Neste 30 de janeiro, o mundo volta os olhos para o Dia Mundial das Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs). A data de 2026 carrega um peso especial para o Brasil: enquanto a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) convoca o lema “Vamos envolver as comunidades”, o município de Ananindeua, no Pará, enfrenta um surto crítico daquela que é considerada a “mais brasileira” dessas enfermidades: a doença de Chagas.
O cenário em solo paraense é um lembrete urgente de que essas patologias não são apenas estatísticas, mas rostos e histórias que o sistema de saúde não pode deixar para trás. Somente em janeiro, Ananindeua registrou quatro mortes — incluindo uma criança de 11 anos — número que já supera o total acumulado dos últimos cinco anos na cidade.
O silêncio que mata

Foto: Arquivo/Ministério da Saúde)
A doença de chagas, causada pelo parasita Trypanosoma cruzi, é o retrato fiel da negligência. Por afetar majoritariamente populações de baixa renda, desperta baixo interesse da indústria farmacêutica. O resultado é um arsenal terapêutico datado e diagnósticos que chegam tarde demais: estima-se que apenas 10% dos infectados recebam a confirmação da doença a tempo de um tratamento plenamente eficaz.
No Brasil, o perfil da transmissão mudou. Se antes o “barbeiro” (inseto vetor) era o vilão das casas de pau-a-pique, hoje a transmissão oral é o grande desafio na região Norte. O consumo de alimentos contaminados, como o açaí e o caldo de cana, tem sido a principal via de infecção.
Comunidade como barreira sanitária
A resposta ao surto em Ananindeua exemplifica o que a OPAS define como “capacidade instalada”. Mais de 200 agentes comunitários estão percorrendo os bairros de porta em porta, transformando a informação em ferramenta de sobrevivência.
Essas doenças não são apenas números — elas representam pessoas e comunidades que não devem ser deixadas para trás”, diz Jarbas Barbosa, diretor da OPAS.
A estratégia central para frear o avanço em áreas endêmicas passa pela segurança alimentar. Iniciativas como a Casa do Açaí capacitam batedores e manipuladores do fruto para garantir que a tradição culinária paraense não seja um risco à saúde. Em 2025, 840 pessoas foram capacitadas; em 2026, o esforço já alcançou 130 trabalhadores apenas no primeiro mês.
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Números da negligência no Brasil
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Alcance: Entre 1 e 5 milhões de brasileiros convivem com a doença.
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Mortalidade: É a DTN que mais mata no país (75% dos óbitos do grupo entre 2000 e 2019).
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Letalidade: Causa cerca de 14.000 mortes anuais na América Latina.
Como agir?
O Ministério da Saúde classifica o evento atual como um “surto associado à transmissão oral” e mantém equipes de vigilância em campo. Para os moradores da região, o monitoramento de sintomas como febre prolongada, dor de cabeça e fraqueza é vital, especialmente após o consumo de alimentos in natura.
Em Ananindeua, a Vigilância em Saúde disponibiliza um canal direto para dúvidas e denúncias via WhatsApp: (91) 98051-1967.
A mensagem para este 30 de janeiro é clara: a eliminação das doenças negligenciadas só será possível quando o tratamento e a prevenção respeitarem os modos de vida das comunidades, colocando o ser humano, e não apenas o patógeno, no centro da estratégia de saúde pública.
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Conheça as principais doenças negligenciadas do Brasil
Para além da doença de Chagas, o Brasil enfrenta um desafio contínuo com diversas outras Doenças Tropicais Negligenciadas (DTNs). Segundo dados do Ministério da Saúde publicados em boletins especiais entre 2025 e 2026, essas enfermidades estão intrinsecamente ligadas a vulnerabilidades sociais e econômicas.
No total, as DTNs foram responsáveis por mais de 126.000 óbitos no Brasil (impulsionados pelo surto de dengue). A maioria (82%) dos casos em crianças (0 a 11 anos) são de dengue, mas doenças como hanseníase e acidente ofídico ainda apresentam alta sobreposição nas mesmas famílias vulneráveis.
Abaixo, listo as principais DTNs no país, com suas descrições e os indicadores oficiais mais recentes:
1. Hanseníase
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Descrição: Doença infecciosa crônica que afeta principalmente a pele e os nervos periféricos. Pode causar incapacidades físicas permanentes e deformidades se não tratada.
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Números Oficiais (2025): O Brasil registrou cerca de 14.166 casos novos no último levantamento. Houve um aumento preocupante na proporção de diagnósticos com grau 2 de incapacidade física (casos mais graves), indicando diagnóstico tardio. O país mantém o status de alta endemicidade em várias regiões.
2. Dengue
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Descrição: Infecção viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Embora comum, é classificada como negligenciada devido ao impacto desproporcional em áreas com saneamento precário.
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Números Oficiais (2025): Em um dos anos mais críticos da série histórica, o Brasil registrou mais de 14 milhões de casos (considerando também chikungunya) e milhares de óbitos. É a doença com maior volume de notificações entre as DTNs.
3. Leishmaniose (Visceral e Tegumentar)
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Descrição: Transmitida pela picada do mosquito-palha. A forma visceral ataca órgãos internos (fígado, baço), sendo fatal se não tratada; a tegumentar causa feridas na pele e mucosas.
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Números Oficiais (2025): Foram reportados cerca de 16.573 casos de Leishmaniose Visceral e 23.539 casos da forma Tegumentar. É uma das doenças que mais gera internações hospitalares no Norte e Nordeste.
4. Esquistossomose (Xistose)
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Descrição: Parasitose ligada à ausência de saneamento básico e contato com água contendo caramujos infectados. Pode evoluir para danos graves ao fígado e baço.
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Impacto Atual: Estima-se que milhões de brasileiros ainda vivam em áreas de risco, com focos persistentes em Minas Gerais e no Nordeste. O Ministério projeta intensificar o controle para reduzir a mortalidade para menos de 0,25 óbitos por 100 mil habitantes até 2028.
5. Tracoma
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Descrição: Uma infecção bacteriana nos olhos que é a principal causa de cegueira infecciosa no mundo. Está ligada à falta de higiene e acesso a água limpa.
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Números Oficiais (2025): Cerca de 149.078 casos foram detectados em ações de busca ativa, afetando majoritariamente crianças em idade escolar. O Brasil está em fase final de elaboração do dossiê para solicitar à OMS a validação da eliminação do tracoma como problema de saúde pública.
6. Acidentes Ofídicos (Picadas de Cobra)
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Descrição: Recentemente incluídos na lista de DTNs pela OMS e pelo Ministério da Saúde devido ao alto impacto em comunidades rurais e indígenas.
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Números Oficiais (2025): Mais de 39.000 casos anuais são registrados, com foco na descentralização da oferta de soro antiofídico para áreas remotas na Amazônia.
(Fonte: Boletim Epidemiológico de Doenças Tropicais Negligenciadas do Ministério da Saúde – Jan/2025 e OPAS 2026).





