O cenário da saúde pública brasileira alcançou um marco histórico nesta quinta-feira (26) com a inauguração da primeira da América Latina a produzir o Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) da escopolamina, base do medicamento Buscopan, um remédio popular para combater cólicas abdominais, intestinais, urinárias, biliares e menstruais. A inauguração do novo complexo industrial da Brainfarma, em Anápolis (GO), contou com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
A iniciativa é estratégica para a soberania sanitária do país. Até então, o Brasil dependia da importação desses insumos. Agora, o ciclo produtivo será 100% nacional: desde o cultivo da planta Duboisia no Paraná até o desenvolvimento final do fármaco em Goiás. Essa autonomia é vital, especialmente considerando que empresas estrangeiras sinalizaram a interrupção da produção do medicamento a partir de 2026, risco que agora é mitigado pela fabricação local.
Inédita no país, a iniciativa posiciona o Brasil, ao lado da Austrália, como um dos únicos do mundo a dominar o cultivo dessa planta essencial para a produção de diversos medicamentos. Como resultado, a nova fábrica contribuirá para garantir mais agilidade, estabilidade e autonomia na oferta de medicamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso da população a tratamentos essenciais.
Durante o evento, o presidente Lula reforçou que o foco em tecnologia local amplia a soberania do país na produção de medicamentos e insumos para a saúde. “Estou muito orgulhoso de ver o Brasil crescendo na indústria da saúde. Temos viajado para Índia, China e diversos outros países para aprender a produzir aqui e garantir a palavra mágica: soberania”, disse o presidente Lula.
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Estado deve garantir acesso a medicamentos, diz Lula
Durante visita ao complexo industrial da Brainfarma, Lula lembrou que o programa Farmácia Popular garante 41 remédios de uso contínuo e que há medicações disponibilizadas que chegam a custar R$ 1 milhão no mercado. Para o presidente, investimentos em políticas públicas que garantam acesso a medicamentos não representam gastos, e sim medida essencial para salvar vidas.
Eu sou do tempo em que as pessoas pobres iam ao médico, recebiam a receita e levavam para casa, colocando-a embaixo do travesseiro ou em um copo na prateleira, esperando o dinheiro chegar para comprar o remédio. Como o dinheiro não chegava, muitas vezes as pessoas morriam sem poder comprar o medicamento”, discursou o presidente.
Lula afirmou que o programa Farmácia Popular é uma política pública criada para garantir, à população, acesso a medicamentos essenciais, o que, na avaliação do presidente, representa um direito humanitário fundamental.
Se a pessoa não pode comprar, o Estado tem a obrigação de fazer com que ela esse direito. Muita gente acha que isso é gastar muito dinheiro. Eu, sinceramente, não vejo limite de investimento melhor do que colocar dinheiro para salvar a vida de homens, mulheres e crianças neste país”, disse.
Investimento e tecnologia a serviço da população
Parte das ações de incentivo ao fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS), a iniciativa marca a transição do Brasil de um papel de consumidor para uma posição estratégica na produção de IFA, substância principal usada na fabricação dos medicamentos, colocando o Brasil em um seleto grupo global no domínio desta cadeia biotecnológica.
Com investimento de R$ 250 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a nova unidade industrial ocupa uma área de 47 mil m² em Anápolis e tem capacidade para produzir até 30 toneladas por ano de Insumos Farmacêuticos Ativos (IFA). Já o cultivo da duboisia, com potencial de alcançar até 600 toneladas de folhas anuais, será realizado em Curitiba (PR), em unidade da Hypera Pharma, controladora da Brainfarma.
Esse é um momento histórico, porque simboliza a produção completa de uma medicação conhecida por todos: o Buscopan. Isso gera emprego, renda e tecnologia local. O Brasil passará a dominar toda a tecnologia de um produto de uso frequente nas unidades básicas de saúde, hospitais e no SUS. Para se ter ideia, atualmente, há empresas que produzem essa medicação com planos de interromper a produção a partir de 2026. Com a produção completa no Brasil, esse risco desaparece”, destacou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Atualmente, a Hypera Pharma participa de uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) voltada à produção da nusinersena, um dos principais tratamentos para a Atrofia Muscular Espinhal (AME), que pode ultrapassar R$ 1,5 milhão por paciente ao ano. O objetivo é reduzir custos e ampliar o acesso a tratamentos de alta complexidade no SUS, onde o tratamento para AME é ofertado gratuitamente.
Com o avanço da parceria, a expectativa é ampliar ainda mais o acesso e o atendimento para quem precisar. Essa PDP prevê a internalização da tecnologia e a produção nacional do medicamento, envolvendo também o Bio-Manguinhos, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), além do parceiro internacional Yangzhou Aurisco Pharmaceutical.
As Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo são uma estratégia do Ministério da Saúde voltada à ampliação da produção nacional de medicamentos, vacinas e outros insumos estratégicos para o SUS. Para isso, envolve instituições públicas e privadas.
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Com informações do Ministério da Saúde

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