As mortes recente de três personalidades públicas brasileiras trouxe novamente ao centro do debate um dos tumores mais letais da atualidade. A atriz Titina Medeiros, de 48 anos; o jornalista André Micelli, de 46, e o ex-deputado federal e ex-ministro Raul Jungmann, de 73 anos, morreram em decorrência de complicações do câncer de pâncreas.

De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil registrou cerca de 10.980 casos novos da neoplasia em cada ano do triênio 2023-2025. O órgão ainda não divulgou projeções oficiais para os próximos anos, mas os números atuais já colocam a doença entre os grandes desafios da oncologia nacional.  Embora represente cerca de 2% de todos os diagnósticos de câncer, o tumor pancreático responde por aproximadamente 4% das mortes por câncer no país, evidenciando sua gravidade.

O cenário brasileiro acompanha uma tendência mundial. Dados internacionais indicam que o câncer de pâncreas é atualmente o 12º tipo de câncer mais comum no mundo, com mais de 510 mil novos casos diagnosticados globalmente por ano.  Os estudos epidemiológicos internacionais apontam que a incidência da doença pode quase dobrar até 2050. A literatura médica aponta que, até 2030, a doença poderá ser a segunda causa de morte por câncer no mundo.

Silenciosa, agressiva e de difícil diagnóstico, a doença ainda é, na maioria dos casos, descoberta em estágios avançados, o que ajuda a explicar seus altos índices de mortalidade. A  maioria dos pacientes recebe o diagnóstico tardiamente. Segundo Lucas Nacif, cirurgião gastrointestinal e membro titular do Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva (CBCD), isso ocorre por sua característica de agressividade e porque, em muitos casos, ele costuma ser silencioso nos estágios iniciais.

O câncer de pâncreas costuma ser diagnosticado tardiamente porque seus sintomas iniciais são inespecíficos ou ausentes. Isso dificulta o tratamento e impacta negativamente as taxas de sobrevida”, explica o oncologista Mauro Donadio.

Mas o diagnóstico não significa uma sentença definitiva, pois também há um percentual relevante de detecção precoce do tumor e altas chances de tratamento e cura, como aconteceu com o músico Tony Bellotto e o apresentador Edu Guedes, que descobriu a doença por acaso ao investigar uma crise renal,

Ator fala da doença do pai e faz alerta para diagnóstico precoce

O cantor, ator e ex-modelo Leandro Lima, que vive o personagem Herculano na novela Três Graças, da TV Globo, tornou público o câncer no pâncreas de seu pai através de um vídeo em seu perfil nas redes sociais. O ator revelou que o diagnóstico ocorreu tardiamente, quando o quadro já se encontrava em estágio avançado.

Ao tornar público o quadro avançado do pai, o ator Leandro Lima fez um apelo pela atenção à saúde e a importância de ouvir os sinais do próprio corpo, além de compartilhar o momento delicado vivido pela família.

Façam seus exames de rotina, prestem atenção no corpo e não ignorem sinais. Isso pode evitar muito sofrimento e garantir mais tempo de vida”, disse Leandro. A manifestação gerou uma forte corrente de apoio de amigos, fãs e seguidores.

O artista explicou que, embora um médico tenha alertado para a perda de peso acentuada do pai, os indícios não foram levados em conta. A progressão da doença foi acelerada e severa, e causou um forte impacto emocional. “É uma evolução de um câncer, principalmente o de pâncreas, que é muito rápido e muito violento. E, nesse caso, sem cura”, relatou.

Além de esclarecer sobre o quadro, Leandro alertou o público sobre a importância de um diagnóstico rápido. “Existem dois tipos de câncer que são os campeões no nosso país, que são o câncer de próstata e o de mama. Se tem um diagnóstico precoce, eles são muito curáveis. […] É muito importante um diagnóstico precoce para que você não passe por um sofrimento tão grande, não ter as pessoas que estão em volta sofrendo tanto, porque é muito triste”, afirmou.

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Mas afinal, como a doença se desenvolve?

pâncreas é um órgão fundamental no processo digestivo e no controle da glicemia.  Trata-se de uma glândula localizada atrás do estômago e tem funções fundamentais na digestão e na produção de hormônios como a insulina. O câncer aparece quando as células deste órgão passam a se multiplicar de maneira descontrolada, formando um tumor que pode invadir tecidos próximos ou se espalhar para outras partes do corpo.

Entre os tipos de câncer pancreático, o mais comum e também o mais agressivo é o adenocarcinoma pancreático. originado na parte exócrina do órgão, responsável por cerca de 90% dos casos. “Ele se desenvolve nas células pancreáticas e costuma ter um comportamento bastante invasivo, podendo ser do tecido pancreático ou dos ductos pancreáticos”, afirma Nacif.

