No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de pulmão é o terceiro mais frequente entre homens e o quinto mais comum entre as mulheres, com estimativas de 30.200 novos casos em 2022, sendo 17.760 entre homens e 12.440 em mulheres. De acordo com o Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM, em 2020 foram registradas 28.620 mortes por câncer de pulmão no Brasil.
O Dia Mundial do Pulmão, celebrado neste 25 de setembro, tem um motivo especial para comemoração graças à Oncologia de Precisão ,que tem no câncer de pulmão o exemplo mais efetivo de evidências consolidadas, que alteraram a história natural da doença. O conceito consiste em oferecer ao paciente uma abordagem terapêutica personalizada, baseada nas características moleculares do tumor.
Entre todos os tumores malignos, os resultados são mais evidentes em câncer de pulmão. Com o avanço da ciência proporcionado pela revolução genômica, não é suficiente hoje saber que um determinado paciente tem um tumor maligno diagnosticado no pulmão. É fundamental definir a classificação molecular da doença, ou seja, se este tumor é, por exemplo, um adenocarcinoma pulmonar com mutação no gene EGFR. Esta informação, é essencial para se oferecer ao paciente um acompanhamento individualizado e tratamento personalizado.
Além de classificar os subtipos de câncer de pulmão, atualmente também é possível definir os diferentes perfis moleculares e, com isso, saber se o paciente poderá se beneficiar de determinado medicamento especialmente desenhado para as características da doença. Porém, alerta o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), a chamada Oncologia de Precisão ainda é pouco acessível na Saúde Suplementar e no Sistema Único de Saúde (SUS).
Diagnóstico molecular no tratamento do câncer de pulmão
Em alusão ao “Agosto Branco” – mês de conscientização sobre câncer de pulmão -, o grupo alerta para a necessidade de ampliação do acesso dos pacientes à Oncologia de Precisão, em especial aos medicamentos especialmente desenhados para agir em mecanismo moleculares específicos. Na prática, o diagnóstico molecular consiste em se identificar mutações genéticas específicas presentes nas células cancerígenas, permitindo um tratamento personalizado e mais eficaz para os pacientes.
O GBOT, que lança a campanha “Perfil Molecular em Câncer de Pulmão”, reforça que instituições de saúde, governos e organizações da sociedade civil devem unir esforços para promover a capacitação de profissionais de saúde, aprimoramento da infraestrutura e conscientização da sociedade, garantindo que cada vez mais pacientes possam se beneficiar do diagnóstico molecular no tratamento do câncer de pulmão. Essa informação, aliada ao perfil clínico do paciente, grau de agressividade e extensão da doença, permitem a acurácia diagnóstica e o mais adequado planejamento terapêutico.
Com o diagnóstico molecular, podemos selecionar as terapias direcionadas e inovadoras, aumentando as chances de sucesso e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Essas terapias personalizadas aumentaram a sobrevida dos pacientes com câncer de pulmão na última década”, ressalta a oncologista clínica Clarissa Baldotto, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT).
Apesar deste conhecimento e dos benefícios em ganho de sobrevida e melhora de outros desfechos para os pacientes, o acesso a essa tecnologia ainda enfrenta desafios no Brasil, tanto na esfera pública quanto na privada. Questões relacionadas à infraestrutura laboratorial, disponibilidade de recursos, financiamento e capacitação profissional são alguns dos obstáculos que precisam ser superados para democratizar o acesso, em todo o país, a abordagem.
Há evidências de que menos da metade dos pacientes brasileiros com câncer de pulmão recebem o diagnóstico molecular adequado. E a utilização do medicamento adequado depende dos testes”, lamenta o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, vice-presidente do GBOT e titular do A.C.Camargo Cancer Center.
Novas drogas para tratar o câncer de pulmão
Um exemplo de terapia-alvo da Era da Oncologia de Precisão é o alectinibe, medicamento incluído somente em 2021 no Rol de procedimentos obrigatórios da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e que agora está em fase de consulta pública para recomendação na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (CONITEC).
É um tratamento de primeira linha para pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado e com mutação no gene ALK. Este medicamento inibe uma enzima produzida pela fusão dos genes ALK e EML4, que favorece a multiplicação das células tumorais no pulmão. Ao inibir essa enzima, o alectinibe dificulta o desenvolvimento e a sobrevivência das células cancerígenas, que deixam de progredir ou passam a regredir.
Antes do Brasil, mais de 80 países já haviam aprovado esta droga. Outro exemplo é o osimertinibe, uma molécula desenvolvida para atacar o câncer de pulmão de não pequenas células que apresenta, especificamente, uma mutação no gene EGFR, que recentemente mostrou benefício para pacientes que foram operados.
Testes moleculares
Na era da Oncologia de Precisão não basta saber que o paciente, ao ser diagnosticado com tumor maligno no pulmão, tem câncer de uma histologia específica neste órgão. É necessário saber a sua classificação molecular. Em linhas gerais, o painel de genes investigados em Oncologia de Precisão para câncer de pulmão inclui, atualmente, EGFR, KRAS, BRAF V600E, ALK, ROS1, RET, MET, HER2, NTRK1, NTRK2 e NTRK3.
Saber. por meio de um teste genético, se este tumor é, por exemplo, adenocarcinoma pulmonar com mutação no gene EGFR. é essencial para oferecer ao paciente um acompanhamento e tratamento personalizado, como explica o biólogo molecular Gabriel Macedo, consultor de Genômica no Hospital Moinhos de Vento e head de Oncologia de Precisão da Igenomix Brasil, laboratório de biogenética.
Dentre as neoplasias malignas, o câncer de pulmão foi o que mais evoluiu por conta da Oncologia de Precisão. Com a utilização da análise molecular do material genético tumoral é possível identificar quais genes estão envolvidos no desenvolvimento desse tipo de neoplasia”, explica.
Daí a importância do painel de genes contemplando a análise de, principalmente, EGFR, KRAS, BRAF, ALK, ROS1, RET, MET, NTRK1, NTRK2 e NTRK3, que permite identificar não apenas as vias moleculares envolvidas no desenvolvimento do câncer, mas também o potencial benefício do uso de uma terapia alvo ou tratamento convencional com quimioterapia. Isso garante a entrega do melhor tratamento, para cada grupo de pacientes.
Painel genético
Gabriel Macedo explica que a Oncologia de Precisão utiliza técnicas de diagnóstico molecular, principalmente por Next Generation Sequencing (NGS), para identificar as alterações genéticas somáticas (adquiridas), conhecidas como biomarcadores. As análises de biomarcadores podem ser realizadas no tecido tumoral ou, ainda, no DNA tumoral circulante. Esta última possibilidade é chamada como biópsia líquida.
Após a realização de uma biópsia para a confirmação do câncer, é possível solicitar o painel molecular, que é o exame responsável por revelar as alterações genéticas daquele tumor em particular. Importante destacar que para cada tipo de teste genético existe um rol de genes que compõem um painel genético específico. O oncologista precisa estar atento ao que está sendo coberto naquele exame”, aponta.
Por meio de testes genéticos é possível identificar subtipos moleculares da doença, predizer se o paciente poderá se beneficiar de determinado medicamento e até mesmo, por meio de monitoramento por biópsia líquida, observar uma possível resistência à terapia, o que demanda a mudança de protocolo. A data destaca a contribuição do conhecimento em genética para o sucesso terapêutico e potencial aumento da sobrevida de pacientes com neoplasias pulmonares.
Combinações de medicamentos e imunoterapia
Em meio ao avanço da ciência, a importância da prevenção
O contexto ideal, não só para o câncer de pulmão, como para qualquer outro, é o de diagnóstico em fase inicial da doença, quando – por meio de uma cirurgia minimamente invasiva – já é possível se retirar o tumor e, em alguns casos, não necessitar de radioterapia ou quimioterapia, por exemplo. Por sua vez, o câncer de pulmão é, em uma parcela importante dos casos, diagnosticado em fase avançada, o que faz esta doença, apesar dos avanços da ciência, a mais letal do mundo.
De acordo com o Globocan, levantamento do IARC, braço de pesquisa do câncer da OMS, são mais de 1,8 milhão de mortes anuais, muito superior ao segundo colocado em mortalidade (câncer colorretal, com 935 mil mortes/ano).
