Com mais de 344 mil seguidores no Instagram, a médica infectologista e epidemiologista Luana Araújo – que ganhou notoriedade durante o auge da Covid-19 e se tornou uma das principais vozes no combate à desinformação sobre vacinas no Brasil – abraça a campanha nacional para alcançar a meta da Organização Mundial de Saúde (OMS) de eliminação do câncer de colo do útero até 2030.

O tema foi central no simpósio “Câncer de colo do útero – o Brasil pode ficar sem”, promovido pelo Instituto Lado a Lado pela Vida no Rio de Janeiro. Na última sexta-feira (5), Luana moderou magistralmente o painel que contou com as jornalistas especializadas em saúde Rosayne Macedo, editora do Portal VIDA E AÇÃO, e Tamara Freire, repórter da Agência Brasil.

O maior desafio: a conscientização e a relativização da saúde da mulher

Após o evento, em entrevista exclusiva ao VIDA E AÇÃO durante cerimônia da campanha, aos pés do Cristo Redentor, Luana Araújo detalhou o que considera o maior obstáculo para a erradicação da doença no país.

Eu acho que talvez o maior de todos [desafios] seja a conscientização do problema. É porque é um problema que atinge obviamente as mulheres, e a saúde da mulher é sempre um tema bastante relativizado dentro da nossa cultura, infelizmente”, afirmou.

A médica, que foi a primeira brasileira a receber a prestigiosa Bolsa Sommer na Universidade Johns Hopkins (EUA), vai além na crítica à negligência histórica com o tema: “Não só a saúde da mulher, como a própria presença da mulher como objeto da ciência propriamente dita”.

Ela enfatiza, no entanto, que a esperança é real: “A gente tem condições hoje em dia de salvar essas pessoas”, destaca, reforçando que o câncer de colo do útero é absolutamente evitável por meio da vacinação gratuita, disponível no SUS como rotina para meninas e meninos de 9 a 14 anos, entre outros públicos.

A gente tem uma ferramenta que é tão eficaz, tão efetiva quanto a vacina. O resto vai um pouco melhor”, resume Luana sobre a importância da imunização contra o HPV.

O papel dos homens e a responsabilidade de ser mãe de menino

Na conversa, Luana, que é mãe de Ben, de 2 anos e quatro meses, também enfatizou a importância do envolvimento masculino na luta contra o HPV, vírus que transmite o câncer de colo do útero, além dos cânceres de pênis, ânus e outros que afetam os homens.

Para a infectologista, o combate ao HPV é um espelho de um debate mais amplo sobre equidade de gênero: “Eu acho que o envolvimento dos homens na luta contra o HPV é o reflexo do envolvimento dos homens na luta pela saúde da mulher de uma forma geral, pela presença da mulher, a valorização da nossa existência”.

Ao falar sobre sua experiência como mãe, Luana compartilhou sua missão pessoal: “Eu tento ensinar o meu filho todos os dias a importância de se viver bem, de olhar para o outro, quem quer que seja essa outra pessoa, e fazer o que você pode para que a vida do outro seja mais leve, mais feliz e mais saudável“.

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Brasil é líder em desinformação sobre vacinas

Comunicadora em saúde, Luana usou recentemente suas redes sociais para reforçar que até o final de dezembro, adolescentes e jovens de 15 a 19 anos podem ser vacinados contra o HPV, numa estratégia inédita do Ministério da Saúde.

O panorama é preocupante: dos 6 milhões de doses previstas na ação, menos de 200 mil foram aplicadas. “Até dezembro, se sua filha ou filho de até 15 anos não se vacinou, leve-o até um posto para resgate (vacinal)!”, recomenda a médica.

Para enfatizar a eficácia e a segurança da vacina, ela cita o estudo publicado na revista The Lancet que mostra o efeito do programa nacional brasileiro na incidência de câncer cervical. Além disso, meninos e meninas de 9 a 14 anos podem ser vacinados em dose única, e pacientes HIV+, transplantados e com câncer podem se vacinar até 45 anos pelo SUS.

O Brasil é hoje o país com mais conteúdos antivacina na América Latina”, escreveu ela em seu Instagram. “Pode parecer surpreendente, mas a relação do brasileiro com a imunização mudou muito desde a pandemia — e o reflexo disso já aparece na volta de doenças antes controladas, como sarampo e coqueluche, que atingem principalmente as crianças”.

Desde a pandemia, ela vem usando as redes sociais para desmascarar fake news sobre vacinas, inclusive expondo médicos que adotam a mesma conduta negacionista.

Não dá para olhar esses números e ficar parado. Isso só é possível com informação correta, clara e baseada em evidências. Lembrem-se: vacinas salvam vidas. E não vale a pena dar engajamento para quem espalha desinformação”, sustenta.

Veja a entrevista completa de Luana Araújo ao Portal Vida e Ação: Luana Araújo fala sobre desafios para vencer a desinformação sobre HPV

 

A “terra plana” da saúde e a carreira de Luana Araújo

Em seu depoimento à CPI da Covid em 2021, Luana não hesitou em comparar o tratamento precoce para a doença – sugerido pelo ex-presidente Jair Bolsonaro com o polêmico uso de cloroquina – à ideia da terra plana. “Essa é uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. É como se estivéssemos discutindo de qual borda da terra plana vamos pular”, afirmou na ocasião.

A médica mineira é responsável pelas Iniciativas de Tecnologias Avançadas para Equidade em Saúde do Hospital Albert Einstein e diretora de Segurança e Inovação em Saúde da CAdsHI, uma organização sem fins lucrativos sediada nos EUA. Em setembro de 2025, Luana foi anunciada para o Conselho Consultivo da ImpulsoGov, fortalecendo o SUS com soluções inovadoras.

Comprometida em enfrentar os desafios dos sistemas de saúde em países de baixa e média renda, ela já desenvolveu projetos de saúde pública para organizações supranacionais em países como Cabo Verde, Guiné-Bissau, Brasil e Coreia do Sul. Ao humanizar a ciência e utilizar linguagem franca e aberta para traduzir protocolos, recomendações médicas e práticas de cuidado que vão ser parte do hoje e, sobretudo, do amanhã, Luana aproxima o conhecimento científico da realidade.

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