Sinais de alerta e fatores de risco

Os sinais mais comuns incluem dor abdominal, emagrecimento rápido, cansaço, perda de apetite, pele e olhos amarelados, urina escura e fezes mais claras que o normal e, às vezes, uma massa palpável no abdômen. No entanto, eles variam de acordo com a localização do tumor dentro do órgão.

Nos casos mais avançados, podem surgir sintomas como dor abdominal ou lombar, perda de peso, fraqueza, icterícia (olhos ou pele amarelados), urina escura, náuseas, fadiga e alterações digestivas, sinais que muitas vezes retardam a investigação. Também podem ser acompanhados de trombose venosa profunda e agravamento súbito de um diabetes pré-existente.

Embora o câncer de pâncreas possa afetar qualquer pessoa, de acordo com o cirurgião gastrointestinal, existem fatores que aumentam significativamente o risco, como tabagismo, o consumo excessivo de álcool, a obesidade, o diabetes tipo 2, o colesterol desregulado e o sedentarismo, além de histórico familiar da doença, idade avançada e casos de pancreatite crônica.

Além disso, a alimentação também exerce influência: dietas ricas em alimentos ultraprocessados estão associadas a maior risco. Segundo o especialista, é possível agir preventivamente em alguns desses pontos.

A obesidade, por exemplo, é um fator modificável. Estudos mostram que a perda de apenas 10% do peso corporal já reduz consideravelmente o risco de desenvolver vários tipos de câncer, inclusive o de pâncreas”, ressalta o oncologista.

Diabetes é um dos principais fatores de risco

Cerca de 80% dos pacientes com câncer pancreático apresentam intolerância à glicose ou diabetes no momento do diagnóstico.

Hoje, sabemos que há uma via de mão dupla: câncer pode induzir alterações metabólicas que levam ao desenvolvimento de diabetes, mas também há evidências de que a resistência à insulina e o próprio diabetes tipo 2, especialmente quando mal controlado, podem aumentar o risco de surgimento do tumor. Essa conexão reforça a necessidade de atenção especial nesse grupo, sobretudo quando há mudanças súbitas no controle glicêmico”.

Nos casos mais avançados, podem surgir sintomas como dor abdominal ou lombar, perda de peso, fraqueza, icterícia (olhos ou pele amarelados), urina escura, náuseas, trombose venosa profunda e agravamento súbito de um diabetes pré-existente.

Em pessoas com diabetes, Mauro Donadio comenta que cerca de 80% dos pacientes com câncer pancreático apresentam intolerância à glicose ou diabetes no momento do diagnóstico.

Hoje, sabemos que há uma via de mão dupla: o câncer pode induzir alterações metabólicas que levam ao desenvolvimento de diabetes, mas também há evidências de que a resistência à insulina e o próprio diabetes tipo 2, especialmente quando mal controlado, podem aumentar o risco de surgimento do tumor. Essa conexão reforça a necessidade de atenção especial nesse grupo, sobretudo quando há mudanças súbitas no controle glicêmico”.

Diagnóstico precoce pode mudar o prognóstico

Segundo o cirurgião de pâncreas Eduardo Ramos (foto abaixo), a baixa sobrevida está diretamente relacionada ao momento em que o câncer é descoberto. “O grande problema do câncer de pâncreas não é a falta de tratamento, mas o diagnóstico tardio. Quando identificamos a doença em fase inicial, as chances de controle e até de cura aumentam significativamente”, explica.

A identificação precoce é um dos maiores desafios. É estimado que apenas 10% a 15% dos casos são descobertos em estágio inicial.  Na maior parte das vezes, o diagnóstico começa a partir da investigação de sintomas inespecíficos ou de achados através da busca por outros motivos.

A avaliação clínica é o primeiro passo, seguida por exames laboratoriais e de imagem, como tomografia, ressonância magnética e ultrassom endoscópico. Em alguns casos, a confirmação depende de uma biópsia.

O especialista alerta que exames de imagem convencionais, como ultrassonografia e tomografia, nem sempre conseguem identificar tumores pequenos no pâncreas, devido à localização profunda do órgão.

É um exame altamente dependente da experiência do profissional que interpreta a imagem. Por isso, pacientes com sintomas persistentes ou fatores de risco precisam de acompanhamento especializado”, ressalta.

Mas independentemente da destreza do radiologista que conduz o exame, ainda assim é importante realizar ultrassonografias abdominais frequentes. “O paciente pode pedir isso ao especialista que o atende sempre, seja o cardiologista, o ginecologista, etc. Ou então, consultar com um gastroenterologista / hepatologista objetivamente com esse fim. Prevenção e check up regular nunca devem sair do planejamento regular”, recomenda.

Avanços e perspectivas no tratamento do câncer de pâncreas

Cirurgia robótica de pâncreas trouxe mais precisão e chances de cura, mas nada substitui diagnóstico precoce (Foto: Eduardo Ramos)

O tratamento geralmente envolve cirurgia e quimioterapia. Em casos selecionados, a ordem tradicional é invertida: primeiro o paciente realiza a quimioterapia e depois é submetido à cirurgia.

Essa abordagem tem demonstrado bons resultados. Ao reduzir o tumor com a quimioterapia, conseguimos facilitar a cirurgia e, muitas vezes, melhorar o prognóstico do paciente”, explica Mauro Donadio.

Em relação ao tratamento do câncer de pâncreas, o Dr. Nacif alerta que ele depende diretamente do estágio em que a doença é descoberta. Quando o tumor está restrito ao órgão e não há metástases, a cirurgia é a principal abordagem e pode ser curativa. Casos mais avançados exigem estratégias combinadas, como quimioterapia, radioterapia e, em alguns casos, imunoterapia.

Segundo o especialista, assim como em grande parte dos tumores oncológicos, o ideal não é esperar por sintomas e adotar uma postura preventiva. “É fundamental manter um acompanhamento regular com exames de rotina, tanto exames de sangue quanto de imagem, para rastrear precocemente qualquer alteração”, finaliza o Dr. Lucas Nacif.

Tratamento exige centros especializados

O tratamento do câncer de pâncreas, reforça o Dr. Eduardo Ramos, deve ser realizado em centros altamente especializados, com atuação de equipes multidisciplinares. Hoje, a abordagem mais comum envolve a combinação de cirurgia, quimioterapia e, em alguns casos, radioterapia, com a sequência definida de acordo com o estágio da doença e o perfil do paciente.

Nem sempre a cirurgia vem antes da quimioterapia. Pode ser indicado reduzir esse tumor com a quimioterapia antes da cirurgia, o que facilita o procedimento e aumentar as chances de cura do paciente”, analisa o cirurgião.

Apesar de ser uma doença desafiadora, os avanços em medicina personalizada e genética têm mudado o cenário. A cirurgia robótica e outras técnicas avançadas vêm ampliando as possibilidades terapêuticas e melhorando a recuperação e a qualidade de vida dos pacientes.

A equipe do Dr. Eduardo Ramos, inclusive, foi uma das primeiras a realizar a técnica da ablação de um tumor pancreático, uma técnica minimamente invasiva e com um índice de recuperação muito mais rápido dos pacientes.

A oncologia tem evoluído rapidamente. Com a identificação de subtipos moleculares do câncer de pâncreas, conseguimos desenvolver terapias mais específicas e direcionadas. O futuro da oncologia pancreática é promissor”, completa Donadio.

Ainda assim, Ramos reforça: “Nenhuma tecnologia substitui o diagnóstico precoce. Ele continua sendo o fator mais determinante para mudar as estatísticas da doença”.

Saiba mais sobre as vítimas

  • Raul Jungmann, que presidia desde 2022 o Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM), faleceu no domingo (18). Com trajetória destacada na política nacional, Jungmann foi deputado federal por Pernambuco por três mandatos e exerceu quatro vezes o cargo de ministro nos governos de Fernando Henrique Cardoso. na pasta de Política Fundiária e Desenvolvimento Agrário, e Michel Temer, à frente dos ministérios da Defesa e da Segurança Pública.

  • André Miceli morreu na última sexta-feira (16). Ele era CEO e editor-chefe da MIT Technology Review Brasil e apresentava o programa Sociedade Digital na Jovem Pan News, onde analisava tendências tecnológicas e impactos da IA. Era professor e coordenador acadêmico dos cursos de Marketing da FGV Educação Executiva. Com formações em instituições renomadas como Harvard e MIT, ele ainda presidiu o conselho da Infobase, empresa de integração de tecnologia. 

  • Rejane Medeiros, a Titina Medeiros, morreu no domingo anterior, dia 11, após um tratamento oncológico que durava cerca de um ano. Natural de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, fez carreira na TV e no teatro. Na Globo, a artista atuou em novelas como “Cheias de Charme” e “No Rancho Fundo”. “Siga em paz. Por aqui, ficaremos lembrando dos momentos bons e rindo das presepadas que você fazia nos palcos e nas novelas. Te amo”, escreveu a irmã nas redes sociais.

Com Assessorias

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