Portanto, os esforços da ciência para reduzir essa alta prevalência devem, alerta Gabriel Macedo, trilhar pelo caminho da prevenção e diagnóstico precoce. O que é um desafio, pois o câncer de pulmão pode ser agressivo e com grande capacidade de metastatizar.
A principal medida é não fumar, pois o tabagismo (incluindo narguilé e cigarro eletrônico) é a principal causa de câncer de pulmão no Brasil e no mundo. O primeiro fator de risco é o tabagismo ativo e o segundo é o passivo, quando a pessoa tem contato próximo com quem fuma.
Os principais sintomas são a tosse, dor torácica e escarro com ou sem sangue. “Como muitas vezes esses sintomas são do dia a dia do paciente tabagista, ele dá pouca importância e quando vai procurar o especialista, ele já está em um estágio muito avançado, em que o tratamento se torna mais difícil. Por isso, o rastreamento precoce é tão importante”, alerta Macedo.
Como estratégia de rastreamento, estudos apontam para a eficácia da tomografia computadorizada de baixa dose para pacientes com histórico de alta carga de tabagismo.
Dentre os tratamentos mais recentemente aprovados no Brasil, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), está o sotorasibe, uma molécula desenvolvida para atacar o câncer de pulmão não pequenas células que apresenta, especificamente, a mutação descrita como G12C do gene KRAS.
Quando o teste genético aponta que o paciente apresenta esta alteração genética, sabemos que, potencialmente, ele será bom respondedor deste medicamento. O mesmo conceito vale para as outras terapias-alvo”, explica Macedo.
Neste contexto de personalização do tratamento de pacientes com câncer de pulmão também são comuns as abordagens multimodais, com combinação de medicamentos. Porém, sempre com base na informação de pesquisas clínicas, que levam em conta o perfil molecular e genético dos tumores e seu potencial de metastatizar (a doença se espalhar para órgãos próximos ou distantes).
Neste cenário, despontam as imunoterapias, um tipo de tratamento contra o câncer que visa combater o avanço da doença pela ativação do próprio sistema imunológico do paciente. A ideia é que, com o uso de medicamentos, o organismo elimine a doença de forma mais eficiente e com menos toxicidade.
Macedo ressalva que a maior parte das aprovações de terapias alvo molecular e imunoterapias são no contexto de doença avançada ou presença de metástase. Diante deste cenário, a obtenção de material tecidual por biópsia pode ser desafiadora.
Nestas situações a biópsia líquida, uma efetiva alternativa para detecção de biomarcadores, pode ser utilizada para auxiliar na tomada de decisão do tratamento de primeira linha e, ainda, na identificação dos mecanismos de resistência e escolha da segunda linha de tratamento”, explica.
O QUE A CIÊNCIA SABE HOJE SOBRE CÂNCER DE PULMÃO
São duas as categorias principais de câncer de pulmão. A mais comum é a de não pequenas células (NSCLC), que responde por cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão. Há vários subtipos de câncer de pulmão de não pequenas células que levam em consideração o tipo de célula epitelial onde a doença começa, incluindo o adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas e carcinoma de grandes células.
A segunda, que responde pelos outros cerca de 15% dos cânceres de pulmão, são do tipo de células pequenas (SCLC), doença que geralmente cresce e se espalha rapidamente para outras partes do corpo, incluindo os gânglios linfáticos.
O estágio do câncer no momento do diagnóstico é um dos determinantes para a eficácia das opções de tratamento. De acordo com o levantamento SEERs, do National Cancer Institute, dos Estados Unidos, quando o câncer de pulmão está restrito ao órgão (estadio 1) as chances de cura (o paciente estar vivo cinco anos após o tratamento, supera os 60%). Em casos de metástase (estádio 4), as chances de cura são inferiores a 10%.
Durante o Agosto Branco, é fundamental disseminar informações sobre o câncer de pulmão e incentivar a população a adotar hábitos saudáveis, como evitar o tabagismo, buscar ambientes livres de fumaça e realizar exames de rotina. Além disso, é fundamental que os profissionais de saúde estejam atentos aos sinais e sintomas da doença para um diagnóstico precoce.
Com Assessorias





