Abril Azul é o mês mundial de conscientização do autismo, uma iniciativa da ONU para aumentar a visibilidade do TEA (Transtorno do Espectro Autista) e defender os direitos das pessoas autistas. Além de promover a inclusão e o respeito, a data é uma oportunidade para desmistificar preconceitos, disseminar conhecimento científico e incentivar debates sobre a qualidade de vida no Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O TEA é considerado uma desordem do neurodesenvolvimento caracterizado por manifestações comportamentais acompanhadas de déficits na comunicação e interação social. A saúde bucal de crianças com TEA é um tema pouco abordado, mas que merece atenção. Por isso, o Abril Azul é uma excelente oportunidade para mostrarmos o que pode ser feito para melhorar a saúde bucal dessas pessoas.
Pessoas com TEA apresentam elevado índice de problemas bucais como cárie e doença periodontal. Muitas vezes estes problemas estão associados a uma dieta cariogênica (com alto consumo de alimentos e bebidas que podem contribuir para o desenvolvimento de cáries), má higienização bucal, hábitos parafuncionais (apertar ou ranger os dentes), questões sensoriais e utilização de medicamentos, por isso é muito importante uma abordagem odontológica precoce e preventiva.
Problemas como cáries, doença periodontal ou traumas orais podem intensificar o desconforto e dificultar a adesão a terapias médicas, nutricionais e ocupacionais. Nayara Nero, professora de Odontologia e coordenadora de Saúde do Centro Universitário Una Uberlândia, destaca que “essas condições comprometem a qualidade de vida do paciente, afetando alimentação, sono e até o comportamento”.
Entre os desafios enfrentados por crianças e adultos com TEA estão a sensibilidade sensorial, que dificulta o uso de escovas ou pastas, e a seletividade alimentar, que frequentemente inclui alimentos ricos em açúcar. “A sensibilidade ao toque, aos sabores e às texturas pode causar resistência ao cuidado odontológico, exigindo adaptações no ambiente e no atendimento”, explica a professora.
Uso de telas antes de dormir agrava bruxismo em pessoas autistas
De acordo com a dentista Monique Pimentel, que atende em Paracambi (RJ), por terem uma alta sensibilidade a estímulos sensoriais, o cuidado com dentes, língua e gengiva pode ser um desafio para os responsáveis e para a própria pessoa”, detalha. “Eles podem ter dificuldade para cuspir, manter a boca aberta e sentir a mão do adulto no próprio rosto”.
A Dra. Monique aponta que algumas dificuldades podem ser mais intensas nas pessoas com TEA. “Eles têm uma propensão a ter hiperatividade cerebral. Então um hábito como o de usar telas antes de dormir atrapalha o relaxamento. E se os últimos conteúdos que consumirem forem agitados, ou mesmo agressivos, como em jogos ou alguns desenhos animados mais violentos, a tendência é que fiquem com essa inquietação ainda mais aguçada nas primeiras quatro horas de sono e a consequência é bruxismo”, detalha.
Os cuidados são importantes pois algumas questões de saúde oral podem ter impacto maior nessa população. “Muitos deles têm seletividade alimentar, preferindo alimentos ricos em carboidratos, ou com bastante açúcar. Isso somado a outras características, como a tendência a supercrescimento das gengivas e hipoplasia de esmalte (esmalte poroso, que ‘esfarela’), mais a má higienização é um cenário que leva a acúmulo de resíduos, gerando cáries, gengivite e periodontite”, finaliza a Dra. Monique.
Além dessa questão, a especialista alerta para a dificuldade em fazer a higienização da boca no dia a dia. “Colocar algo na boca é algo muito íntimo e invasivo, então no caso dessas crianças, os pais podem enfrentar resistência à escova e ao fio dental. A saída é fazer com que eles entendam o que está acontecendo”.
Saúde bucal é aliada essencial no tratamento de pessoas com TEA
A saúde bucal desempenha um papel fundamental no sucesso dos tratamentos em pessoas com TEA. Cuidar da saúde bucal é um dos pilares para promover bem-estar e potencializar os resultados de outros tratamentos; Para melhorar a experiência, é essencial que os dentistas criem um ambiente acolhedor e adaptem as consultas às necessidades do paciente.
