Historicamente reconhecido por seu timbre metálico e agudos extensos, classificado como ‘tenor spinto’, o sertanejo Zezé di Camargo – ex da dupla com o irmão Luciano – virou piada recentemente na internet justamente por conta da sua voz – e de suas falas no mínimo polêmicas.

Tudo aconteceu depois que, visivelmente embriagado, ele gravou um vídeo na madrugada de uma segunda-feira (15 de dezembro) criticando as herdeiras de Silvio Santos no SBT e ameaçando não fazer seu show de Natal anual na emissora porque o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes foram convidados para a festa de inauguração do SBT News.

Diante da fala infeliz, marcada por misoginia e intolerância, a crítica subiu o tom e não faltaram memes na internet, comparando sua voz à de Pato Donald, icônico personagem da Disney. Circulou nas redes sociais uma paródia, referida como “Pato Rouco da Direita”, em menção ao posicionamento de Zezé em favor de Jair Bolsonaro, que àquela altura encontrava-se preso numa cela da Polícia Federal em Brasília, condenado a 27 anos de reclusão pela trama golpista de janeiro de 2023.

Polêmicas e ironias à parte, o artista tem enfrentado desafios recorrentes devido a uma lesão nas cordas vocais em 2008.  Zezé rompeu um cisto congênito nas pregas vocais, o que causou uma aderência na mucosa vocal e comprometeu a vibração natural, afetando a potência. O cantor, de 62 anos, relata dificuldades em atingir tons agudos de sucessos antigos, resultando em falhas vocais.Zezé já afirmou que não se pode comparar sua performance atual com a de 20 ou 30 anos atrás, admitindo que gravou músicas em “tons insanos”.  

Internet resgatou vídeo de Zezé di Camargo, com o irmão Luciano, cantando ao lado de Lula (Fotos: Reprodução)

Recentemente, vídeos em redes sociais registraram falhas vocais, como em 2023 durante “Dois Corações e uma História”, e em 2024, quando ele assumiu ter exagerado na bebida antes de uma apresentação. Convidado a subir no palco em um show de Gusttavo Lima durante um rodeio,  Zezé não conseguiu acompanhar o colega e desafinou dos acordes. Horas depois, pediu desculpas aos fãs e alegou que estava bêbado. “Eu estava pra lá de Bagdá”, confessou em suas redes sociais.

Famosos relatam problemas com a voz

No cenário nacional, outros nomes também ajudam a ilustrar problemas frequentes com a voz, por motivos bem menos controversos. Anitta, Ludmilla, Simone Mendes, Thiaguinho e Pabllo Vittar já relataram episódios de rouquidão e inflamações ou a necessidade de repouso vocal ao longo da carreira, muitas vezes provocados por rotina intensa de shows, uso excessivo da voz e falta de descanso adequado.

Cantores internacionais, como Adele, Sam Smith, Justin Timberlake, já enfrentaram problemas vocais que impactaram diretamente suas carreiras. No caso de Adele, uma hemorragia nas cordas vocais levou à necessidade de cirurgia e afastamento dos palcos. Sam Smith também precisou interromper turnês para tratar lesões vocais, enquanto Justin Timberlake chegou a cancelar apresentações por conta de fadiga vocal.

Entre cirurgias, pausas forçadas e reabilitação, os episódios mostram que a voz, muitas vezes negligenciada, é um instrumento sensível e que exige atenção constante. Os casos reforçam que, mesmo com acompanhamento profissional, o cuidado diário é indispensável.

Celebrado em 16 de abril, o Dia Mundial da Voz ganha ainda mais relevância diante de histórias conhecidas do público. Situações como essas não são exclusivas de quem vive da voz, mas ajudam a evidenciar riscos que podem atingir qualquer pessoa. E ajudam a chamar atenção para hábitos e sinais que não devem ser ignorados, até mesmo entre quem não vive profissionalmente da potência de suas cordas vocais .

Infecções frequentes na garganta devem ser investigadas

Especialistas alertam que alterações vocais podem ter diferentes causas, desde hábitos inadequados até questões emocionais, inflamatórias e infecciosas. Em muitos casos, quadros persistentes na garganta, como infecções recorrentes ou sintomas ignorados, podem não apenas comprometer a voz, mas também sinalizar condições mais sérias que exigem investigação médica.

A médica Renata Mori chama atenção para o impacto das infecções frequentes na região da garganta, que muitas vezes são subestimadas ao longo do tempo. “As amigdalites de repetição não devem ser encaradas como eventos isolados. Na prática, o que observamos na maioria dos casos é um comprometimento da função imunológica local das amígdalas, um tecido que já não desempenha adequadamente seu papel de defesa.

Esse cenário pode estar associado a um ambiente inflamatório persistente e a fatores da via aérea superior, como respiração bucal, alergias e alterações da flora local, além de características imunológicas do próprio paciente que favorecem a recorrência.

A conduta deve ser individualizada, considerando a frequência e a gravidade dos episódios, a necessidade de antibióticos e o impacto clínico. A indicação cirúrgica, quando necessária, deve ser criteriosa, baseada em parâmetros bem estabelecidos e sempre levando em conta o paciente como um todo.”

