O hábito aparentemente inofensivo de usar um colírio indicado por um conhecido ou reaproveitar aquele frasco guardado na caixinha de remédios esconde um grave risco para a saúde ocular. O uso indiscriminado de medicamentos à base de corticoides — seja em gotas para os olhos, pomadas ou sprays nasais — acendeu um alerta vermelho na comunidade médica brasileira.
Sem o devido acompanhamento, essas substâncias podem desencadear o glaucoma secundário — aquele gerado por um fator externo conhecido. A doença silenciosa danifica o nervo óptico e pode levar à cegueira irreversível. Estima-se que pelo menos um terço dos casos de glaucoma secundário seja consequência direta da automedicação com esses fármacos.
Cada semana de uso de corticoides ao longo da vida, sem supervisão, eleva em média 4% o risco de desenvolver a doença”, explica Maria Beatriz Guerios, oftalmologista especialista em Glaucoma.
Mobilização por controle semelhante ao de antibióticos
O alerta ganhou força após uma mobilização conjunta de grandes entidades da área, como a Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG), o Conselho Brasileiro de Olho (CBO) e a Sociedade Brasileira de Oftalmologia Pediátrica (SBOP).
As instituições enviaram uma nota pública à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e ao Ministério da Saúde cobrando um controle de venda muito mais rígido para os corticoides, nos mesmos moldes do que já é aplicado aos antibióticos, com a retenção da receita médica pelas farmácias.
No cenário oftalmológico, especialistas esclarecem que o uso indiscriminado de colírios antibióticos chega a ser menos perigoso do que o de corticoides.
| Tipo de medicamento | Controle atual | Proposta das entidades |
| Antibióticos | Exigência de receita em duas vias (uma retida pela farmácia). | Manter o rigor atual. |
| Corticoides | Venda facilitada (muitas vezes sem exigência de retenção). | Mesmo rigor dos antibióticos, impedindo a compra livre e o autotratamento. |
90% dos pacientes que já têm glaucoma são sensíveis ao corticoide
De acordo com o presidente da SBG, Roberto Murad Vessani, a situação é alarmante. Estima-se que pelo menos 1,7 milhão de brasileiros convivam com o glaucoma. Na população acima dos 40 anos, a prevalência varia entre 2,5% e 3,5%, e o risco praticamente dobra a cada década de vida.
Cerca de 90% dos pacientes que já têm glaucoma são altamente sensíveis ao uso de corticoide. Nesses casos, a pressão do olho sobe de maneira significativa, comprometendo ainda mais a visão”, adverte Vessani.
O perigo se estende também às crianças. Pais que utilizam colírios com corticoides por conta própria para tratar alergias oculares nos filhos correm o risco de provocar o aumento da pressão ocular ou antecipar o desenvolvimento de catarata na infância.
As entidades médicas reforçam que o monitoramento regular da pressão intraocular é indispensável para pacientes de todas as idades que necessitam utilizar corticoides por longos períodos — tratamento este que deve ser sempre prescrito e guiado por um profissional de saúde.
Por que o corticoide ameaça a visão?
Os corticoides (ou corticosteroides) são potentes anti-inflamatórios essenciais para tratar alergias, crises respiratórias e doenças oculares legítimas. No entanto, por proporcionarem um alívio rápido de coceiras e irritações, muitas pessoas passam a reutilizá-los por conta própria. É aí que mora o perigo.
O glaucoma é uma doença silenciosa. Quando surgem os primeiros sintomas, como a perda da visão periférica, a condição já costuma estar em estágio avançado e os danos são irreversíveis”, explica Maria Beatriz Guerios, oftalmologista especialista em Glaucoma, ao apontar ainda o risco de guardar e reutilizar sobras de medicamentos.
O medicamento altera a estrutura natural dos olhos, dificultando o escoamento do humor aquoso (o líquido que circula na parte interna do olho). Com a drenagem obstruída, o líquido se acumula e a pressão intraocular (PIO) aumenta. Se essa pressão permanecer alta por dias ou semanas, ela destrói progressivamente as fibras do nervo óptico.
