Em 2003, a escritora alemã Carmen Stephan viajava pela Amazônia quando foi picada por uma fêmea do mosquito Anopheles, conhecido popularmente como mosquito-prego. Anos mais tarde, inspirada pelo livro O médico doente, de Drauzio Varella, Stephan decidiu enfim escrever essa história — mas sob outro ângulo.

O resultado é Malária: um romance, vencedor dos prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus para romance de estreia, na Alemanha, agora traduzido ao português por Claudia Abeling. A escolha narrativa do livro é tão ousada quanto reveladora: quem narra é a fêmea do mosquito anófeles — o único inseto transmissor da malária.

Malária é causada por infecção após picada do mosquito-prego (Foto: Divulgação)

O livro, narra pela perspectiva de um mosquito, o diagnóstico tardio de uma mulher no Rio de Janeiro — e transforma essa experiência em literatura de alto impacto com pesquisa científica rigorosa. A narradora explica por que o diagnóstico é tão difícil: os sintomas iniciais da malária mimetizam dengue e outras arboviroses endêmicas no Brasil.  

A evolução da doença no corpo da personagem segue o formato de um angustiante diário em direção ao nada; em meio ao abandono e à incompetência, o diagnóstico parece ficar a cada dia mais distante. O motivo do atraso: o país vivia uma epidemia de dengue, e os médicos, sem examinar a paciente adequadamente, descartaram outras hipóteses.

Malária: um romance chega às livrarias brasileiras em um momento em que o tema volta à pauta científica e de saúde pública, impulsionado também por avanços recentes como a distribuição das vacinas RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M em países africanos — progressos que reforçam a esperança de que uma das doenças mais letais da história da humanidade possa finalmente ter seu impacto reduzido nas próximas décadas.

Saiba mais sobre o livro no final da matéria

A doença mais letal da história da humanidade

A malária é uma doença mais comum na Região Amazônica (Foto: Agência Brasil)

Conhecida há séculos, a malária continua sendo uma das doenças infecciosas com maior mortalidade no mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2023 foram registrados cerca de 263 milhões de casos e 597 mil mortes — a maioria em crianças menores de cinco anos na África Subsaariana.

O Dia Mundial de Luta contra a Malária (25 de abril) reforça a importância da conscientização sobre a doença, que segue negligenciada, representando um dos principais desafios de saúde pública em países tropicais como o Brasil. O país pretende erradicar a malária até 2035, uma meta que parece ainda distante da realidade, apesar dos últimos avanços.

A doença ainda apresenta alta incidência na Região Amazônica, concentrando mais de 99% dos casos nacionais, e em 2024 o Ministério da Saúde iniciou a introdução do medicamento tafenoquina em municípios prioritários para reduzir as recaídas da malária vivax (tipo predominante no Brasil) e garantir a cura radical.

Acompanhe notícias sobre saúde e bem-estar no canal do Vida e Ação no WhatsApp. Clique aqui para seguir.

Sintomas silenciosos dificultam tratamento

Projeto da Fiocruz avalia cenário epidemiológico da malária (Foto: Fiocruz Rondônia)

O Ministério da Saúde registrou avanços significativos na Terra Indígena Yanomami. Em 2025, houve uma redução de 80,8% nos óbitos por malária em comparação a 2023. O fortalecimento da atenção à saúde incluiu a ampliação da testagem, que saltou de 144 mil para mais de 2,5 milhões de exames no período.

Embora os registros oficiais indiquem uma redução gradual no número de casos clínicos, um novo cenário tem dificultado os esforços de erradicação: as infecções assintomáticas. Pesquisas realizadas na Amazônia Ocidental mostram que, em áreas de menor transmissão, a maioria das pessoas infectadas não apresenta sintomas típicos, como febre e calafrios.

Em Mâncio Lima, no Acre, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) que acompanhou 2.700 moradores revelou que mais de 90% das infecções ocorreram de forma silenciosa, passando despercebidas pelos métodos convencionais. Esse fenômeno é um obstáculo direto para a erradicação.

Tecnologia a favor da erradicação

Quando a infecção não dá sinais, o portador continua servindo de fonte para novos mosquitos, que por sua vez mantêm a circulação do parasita na comunidade”, afirma Adriana Vega, gerente Life Sciences da QIAGEN na América Latina, que desenvolve testes para o mosquito transmissor da malária e outras arboviroses.

A análise microscópica, padrão no Brasil, tem limitações para identificar baixas cargas parasitárias. Nesse contexto, técnicas moleculares como a PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) tornam-se fundamentais, pois detectam até dez vezes mais infecções que a microscopia tradicional.

Novas tecnologias simplificam esse processo em estudos epidemiológicos, permitindo o uso de amostras de sangue seco e reduzindo custos. “O diagnóstico precoce e o uso de dados moleculares para ações de bloqueio em áreas de risco são as chaves para evitar surtos e a reintrodução do parasita em locais controlados”, diz Adriana.

Leia mais

Malária fora da Amazônia é caso raro, porém, mais letal
Malária e leucemia: o que levou Sebastião Salgado à morte?
Malária: aumenta transmissão local fora da região amazônica
Malária ainda desafia profissionais de saúde: saiba como tratar e prevenir

Orientações para viajantes e prevenção

A malária também exige atenção de quem viaja para regiões endêmicas, como o continente africano ou áreas específicas da Amazônia. O infectologista Evaldo Stanislau, professor na Universidade São Judas / Inspirali, alerta que o tipo falciparum preocupa pelo risco de formas graves e letais.

Para quem pretende viajar, as recomendações incluem:

  • Consulta médica prévia: Informar-se sobre o tipo de malária no destino.

  • Barreiras físicas: Uso de roupas adequadas, telas protetoras e repelentes.

