista Daniel Paffili Prestes.
Maior risco de crises de rinite e conjuntivite
O cenário também exige atenção porque a primavera traz outro personagem para a equação: os alérgenos. Com maior exposição a pólen, poeira, mofo e vegetação, sintomas de rinite alérgica – como coriza, espirros, obstrução nasal, olhos vermelhos e lacrimejamento frequentes – podem se parecer com os de uma virose, dificultando a identificação da origem do quadro.
As alergias de primavera podem colocar a saúde das vias aéreas superiores em risco. Não se trata simplesmente uma reação ao pólen. Estudos apontam que até 70% das pessoas com rinite alérgica também desenvolvem conjuntivite alérgica, além de asma associada em até 40% dos casos.
A rinite alérgica, uma das doenças respiratórias mais comuns no país, atinge cerca de 30% da população, segundo estimativas da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) — e o problema não fica restrito ao nariz. Estudos apontam que até 70% das pessoas com rinite alérgica também desenvolvem conjuntivite alérgica, além de asma associada em até 40% dos casos.
Para a otorrinolaringologista Mayra Atalla, do Hospital Cema, o que costuma acontecer nessa época do ano é, na verdade, uma intensificação de sintomas que muitas pessoas já apresentam. “É uma exacerbação dos sintomas provocada pela maior liberação de pólen e outros aeroalérgenos nessa estação do ano, intensificando os sintomas da rinite.”
Leia mais
A temporada das ‘ites’: primavera agrava alergias respiratórias
Primavera é período de alerta para alergias e doenças respiratórias
Primavera é período de alerta para alergias e doenças respiratórias
Primavera: as doenças e alergias mais comuns e como evitá-las
Clima em transformação, sintomas por mais tempo
Mudanças climáticas já estão alterando o cenário das estações, prolongando a exposição aos alérgenos
Um ponto de atenção levantado pela especialista é que a própria ideia de “alergia de primavera” pode estar mudando. Não porque o problema esteja desaparecendo, mas porque, com as alterações climáticas, os sintomas podem deixar de ficar tão concentrados em uma única época do ano.
As mudanças climáticas têm alterado bastante o padrão das estações. Hoje, elas já não são tão bem definidas como antes, o que pode fazer com que, no futuro, a chamada ‘alergia de primavera’ deixe de ser tão característica de uma estação específica e passe a estar mais relacionada a fatores ambientais e climáticos.”
A observação da médica dialoga com projeções internacionais: a Organização Mundial da Alergia (WAO) estima que metade da população global poderá conviver com algum tipo de alergia até 2050, cenário atribuído justamente às mudanças climáticas, que ampliam a temporada de polinização.
No Brasil, país de clima heterogêneo e estações pouco delimitadas, plantas já liberam pólen e outros aeroalérgenos no ar por períodos mais longos que os três meses tradicionais da primavera — o que também explica por que os sintomas oculares associados à rinite não ficam restritos a setembro, outubro e novembro.
Nariz, olhos e um mesmo mecanismo
A especialista explica que, quando o organismo de uma pessoa já sensibilizada entra em contato com o alérgeno, ocorre a ativação dos mastócitos que causam a liberação dos mediadores inflamatórios, responsáveis pelo quadro exacerbado: congestão nasal, coriza, espirros, prurido nasal e lacrimejamento, além da hiperemia conjuntival — o olho vermelho. “É um quadro bem típico”, resume Dra. Mayra.
O diagnóstico, segundo ela, é clínico, feito a partir dos sintomas relatados pelo paciente, do exame físico e da história de exposição, podendo ser confirmado por teste cutâneo ou pela dosagem de IgE específica no sangue, que identifica a quais aeroalérgenos a pessoa foi exposta.
Vale lembrar que, se o teste vier positivo, não quer dizer que a pessoa necessariamente tem alergia àquilo, mas que teve uma sensibilização prévia — e é através da história clínica relatada ao especialista que vamos saber se ela é realmente alérgica ou não”, pondera a médica.
Vírus ou alergia? Os sintomas podem confundir
Coriza, espirros e nariz entupido aparecem tanto em infecções virais quanto em quadros alérgicos. Observar a evolução dos sintomas e a presença de manifestações associadas pode ajudar a diferenciar as duas situações.
