Dor, desespero, desolação. Em meio a lágrimas, moradores que estão em abrigos improvisados de Juiz de Fora (MG) receberam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva neste sábado (28). Muitos deles relataram a dor de perder entes queridos, casa e bens materiais conquistados com grande sacrifício durante a tragédia das chuvas que culminou em deslizamentos, soterramentos e inundações em várias cidades da região da Zona da Mata mineira.

28.02.2026 - Presidente da Republica Luiz Inacio Lula da Silva durante Visita a áreas afetadas pelas chuvas no município de Ubá Ubá-MG. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Presidente Lula visita áreas afetadas pelas chuvas no município de Ubá – Foto: Ricardo Stuckert / PR

Só em Juiz de Fora foram 65 mortos e ao menos 8,5 mil ficaram desabrigadas ou desalojadas. Outras sete pessoas morram em Ubá, onde os bombeiros ainda procuram mais uma vítima desaparecida. Após sobrevoar as cidades atingidas pelos fortes temporais, alagamentos e deslizamentos de terras, Lula reconheceu que vidas perdidas não podem ser recuperadas, mas garantiu que o governo atuará para restabelecer as condições de moradia e infraestrutura.

Aquilo quer for material, que a cidade teve prejuízo, educação, saúde, as casas, nós vamos garantir que as pessoas vão ter de volta”, disse o presidente. “A única coisa que, lamentavelmente, a gente não pode recuperar é a vida das pessoas que morreram. Mas podemos garantir que as pessoas tenham perspectiva e dignidade para recomeçar”, completou.

“Perdi quase 20 pessoas da família”, diz moradora

População local cobra mais apoio de autoridades depois de deslizamento
Juiz de Fora (MG), 27/02/2026 - A moradora do Jardim Burnier, Cláudia da Silva, fala sobre o luto de perder vários parentes no deslizamento de terra ocorrido durante a tempestade da segunda-feira, 22 de fevereiro, no bairro de Juiz de Fora. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
© Rovena Rosa/Agência Brasil

Em uma tenda improvisada no Parque Jardim Burnier, em Juiz de Fora, Cláudia da Silva oferece alimentos e bebidas para todos que passam pelo local. Ela está ali há cinco dias ajudando moradores, bombeiros, voluntários e profissionais da imprensa. É difícil acreditar que, por trás de todo esse empenho, ela viva um luto recente.

“Perdi quase 20 pessoas da minha família. Vários sobrinhos, cunhada, muita gente”, conta Cláudia, que tem 71 anos e sempre morou no bairro. Enquanto uma das sobrinhas continuava desaparecida nos escombros de uma casa ao lado, a cunhada era enterrada no cemitério da cidade.

Eu não tenho condições psicológicas de ir aos enterros. A gente vê isso em outras cidades e não acredita que vai acontecer com a gente. Eu prefiro ficar aqui mesmo, tentando contribuir com as pessoas. Só vou em casa para tomar banho e volto”, diz a moradora.

Ela reclama da falta de apoio das autoridades municipais e estaduais. Alimentos e bebidas oferecidos na tenda chegaram por meio de doações da própria população. “Tudo aqui é voluntário. Vemos os políticos subindo aqui, fazendo vídeos para as redes sociais, mas ainda não chegou nenhum centavo para as famílias”, diz Cláudia.

Com medo de deslizamento, pedreiro clama por moradia e prevenção

Juiz de Fora (MG), 27/02/2026 - Buscas pela última criança desaparecida no deslizamento de terra ocorrido durante tempestade da noite de segunda-feira, 22 de fevereiro, que vitimou 21 pessoas e deixou várias casas destruídas no bairro Jardim Burnier. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Deslizamento de terra deixou várias casas destruídas no bairro Jardim Burnier, em Juiz de Fora – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Em meio ao rastro de destruição na Zona da Mata, o relato do pedreiro Danilo Fartes, de 40 anos, sintetiza o medo e a indignação de milhares de moradores de Juiz de Fora. e descreve a angústia de famílias que, sem recursos para se mudar, convivem com a incerteza e a falta de sono a cada novo alerta de chuva.

Desde adolescente, Danilo seguiu os conselhos do pai para juntar dinheiro e montar a própria casa. Quem entra no imóvel onde vivem ele, a mulher e o filho percebe o cuidado para deixar os ambientes confortáveis. Hoje, o pedreiro tem medo de perder o que levou décadas para construir.

Minha esposa, minhas irmãs, meus vizinhos estão sem dormir. Todo mundo achando que vai cair de novo”, diz Danilo. “É o único lugar que a gente tem, foi conquistado com muito suor.  Não é uma opção apenas, é o lugar que a gente encontra. A gente consegue um pedaço de terra, faz os cômodos e traz a família. É a história de outros trabalhadores. É o que temos, não queremos morar na rua. Não temos recursos para sair e ir para outra região”, completa.

Em meio à perda material iminente, pedreiro critica a falta de ações preventivas estruturais na área. Segundo Danilo, as obras de contenção na comunidade são pontuais e só ocorrem após o registro de tragédias. “Eles (os governantes) esperam muitas das vezes acontecer para depois fazer. Não tem trabalho preventivo. As poucas obras de contenção que têm aqui perto ocorreram só depois que os problemas aconteceram e de forma pontual”, diz.

Enquanto aguarda soluções definitivas do poder público, ele atua na linha de frente da solidariedade, ajudando na remoção de escombros e na distribuição de alimentos nos pontos de acolhimento da cidade e na organização do trânsito que ficou caótico com tantos trechos interditados por deslizamentos e soterramentos.

Casas de graça fora de áreas de risco

Lula foca discurso em cidades mais resiliências aos extremos climáticos

Em resposta à cobrança de moradores como Danilo, Lula afirmou que todos os prejuízos causados pelas chuvas nos municípios da Zona da Mata de Minas Gerais serão recuperados. O discurso do governo federal foca na necessidade de tornar as cidades mais resilientes e adaptadas aos eventos climáticos extremos, que a ciência aponta como cada vez mais frequentes.

O presidente ressaltou que a prioridade é garantir moradia digna e segura às famílias atingidas, evitando a reconstrução em encostas ou áreas sujeitas a alagamentos. Ele determinou a criação de um escritório federal em Juiz de Fora para acelerar os trabalhos de reconstrução.

Assim como nas enchentes do Rio Grande do Sul, as novas residências, explicou o presidente, não serão reconstruídas em locais considerados de risco. Caso o município não disponha de terrenos adequados, o governo poderá adotar o modelo de “compra assistida”, já utilizado em outras tragédias climáticas no país.

Nesse formato, a família que perdeu o imóvel recebe um valor do governo federal e pode adquirir uma casa nova ou usada em qualquer cidade do estado. Todo o custo é arcado pela União. “Se a cidade não tiver terreno, vamos arrumar. Se não tiver, vamos adotar o sistema de compra assistida”, afirmou Lula.

Financiamentos a desabrigados em Minas seguirão modelo do RS

28/02/2026 - Juíz de Fora - MG - O presidente Luis Inácio Lula da Silva faz declaração à imprensa após reunião com prefeitos de cidades atingidas pelas chuvas. A coletiva teve a presença da prefeita de Juiz de Fora, Margarida Salomão, o ministro das Cidades, Jader Filho, o ministro da Saúde, Eliseu Padilha, dentre outros ministros. Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Encontro de Lula e ministros do governo com prefeitos da Zona da Mata mineira atingidos pelas chuvas (Fotos: Tânia Rego/Agência Brasil)

Após sobrevoar as cidades da região, Lula se reuniu com os prefeitos Margarida Salomão, de Juiz de Fora; José Damato, de Ubá; e Maurício dos Reis, de Matias Barbosa. As três cidades estão em situação de calamidade pública. Outros dois municípios – Divinésia e Senador Firmino – encontram-se em emergência.

As medidas anunciadas pelo presidente incluem assistência às prefeituras e linhas de crédito a pequenos empresários prejudicados pelos temporais para retomar atividades e recompor estoques e equipamentos perdidos.

Aprendemos com a tragédia no Rio Grande do Sul. Vamos ajudar os prefeitos a recuperar suas cidades, vamos ajudar os pequenos empresários a ter crédito para recuperar suas empresas e vamos dar casa para as pessoas que perderam suas casas”, declarou Lula.

Lula afirmou que a União dará apoio integral às cidades atingidas e pediu que as administrações municipais façam um levantamento detalhado dos prejuízos para viabilizar a liberação de recursos federais.

Os prefeitos têm que fazer um trabalho muito sério de levantamento de todos os prejuízos. O que for material, seja na saúde, na educação ou na infraestrutura, nós vamos garantir que seja recuperado”, disse durante visita em Ubá.

‘Não importa o partido do prefeito’

Ao final da agenda nas cidades mineiras, Lula reforçou que o apoio federal não dependerá de alinhamento político com prefeitos ou lideranças locais. “Não importa o partido do prefeito. Teve problema na cidade, tem projeto bem-feito e demanda verdadeira, nós vamos ajudar”, afirmou.  A prefeita Margarida Salomão, que também é do PT, disse que vai fazer o ‘dever de casa’.

Me atrevo a falar em nome de todos os prefeitos da região. Nós vamos fazer o dever de casa, levantar detalhadamente as necessidades e vamos colocá-las para o governo federal. E tenho absoluta certeza de que ninguém vai ficar para trás. Ninguém vai ficar sem casa, ninguém vai ficar desassistido”, declarou.

Lula visitou as cidades afetadas pelas enchentes acompanhado dos ministros Jader Filho (Cidades); Alexandre Padilha (Saúde); Waldez Góes (Integração e Desenvolvimento Regional); Wellington Dias (Desenvolvimento, Assistência Social, Família e Combate à Fome); do presidente da Caixa Econômica Federal, Carlos Antônio Vieira, e o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG).

A pedido de Lula, o evento encerrou-se com um minuto de silêncio em memória dos mortos no desastre climático.

28.02.2026 - Presidente da Republica Luiz Inacio Lula da Silva durante visita a áreas afetadas pelas chuvas no município de Juiz de Fora Juiz de Fora-MG. Foto: Ricardo Stuckert / PR

Áreas afetadas pelas chuvas no município de Juiz de Fora – Foto: Ricardo Stuckert/PR

Recursos e medidas emergenciais

O governo federal já anunciou a liberação de recursos para ações emergenciais e assistência humanitária nas cidades em situação de calamidade pública em Minas Gerais. Os valores serão destinados ao restabelecimento de serviços essenciais, apoio a abrigos e reconstrução de estruturas públicas.

Também foi confirmada a antecipação do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) para famílias atingidas. Moradores dos municípios afetados poderão solicitar o saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), limitado a R$ 6.220, conforme as regras para desastres naturais.

Até o momento, o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional aprovou recursos no valor de R$ 11,3 milhões para socorrer as três cidades mais afetadas. Esses recursos são voltados tanto para assistência humanitária como para restabelecimento dos serviços essenciais, por intermédio dos planos de trabalho apresentados pelas prefeituras.

Também em Ubá, o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, Wellington Dias, afirmou que as equipes do governo, incluindo as do Sistema Único de Assistência Social (Suas), estão em toda a região, atuando também nos municípios menores para atender a população e auxiliar na elaboração dos planos.

Não vai faltar apoio a qualquer município de Minas Gerais, é um tempo que não é curto, aqui tem uma fase, de apoio humanitário, de salvamento, de alimentação, de abrigo, mas agora nós já estamos trabalhando nos projetos também”, disse.

Com informações da Agência Brasil

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *