Adenomiose: entenda a doença de Gretchen e Simone Mendes

Mulheres com adenomiose são submetidas à retirada do útero. Especialistas explicam como diminuir riscos de infertilidade ou aborto

Gretchen foi submetida à cirurgia de retirada de útero nessa terça-feira (20). Um dia depois, teve alta (Foto: Reprodução/Instagram)
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Com diagnóstico de adenomiose, a cantora Gretchen, de 64 anos, passou na manhã desta terça-feira (20/2) por uma histerectomia – cirurgia conhecida popularmente como retirada do útero. A artista explicou que o procedimento se fez necessário devido ao tamanho do útero, que atingiu 832 centímetros, equivalente a uma gravidez de 20 semanas.

A cantora foi operada no Blanc Hospital, em São Paulo, mesmo local onde fez a última de suas muitas cirurgias plásticas – uma ninfoplastia, procedimento sem corte para remodelar a área íntima por meio de radiofrequência, retraindo os pequenos e grandes lábios da vulva. O responsável pela histerectomia foi o médico obstetra e ginecologista Luis Ernesto Duarte Marques. Já na manhã do dia seguinte, a artista recebeu alta.

“Bom dia, gente. Notícias atualizadas da Maria Odete [nome verdadeiro da cantora]. Noite perfeita e sem dor. Eu já sabia disso, né? Para quem fez cinco cesáreas durante a vida inteira”, comentou nesta quarta (21) o marido da cantora, Esdras Souza, no Instagram. “A morena retirou o útero que tanto a machucava internamente com dores intensas. Ela será outra mulher mais bela e mais poderosa em saúde a partir de agora”, completou.

Em janeiro deste ano, a cantora sertaneja Simone Mendes, de 39 anos, também precisou retirar o útero por causa da adenomiose, diagnosticada após o nascimento de sua segunda filha, Zaya, agora com 2 anos. Ela contou que chegou a passar três meses com sangramento e dores. As duas artistas brasileiras entraram para as estatísticas da doença que afeta aproximadamente uma a cada dez mulheres no período reprodutivo, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

A adenomiose é uma condição médica caracterizada pela presença anormal de tecido glandular endometrial, o mesmo que reveste o interior do útero nas camadas musculares da parede uterina. A causa é desconhecida, mas a distensão das fibras musculares do útero, causada pela gravidez, pode predispor ao quadro nestas mulheres. De acordo com especialistas ouvidos pelo Portal ViDA & Ação, não há nenhuma forma de evitar a doença.

A cantora sertaneja Simone Mendes também teve que retirar o útero após diagnóstico de adenomiose (Foto: Divulgação)

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Sintomas da adenomiose se confundem com mioma uterino

A médica ginecologista Marise Samama explica que a adenomiose é uma doença benigna do útero na qual células do endométrio (tecido que reveste o útero por dentro e que descama na menstruação) se implantam na parte muscular do útero.

“Da mesma forma que na endometriose, as células do endométrio se implantam fora do útero, aqui elas se implantam no músculo uterino”, explica a presidente da AMCR (Associação Mulher, Ciência e Reprodução Humana do Brasil), uma entidade sem fins lucrativos.

Entre os sintomas comuns da doença estão dor no período menstrual (dismenorreia), cólica menstrual, fluxo menstrual aumentado, sangramento uterino anormal, aumento do fluxo menstrual, inchaço abdominal, dor pélvica crônica e alteração do hábito intestinal na menstruação devido à cólica. 

“Os sintomas são similares aos da mulher com endometriose e mioma uterino. Por isso, há uma associação frequente destas doenças com adenomiose“, compara Marise. “Mas se o sintoma for apenas cólica menstrual, poderá ser confundido com a simples cólica menstrual frequente na mulher e que não é causa de doença”, ressalta.

No entanto, a doença pode ainda não apresentar sintomas em um terço das pacientes, ou estar associada à presença de mioma uterino ou à endometriose, podendo estas se manifestarem conjuntamente. “Por isso, estima-se que muitas mulheres tenham adenomiose e nem saibam.  Mas, quando os sintomas aparecem, podem ser incrivelmente dolorosos”, afirma  Thiers Soares, ginecologista cirurgião especialista em endometriose, adenomiose e miomas.

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Maior risco de aborto durante a gestação

A doença também afeta a saúde sexual e reprodutiva feminina, já que pode causar dor ou desconforto durante a relação, dificuldade para engravidar, risco de aborto espontâneo e até mesmo infertilidade.

“Muitas mulheres diagnosticadas com a doença sentem insegurança em relação à sua capacidade de engravidar, e se essa condição pode prejudicar uma atual gestação”, alerta a especialista.

Segundo ela, durante a gestação, mulheres com adenomiose têm aumento de risco de aborto, placenta de inserção baixa, trabalho de parto prematuro e rotura prematura de membranas e pré-eclâmpsia. Uma em cada 8 mulheres pode ter dor na gestação. Pode também ser causa de infertilidade, dificultando a implantação do embrião no útero.

“Mulheres com adenomiose podem engravidar, mas devem estar cientes dos possíveis desafios durante a gestação, como maior risco de aborto devido às alterações no útero. Portanto, o acompanhamento médico e o cuidado pré-natal são essenciais para garantir a saúde da mãe e do feto”, afirma o médico.

Adenomiose pode causar dificuldades para engravidar

Segundo Dr Thiers, a adenomiose pode afetar negativamente a fertilidade das mulheres, tornando a concepção mais desafiadora, devido a possíveis alterações na estrutura do útero que dificultam a implantação do embrião. Isso pode ser causado pelo aumento da inflamação uterina, tornando o ambiente menos propício para a gravidez e aumentando o risco de complicações.

“Embora nem todas as mulheres com adenomiose enfrentam dificuldades para engravidar, é importante avaliar cada caso individualmente para desenvolver estratégias de tratamento e realizar o desejo de ser mãe quando necessário”, diz o médico.

Por isso, quando as mulheres enfrentam dificuldades para engravidar, os médicos muitas vezes recomendam exames de imagem, preferencialmente ressonância magnética, para avaliar a condição do útero, identificando a adenomiose e suas possíveis alterações.

Com base nessa avaliação detalhada, estratégias de tratamento personalizadas podem ser desenvolvidas para aumentar as chances de gravidez bem-sucedida. Antes de iniciar a jornada para conceber, algumas mulheres optam por tratar a adenomiose para aliviar sintomas e otimizar as condições uterinas.

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Tratamento vai além da histerectomia

O tratamento definitivo é a histerectomia (remoção do útero), mas o procedimento é reservado apenas para casos mais graves em mulheres não interessadas em engravidar ou fora da idade reprodutiva – como é o caso de Gretchen, quando os sintomas são debilitantes e outras opções foram consideradas e descartadas. Mas quando ainda há desejo de gestação, outros tratamentos têm sido pesquisados no intuito de preservação da fertilidade.

“Diversas opções de tratamento, incluindo terapias conservadoras e procedimentos minimamente invasivos podem aliviar sintomas e preservar o desejo de engravidar. Se um profissional sugerir que a gravidez não é possível, buscar uma segunda opinião é fundamental, especialmente se a histerectomia for recomendada”, afirma o especialista.

As opções terapêuticas incluem medicamentos para reduzir desconforto e sangramento menstrual excessivo. “O uso de contraceptivos hormonais orais ou de longa duração, como os implantes e sistemas intrauterinos, podem contribuir para ausência de menstruação e controle dos sintomas”, explica a Dra Marise.

Opções de cirurgias minimamente invasivas

Outras cirurgias minimamente invasivas, visam preservar a fertilidade e melhorar a qualidade de vida das pacientes. “Procedimentos como cirurgia robótica, laparoscopia, histeroscopia e radiofrequência oferecem alternativas menos invasivas, com recuperação mais rápida e menor impacto no sistema reprodutivo”, explica Dr Thiers.

Entre os tratamentos cirúrgicos está a adenomiometrectomia, um procedimento para ressecar o adenomioma ou adenomiose difusa, dependendo da gravidade da condição. “A ressecção deste tecido muscular espessado é uma cirurgia tecnicamente difícil e de resultados que variam bastante”, afirma a médica.

Segundo ela, novas tecnologias minimamente invasivas têm sido estudadas e aplicadas recentemente como ultrassom microfocado de alta intensidade e a radiofrequência guiada por ultrassom com resultados promissores.

“Hormônios que bloqueiam o eixo hormonal hipotálamo-hipófise-ovário, têm sido usados de forma temporária em tratamentos de infertilidade com sucesso para promover gestação”, explica a Dra Marise.

Com Assessorias

 

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