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Casos mais graves acendem alerta para tumores de cabeça e pescoço

Dentro do contexto de atenção à garganta e à voz, outro ponto que merece destaque é a conscientização sobre doenças mais graves, como os tumores de cabeça e pescoço. Muitas vezes, os primeiros sinais são confundidos com problemas simples, o que pode atrasar o diagnóstico e comprometer o tratamento.

A cirurgiã de cabeça e pescoço Débora Vianna reforça que a persistência dos sintomas é um dos principais alertas que não devem ser ignorados. “Os tumores de cabeça e pescoço costumam dar sinais iniciais, mas eles são frequentemente negligenciados. Feridas que não cicatrizam, dor persistente na garganta, dificuldade para engolir e alterações na voz são sintomas que precisam ser investigados, principalmente se durarem mais de 15 dias.”

A rouquidão persistente, muitas vezes banalizada, é outro sintoma que exige atenção. “Rouquidão por mais de duas semanas deve ser investigada. Pode parecer algo simples, mas também pode ser um sinal de tumor na laringe. O diagnóstico precoce faz toda a diferença no prognóstico.”

Relação entre o vírus HPV e os tumores de garganta

A especialista também destaca que hábitos comuns do dia a dia podem aumentar significativamente os riscos ao longo do tempo. “O tabagismo e o consumo excessivo de álcool são os principais fatores de risco para o câncer de cabeça e pescoço. Quando esses hábitos estão combinados, o risco pode ser potencializado de forma significativa. A redução ou eliminação desses fatores é essencial na prevenção.”

Outro fator que tem ganhado atenção nos últimos anos é a relação entre o HPV e tumores de garganta, especialmente em pacientes mais jovens. “O HPV tem sido cada vez mais associado a tumores de garganta, especialmente em pacientes mais jovens. A vacinação é uma ferramenta importante de prevenção e deve ser incentivada, assim como práticas sexuais seguras.”

Além disso, o acompanhamento odontológico regular também pode ser um aliado importante na identificação precoce de alterações na cavidade oral. “O dentista tem um papel fundamental na detecção precoce desses tumores, principalmente os que acometem a cavidade oral. Consultas regulares permitem identificar alterações suspeitas antes que evoluam.”

Hábitos saudáveis fazem parte da prevenção

A médica também reforça que hábitos saudáveis fazem parte da prevenção e impactam diretamente a saúde vocal e geral. “Adotar hábitos saudáveis é uma forma importante de prevenção. Alimentação rica em frutas e verduras, prática de atividade física e evitar substâncias nocivas ajudam a reduzir o risco de desenvolvimento de tumores.”

Por fim, ela destaca que a informação ainda é a principal aliada na luta contra a doença. “Quando diagnosticado precocemente, o câncer de cabeça e pescoço tem maiores chances de tratamento e cura. Por isso, a conscientização é essencial. Não ignore sinais do seu corpo e procure avaliação médica sempre que algo fugir do habitual.”

A hidratação continua sendo um dos pilares para manter a voz saudável. Segundo a nutricionista Laita Balbio, o consumo adequado de água e uma alimentação equilibrada fazem diferença direta na qualidade vocal.

A hidratação adequada é fundamental para manter a mucosa das pregas vocais saudável. Além disso, uma alimentação equilibrada, rica em frutas e vegetais, contribui para o bom funcionamento do organismo e impacta diretamente na qualidade da voz”, orienta.

Outro ponto de atenção é o uso excessivo da voz. Falar alto, gritar ou não respeitar os limites do corpo pode causar lesões importantes. A otorrinolaringologista Renata Jorge explica que esse comportamento pode levar a problemas persistentes. “O uso excessivo da voz, sem preparo ou técnica adequada, pode levar ao desenvolvimento de lesões como nódulos e pólipos. É importante respeitar os limites do corpo”, afirma.

O descanso vocal também é essencial, principalmente para quem utiliza a voz de forma intensa no dia a dia. Pausas ao longo do dia ajudam na recuperação das estruturas da laringe. “O repouso vocal permite que as estruturas da laringe se recuperem. Sem esse cuidado, o esforço contínuo pode gerar fadiga e comprometer a qualidade da voz”, reforça a especialista.

Estresse e ansiedade também mudam o tom de voz

Além dos fatores físicos, aspectos emocionais também interferem diretamente na voz. Situações de estresse e ansiedade podem alterar a respiração e aumentar a tensão na região da garganta. “A ansiedade e o estresse deixam a respiração mais curta e aumentam a tensão na musculatura da garganta. Isso impacta diretamente a voz, que pode ficar presa, trêmula ou mais fraca”, explica a terapeuta Glaucia Santana.

A alimentação também merece atenção, especialmente em casos de refluxo gastroesofágico, uma das causas mais comuns de rouquidão crônica. A gastroenterologista Elaine Moreira alerta para os impactos da condição. “A doença do refluxo ocorre quando o conteúdo do estômago retorna e pode atingir a laringe, causando sintomas como rouquidão, pigarro e tosse seca. Sem tratamento, essa irritação pode comprometer a saúde vocal”, explica.

Os casos de artistas conhecidos ajudam a dar visibilidade ao tema, mas o alerta vale para todos. Cuidar da voz é também observar a saúde da garganta como um todo, reconhecer sinais persistentes e buscar avaliação médica precoce. Em muitos casos, essa atenção pode fazer toda a diferença não apenas para a qualidade da voz, mas para a saúde como um todo.

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