Técnicas de desensibilização, uso de materiais visuais para comunicação e ferramentas específicas, como escovas sensoriais ou pastas de sabor neutro, são altamente recomendadas. Nayara também sugere que os profissionais utilizem consultas curtas e progressivas para construir confiança.
A integração entre dentistas e outros profissionais de saúde, como terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos, também é essencial para atender às necessidades multidimensionais dos pacientes com TEA. Esse alinhamento promove uma abordagem mais eficaz, tanto na saúde bucal quanto no bem-estar geral.
A professora ressalta a relevância de programas especializados, como clínicas-escola e centros de atenção a pessoas com deficiência, que oferecem suporte odontológico adaptado às famílias. Esses serviços são aliados importantes para garantir o acesso ao cuidado adequado e contribuir para uma melhor qualidade de vida.
Cuidados especiais necessários com os dentes desses pacientes
No âmbito doméstico, a professora reforça a importância de estabelecer uma rotina de higiene bucal com horários fixos, demonstrações práticas e reforço positivo. A professora afirma que “a participação da família é crucial para criar um ambiente seguro e previsível, que incentive o cuidado diário com a saúde bucal”.
Com o apoio de familiares, profissionais capacitados e a conscientização da comunidade, é possível criar um ambiente mais acolhedor e inclusivo, garantindo qualidade de vida e bem-estar para todos.
O primeiro passo é conscientizar os responsáveis da importância da visita precoce ao dentista. O ambiente odontológico é desconhecido e possui muitos estímulos como luzes fluorescentes, ruídos agudos, materiais de diversas texturas, sabor e cheiro, que podem gerar ansiedade e uma reação avessa”, destaca a Mestre e Doutora em Patologia e Especialista em Estomatologia e Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, Bruna Lavinas.
O ideal é preparar o paciente em casa, com uso de lanternas durante a escovação e escova elétrica para ambientar ao motor da profilaxia. O atendimento odontológico domiciliar também é uma ótima alternativa, uma vez que, evitamos a mudança brusca de rotina, contribuindo por uma melhor aceitação pelo paciente.
A dentista Monique Pimentel lista dicas de como fazer isso:
1 – Explicar como cada instrumental vai ser utilizado.
2 – Deixá-los tocar, sentir a textura e a composição de cada um.
3 – O pai ou mãe também podem começar mostrando primeiro como eles mesmos escovam os próprios dentes e depois escovando os dos filhos.
4 – Usar escovas com cabeça pequena, cerdas macias e cabo longo, para ter mais acesso sem tocar tanto nas laterais e céu da boca.
5 – Deixar de lado cremes dentais com sabor; “pode parecer uma boa ideia para deixar o momento mais gostoso, mas a criança pode começar a ‘comer’ o produto, atrapalhando o processo”, segundo a dra. Monique.
Procedimentos similares são adotados pela Dra. Monique nas consultas. “Em primeiro lugar, não deixamos que a criança fique aguardando na sala de espera, para evitar ansiedade. Depois, deixamos alguns estímulos mais suaves, como a iluminação da sala de atendimento e a luz direcionada da cadeira.
E explicamos cada etapa, cada processo, dando ordens simples e diretas, como pedir primeiro para a criança sentar, depois para abrir a boca. Temos também um kit de instrumentos extra (tirando, claro, o que é cortante ou afiado), para que o paciente segure nas mãos e saiba exatamente como é enquanto usamos um deles em sua boca. Uma outra ação interessante que o profissional pode adotar é colocar o responsável na cadeira e fazer o atendimento primeiro nele, mostrando como tudo é feito e narrando cada etapa”.
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A higiene bucal é um desafio para toda mãe. Estou achando o projeto muito bacana e pretendo levar tudo isso para casa. Já passei pela avaliação e estou satisfeita com o atendimento”, disse ela, que é mãe de Levi Pereira.





