A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o novo surto de ebola na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Até o momento, as autoridades contabilizam mais de 600 casos suspeitos e 139 mortes na região. Oficialmente, há 51 casos confirmados na RDC e dois em Kampala, capital de Uganda — um deles resultou em óbito e o outro, um cidadão norte-americano, foi transferido para tratamento na Alemanha.
Nesta quarta-feira (20/5), o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, alertou que a escala real do surto pode ser muito maior do que os dados oficiais apontam. A rápida disseminação em áreas urbanas, o contágio entre profissionais de saúde e o deslocamento de quase 100 mil pessoas devido a conflitos armados na província de Ituri (RDC) agravam o cenário humanitário e sanitário.
O desafio da cepa Bundibugyo e a ausência de vacinas
O principal fator de preocupação global é que ambos os surtos são causados pela cepa Bundibugyo, uma variação do vírus para a qual ainda não existem tratamentos ou vacinas aprovadas no mercado. As vacinas existentes e amplamente utilizadas em crises anteriores (como a Ervebo) são eficazes apenas contra a cepa Zaire (DEV).
De acordo com Vasee Moorthy, consultor de pesquisa e desenvolvimento da OMS, o processo de seleção de imunizantes candidatos está sendo acelerado. Uma vacina específica para a variante Bundibugyo está em desenvolvimento, mas a estimativa é que as doses para ensaios clínicos demorem de seis a nove meses para estarem disponíveis. Uma segunda vacina candidata pode ter testes iniciados em até três meses, dependendo de resultados experimentais em animais.
Conexão Saúde Única: a origem do vírus e o equilíbrio ambiental
O atual cenário na África reforça de forma drástica a importância do conceito de Saúde Única (One Health), abordagem que defende que a saúde humana, a saúde animal e a preservação ambiental estão intrinsecamente conectadas e são interdependentes.
Sendo uma zoonose clássica, o vírus ebola tem como reservatório natural animais silvestres, com forte evidência científica apontando para morcegos frugívoros (Pteropodidae), além de porcos-espinhos e primatas não humanos. O desequilíbrio ambiental, a degradação de habitats naturais e o contato desprotegido com a fauna silvestre facilitam o transbordamento do vírus (spillover) para as populações humanas.
Sem conter as causas da degradação nos ecossistemas e sem monitoramento veterinário rigoroso, o surgimento de novas epidemias humanas torna-se cíclico e inevitável, como alertam as autoridades sanitárias globais.
Sintomas, transmissão e diagnóstico
O ebola é uma enfermidade grave e frequentemente fatal, com taxa média de letalidade em torno de 50%, podendo atingir até 90% dependendo do surto. O período de incubação varia de 2 a 21 dias, e o paciente só transmite a doença após manifestar os primeiros sintomas.
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Sintomas iniciais: Febre súbita, fadiga extrema, dor de cabeça, dores musculares e dor de garganta.
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Evolução do quadro: Vômitos, diarreia, erupções cutâneas, disfunção hepática e renal e, em casos graves, hemorragias internas e externas.
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Transmissão: Ocorre de pessoa para pessoa pelo contato direto com sangue, secreções, órgãos ou fluidos corporais (saliva, suor, fezes e vômito) de infectados ou de pessoas que foram a óbito pela doença. Também há risco elevado no manejo de superfícies e roupas de cama contaminadas.
Como os sintomas iniciais assemelham-se aos de patologias comuns na região — como malária, febre tifoide e dengue —, a confirmação diagnóstica depende exclusivamente de testes laboratoriais específicos.
Prevenção e recomendações de controle
A OMS destaca que o controle de surtos desta magnitude baseia-se no engajamento comunitário e em protocolos rígidos de biossegurança. O tratamento atual foca no suporte intensivo precoce, através de hidratação oral ou intravenosa e manejo dos sintomas.
Para populações em áreas afetadas ou viajantes, as autoridades recomendam:
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Evitar contato físico: Não tocar em pessoas com suspeita da doença ou em corpos de indivíduos falecidos sem a devida proteção profissional.
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Cuidados com animais: Não manipular ou consumir carne de animais silvestres encontrados mortos ou que apresentem comportamento anormal. Todos os produtos de origem animal devem ser rigorosamente cozidos.
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Higiene rigorosa: Lavar as mãos constantemente com água e sabão ou utilizar soluções alcoólicas.
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Monitoramento de contatos: Indivíduos expostos ao risco devem aceitar o rastreamento epidemiológico e monitorar a temperatura corporal por 21 dias. A OMS desaconselha restrições comerciais ou confinamentos gerais, focando as restrições apenas em indivíduos identificados como contatos diretos de casos confirmados.
Com informações da Agência Brasil.