  • Quimioprofilaxia: Uso de medicamentos preventivos antes, durante e após a viagem, conforme orientação médica.

É imprescindível procurar uma unidade de saúde assim que surgirem os primeiros sintomas”, reforça Evaldo Stanislau. O tratamento precoce é decisivo para a recuperação plena do paciente.

Ler Faz Bem

O mosquito que mudou o curso da história

Romance alemão premiado traça os desafios da doença ao longo de 2.500 anos

Em Malária: um romance, lançado no Brasil  com apoio do Goethe-Institut e publicado pela Tinta-da-China Brasil, Carmen Stephan elegeu como narradora a anófeles que a picou e depois ficou atormentada pela culpa e se irmanou com a vítima, passando a conhecê-la profundamente — a ponto de rememorar eventos de sua infância.

Chamada de “ponto preto” ao longo do texto, ela descreve com precisão entomológica e biológica sua própria fisiologia, o ciclo de vida dos plasmódios e o mecanismo de infecção:

Asas manchadas como um tabuleiro de xadrez, palpos tão longos quanto a trombinha, pernas finas e longas, abdômen liso, um ser que não pesa mais do que um pingo d’água […] O poder da natureza é sua capacidade de inserir a morte em um ser minúsculo”.

O texto descreve com exatidão como os plasmódios chamados de “chicotinhos” pela narradora – invadem o sangue dos insetos e o dos humanos. Eles passam  por sete metamorfoses, invadem hemácias e células do fígado, e se multiplicam dentro do hospedeiro.

Falha no sistema de saúde brasileiro

O livro documenta, com precisão perturbadora, a falha sistêmica do sistema de saúde brasileiro. Internada no Rio de Janeiro, Carmen é tratada como “mais um caso de dengue” por profissionais que não realizam os exames adequados nem escutam os sinais que a própria paciente comunica.

A voz da anófeles diagnostica: “A única coisa de que vocês dispõem é a consciência; e vocês não a usam”. A narrativa evidencia como a tendência de confirmar hipóteses pré-formadas em vez de investigar pode ser letal em contextos de doenças tropicais. O corpo de Carmen é submetido ao descaso hospitalar por treze dias antes que se chegue ao diagnóstico certo.

Intercalada ao diário da doença, a narradora conduz o leitor por um banquete histórico e cultural: as crenças de cada época, os tratamentos mais estapafúrdios já inventados e as maiores matanças causadas pela malária e seu ‘exército de chicotinhos’. A construção do canal do Panamá, por exemplo, no final do século XIX, vitimou mais de 20 mil homens, e a anófeles nos conta por quê:

Em Colón, os pacientes dispunham de vista para o mar e o vento tropical circulava pelos ambientes abertos. Sim, e os pés dos leitos, os pés dos leitos estavam metidos em bacias com água. Bacias bonitas, pequenas, que impediam a subida de formigas e de aranhas. Ali nos multiplicamos”.

“Mosquitos não têm partido”

A narradora explica com orgulho como seus semelhantes podem ter interferido na história mundial: “Quem freou Alexandre, o Grande, o conquistador do mundo? Uma cruzinha preta, que aterrissou num pedaço de pele. A malária interrompeu Cruzadas, lançou na cova mendigos, crianças, imperadores e papas, vicejou nas duas guerras mundiais.

Não foram os canhões, não foram os adversários que decidiram algumas batalhas, mas uma manchinha flutuante com um par de asas. Quem protegeu Roma da invasão dos povos germânicos? E quem acabou contribuindo para a queda do Império Romano? Mosquitos não têm partido”.

Em outro capítulo da história da humanidade, os nazistas tentam fazer dos mosquitos seus cúmplices, inundando as terras italianas onde esperavam os Aliados. No pântano, surgiria um viveiro de morte, e os mosquitos atacariam os inimigos. A solução veio com o veneno e o slogan “let us spray”, até que “crianças nasceram sem olhos e sapos com três pernas”.

A natureza retratada por Stephan é implacável, e seu romance nos faz questionar profundamente nosso antropocentrismo. Espirituosa, a fêmea de anófeles — que ironicamente quer dizer “inútil” em grego — nos lembra que, segundo a Bíblia, ela existia antes do homem, que só foi criado no último dia: “Vocês são os invasores do nosso mundo”.

Sobre a autora

Carmen Stephan (Berching, Alemanha, 1974) vive na Bahia. Depois de vários anos morando no Rio de Janeiro, publicou em 2005 seu primeiro livro, Brasília Stories, uma coletânea de contos. É autora, ainda, de It’s All True (2017), traduzido na França, que conta a história de quatro jangadeiros e recebeu uma bolsa de literatura da Baviera. Stephan trabalhou por muito tempo como jornalista para a SZ-Magazin e o Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, entre outros veículos. Viveu também em Genebra e Munique.

Sobre a tradutora

Claudia Abeling (São Paulo, 1965) cursou editoração na ECA/USP e fez a Formação de Escritores no Instituto Vera Cruz, em São Paulo. Foi editora de diversas casas literárias paulistanas e, como bolsista da Fundação Bertelsmann, trabalhou também em Frankfurt, na Alemanha, nas editoras Campus e Vittorio Klostermann. Num segundo momento, concentrou-se na tradução do alemão. Entre os títulos trazidos ao português, dois foram finalistas do prêmio Jabuti. Também é autora dos livros de poemas p:l:a:n:g:e p:l:a:n:g:e (Quelônio, 2019) e a que manca, no prelo.

Ficha técnica

TítuloMalária: um romance
Autor: Carmen Stephan
Tradução: Claudia Abeling com apoio do Goethe-Institut
Capa: Vera Tavares
Páginas: 168 pp.
Preço: R$ 79,90

Com informações de Assessorias

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *