Originalmente desenvolvidos para auxiliar na recuperação de pacientes com queimaduras graves, câncer ou desnutrição, os anabolizantes ganharam um destino perigoso: as academias. Buscando atalhos estéticos, homens e mulheres ignoram os alertas médicos e alimentam um mercado que registrou um crescimento explosivo de 670% no Brasil entre 2019 e 2024, segundo levantamento do Valor Econômico e da Anvisa.
A musculação é hoje a segunda atividade física mais praticada no país, de acordo com o Vigitel. No entanto, a pressa em atingir padrões de beleza inalcançáveis tem levado um em cada 16 estudantes a utilizar esteroides, conforme dados da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
O colapso após o espelho
O maior perigo nem sempre ocorre durante o uso, mas quando o efeito passa. O corpo pode enfrentar colapsos físicos e hormonais irreversíveis. “Não há qualquer indicação médica para o uso da testosterona com finalidade de emagrecimento”, enfatiza o endocrinologista Marcio Krakauer, diretor executivo da G7med. Ele alerta que, ao interromper o uso, os ganhos desaparecem rapidamente, dando lugar a sintomas como falta de ar, dor no peito e pressão alta.
A lista de complicações é extensa e atinge diversos órgãos:
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Coração: Aumento do risco de infarto, insuficiência cardíaca e AVC.
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Fígado: Hepatite medicamentosa e tumores.
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Psicológico: Irritabilidade extrema e comportamento agressivo.
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Estética: Acne severa e queda de cabelo em ambos os sexos.
Efeitos específicos em homens e mulheres
Para os homens, o uso de derivados sintéticos da testosterona causa um efeito irônico: a perda de características masculinas. O urologista Marcos Dall’Oglio, professor da Faculdade de Medicina da USP, explica que o excesso de hormônio externo faz com que a glândula hipófise pare de enviar comandos aos testículos.
“Isso interrompe a produção natural, podendo levar à infertilidade, redução dos testículos e disfunção erétil”, diz Dall’Oglio.
Nas mulheres, os danos costumam ser mais visíveis e, muitas vezes, definitivos. A endocrinologista Lorena Amato pontua que o uso abusivo causa o engrossamento da voz, aumento do clitóris e crescimento de pelos no rosto (hirsutismo), além de irregularidade menstrual.
Mitos e verdades: a nova regulamentação
Desde abril de 2023, o Conselho Federal de Medicina (CFM) proibiu formalmente a prescrição de anabolizantes para fins estéticos ou de performance. A medida visa coibir a atuação de profissionais que ignoravam os riscos éticos da prática.
Diferença fundamental: Reposição x Anabolismo
Muitos usuários tentam camuflar o uso sob o termo “terapia de reposição”. No entanto, os especialistas são claros:
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TRH (Terapia de Reposição Hormonal): Indicada para quem possui deficiência comprovada (hipogonadismo), utilizando doses fisiológicas.
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Uso Anabólico: Utiliza doses suprafisiológicas (muito acima do natural) apenas para ganho de massa, sem justificativa médica.
Não existem atalhos seguros
Para o endocrinologista Caoê Índio do Brasil von Linsingen, da Paraná Clínicas, a ideia de que existe um “uso seguro” com acompanhamento médico é uma falácia. “Quem usa destes artifícios está encurtando sua vida. Não há dose segura e os riscos são muito maiores que os benefícios”, afirma.
O caminho para o corpo desejado continua sendo o mais tradicional: alimentação equilibrada e exercícios de resistência. Embora os resultados demorem mais, eles são os únicos sustentáveis e que não colocam a vida em xeque.
Com Assessorias