Além dos corticoides: os riscos de lubrificantes e descongestionantes
A automedicação ocular no Brasil atinge níveis preocupantes. Dados do Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) revelam que 79% dos brasileiros têm o hábito de usar remédios por conta própria. No caso dos olhos, o perigo não se restringe aos corticoides:
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Colírios descongestionantes (para clarear os olhos): Funcionam contraindo os vasos sanguíneos. O uso prolongado causa o “efeito rebote” (o olho fica vermelho cada vez mais rápido, exigindo doses maiores), faz os vasos perderem a elasticidade e pode acelerar o desenvolvimento precoce de catarata. Em casos raros, podem provocar alterações cardíacas.
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Lágrimas artificiais (lubrificantes): Embora mais seguros, podem causar visão turva temporária logo após a aplicação, exigindo cautela ao dirigir ou operar máquinas, além do risco de reações alérgicas graves (anafilaxia).
Como o corticoide afeta a visão?
Os corticoides são potentes anti-inflamatórios amplamente prescritos para tratar alergias, crises respiratórias, sinusites, problemas reumatológicos e irritações oculares. Pelo fato de proporcionarem um alívio rápido dos sintomas, tornam-se um prato cheio para a automedicação recorrente.
No entanto, o uso prolongado e sem acompanhamento interfere diretamente na dinâmica ocular:
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Bloqueio da drenagem: O medicamento dificulta o escoamento natural do humor aquoso (o líquido que circula na parte interna do olho).
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Aumento da pressão: Com o acúmulo desse líquido, a pressão intraocular (PIO) se eleva de forma contínua.
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Lesão no nervo óptico: A pressão alta e prolongada destrói as fibras do nervo óptico, gerando perdas na visão que começam pelas laterais e podem evoluir para a cegueira total.
Outros riscos sistêmicos e recomendações
Os prejuízos do uso sem critérios de corticoides não se limitam aos olhos. No restante do organismo, o uso crônico e sem supervisão pode acarretar:
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Aumento da glicose no sangue e descontrole do diabetes;
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Ganho de peso e retenção de líquidos;
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Hipertensão arterial;
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Enfraquecimento dos ossos (osteoporose);
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Maior vulnerabilidade a infecções e alterações hormonais.
Quem corre o maior risco?
Embora o aumento da pressão ocular possa ocorrer em qualquer pessoa, certas condições tornam o paciente muito mais vulnerável aos efeitos dos corticoides:
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Portadores de glaucoma primário de ângulo aberto (GPAA) — neles, o corticoide pode gerar um aumento repentino da pressão, desencadeando uma crise aguda;
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Parentes de primeiro grau de pessoas que têm glaucoma;
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Pessoas com alta miopia;
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Crianças menores de 10 anos e idosos acima de 60 anos;
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Pacientes com diagnóstico de diabetes mellitus ou artrite reumatoide.
Nas crianças com alergias oculares, o uso crônico de colírios por decisão dos pais pode provocar, além do glaucoma, o surgimento de catarata precoce.
Guia para o uso seguro de colírios
Para proteger a visão e garantir que o tratamento de uma irritação não se transforme em uma perda definitiva de visão, os especialistas recomendam seguir diretrizes estritas de segurança:
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Descarte após o uso: Em geral, os colírios vencem em apenas 30 dias após abertos. Terminado o tratamento indicado pelo médico, jogue o frasco fora para evitar a tentação de reutilizá-lo meses depois.
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Higiene rigorosa: Lave bem as mãos antes de aplicar o produto e nunca deixe o bico dosador encostar nos olhos, nos cílios ou em qualquer outra superfície, evitando a contaminação por microrganismos.
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Não compartilhe: O colírio é um medicamento de uso estritamente pessoal. O que funcionou para o vizinho pode ser prejudicial para os seus olhos.
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Acompanhamento médico: Se o uso de corticoides (inclusive sprays nasais para sinusite ou pomadas para a pele) for indispensável por longos períodos, consulte um oftalmologista regularmente para monitorar a pressão intraocular.
Caso o dano já tenha ocorrido, o tratamento do glaucoma busca paralisar a evolução da doença por meio de colírios específicos, laser, cirurgias filtrantes ou implante de microstents e válvulas de drenagem. A prevenção, contudo, continua sendo o melhor remédio: nunca pingue nada nos olhos sem prescrição médica.
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Com informações da Agência Brasil e assessorias