Nas infecções virais, é comum que a coriza e a congestão estejam acompanhadas de mal-estar, dor no corpo, cansaço e, em alguns casos, febre. Já a rinite alérgica costuma provocar espirros repetidos, coceira no nariz e nos olhos e secreção mais clara, geralmente sem febre. Além disso, a alergia pode persistir enquanto a pessoa continua exposta ao gatilho”, explica o médico.
Crianças e idosos exigem atenção
A circulação de diferentes vírus respiratórios merece atenção especial entre crianças pequenas, idosos e pessoas imunossuprimidas, que podem apresentar maior risco de complicações dependendo do agente infeccioso e das condições individuais.
Os grupos mais vulneráveis precisam ser observados com mais cuidado. Dificuldade para respirar, queda importante do estado geral, febre persistente ou piora dos sintomas são sinais que justificam uma avaliação médica. Não devemos esperar a chegada do verão para deixar de considerar as infecções respiratórias”, orienta Daniel Prestes.
Cuidados e controle ambiental
Segundo a especialista, o tratamento tem como base medidas comportamentais de controle do ambiente, associadas a medicamentos que ajudam a aliviar o desconforto. Entre as recomendações estão:
- Lavagem nasal com soro fisiológico — “é a regra número 1 para todos, principalmente aos alérgicos”, destaca a médica, já que o hábito evita que as partículas de alérgeno permaneçam em contato com a mucosa nasal, prevenindo a manutenção dos sintomas;
- Uso de máscara em locais com mata ou muita vegetação;
- Evitar deixar a casa aberta em dias de alta contagem de pólen, para reduzir a entrada de partículas no ambiente;
- Tomar banho e trocar de roupa após exposição prolongada ao ar livre;
- Evitar secar roupas ao ar livre em períodos de alta exposição a pólen.
Prevenção continua importante
Mesmo com temperaturas mais elevadas, medidas simples continuam ajudando a reduzir a transmissão de vírus respiratórios. Higienizar as mãos, manter ambientes ventilados e evitar contato próximo quando estiver com sintomas são cuidados que permanecem relevantes durante a primavera.
Não existe uma estação completamente livre de vírus respiratórios. A prevenção continua sendo importante durante todo o ano, especialmente para quem convive com crianças pequenas, idosos ou pessoas que apresentam condições de saúde que aumentam o risco de complicações”, ressalta o infectologista.
A primavera, portanto, muda o cenário das infecções respiratórias, mas não elimina o problema. E, diante de sintomas como coriza, espirros e congestão nasal, entender se a origem é infecciosa ou alérgica é fundamental para evitar tratamentos inadequados e buscar atendimento quando necessário.
Quando procurar um especialista
O ideal é procurar um otorrinolaringologista quando os sintomas forem frequentes, persistentes ou estiverem interferindo na rotina e na qualidade de vida. Espirro repetidos, coriza constante, obstrução nasal e sintomas oculares que aparecem com frequência, especialmente em determinadas épocas ou após exposições específicas, merecem investigação.
O paciente com rinite alérgica deve ser avaliado de maneira integrada, com diagnóstico adequado, identificação dos desencadeantes e tratamento certeiro. “Mais do que prever quando começa a primavera, o desafio é entender como o ambiente que respiramos está mudando – e como nossas vias aéreas estão respondendo a essas mudanças”, finaliza.
No campo medicamentoso, Dra. Mayra explica que o tratamento pode incluir anti-histamínicos (antialérgicos) e corticoide nasal, entre outras opções, de acordo com a gravidade do quadro e a característica de cada paciente.
Ainda dentro do tratamento, há a possibilidade de fazer imunoterapia, que é o único tratamento que muda a história natural da doença”, ressalta a especialista, ao citar a opção indicada para casos recorrentes ou mais graves, quando o objetivo é reduzir a sensibilidade ao alérgeno a longo prazo, e não apenas controlar a crise.
Com Assessorias
Quer receber notícias atualizadas sobre segurança digital, saúde e bem-estar diretamente no seu celular? Entre no canal oficial do Portal Vida e Ação no WhatsApp e acompanhe todas as novidades

Quer receber notícias atualizadas sobre segurança digital, saúde e bem-estar diretamente no seu celular? Entre no 

