Dados divulgados recentemente pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que 1.492 mulheres foram assassinadas em 2024 apenas por serem mulheres. Em 70% dos casos, os autores foram seus companheiros ou ex-companheiros. Também já ultrapassamos, somente este ano, a marca de um milhão de denúncias de violência doméstica.
Mas esses números estão longe de mostrar o todo. Muitos feminicídios ainda não são corretamente tipificados como tal, e milhares de mulheres seguem sem denunciar seus agressores. O medo, a descrença na Justiça, o vínculo emocional com o agressor e, principalmente, a dificuldade de reconhecer as violências sutis — as chamadas microviolências — contribuem para esse silêncio.
A violência contra a mulher está enraizada em um modelo social que normaliza o controle e a dominação masculinas. É um sistema que ensina desde cedo que o homem tem autoridade e que a mulher deve se submeter”, afirma a psicóloga clínica Luanna Debs.
O cerne da questão, segundo especialistas, está no que se convencionou chamar de machismo estrutural — um sistema cultural que molda a maneira como homens e mulheres se relacionam e ocupam espaços sociais. “Às mulheres, é atribuída a função de cuidar, de servir, de se calar. E Aos homens, a permissão para dominar, corrigir e controlar para obter das mulheres essa servidão e cuidado. Essa lógica precisa ser quebrada com informação e educação”, reforça Luanna.
No entanto, ela acredita que “o machismo não começa com o tapa”. “Ele começa nas palavras, nas piadas, na tentativa de deslegitimar o que a mulher sente ou pensa.” Ainda segundo ela, não basta apenas denunciar os casos mais graves.
Precisamos nomear o que acontece antes disso. Quando uma mulher é controlada financeiramente, quando é desmoralizada, silenciada, manipulada, isso já é violência. E se não for interrompida, pode chegar ao feminicídio”, alerta Luanna Debs.
Para transformar essa realidade, especialistas defendem seis frentes principais:
– Conscientização contínua de homens e mulheres sobre as múltiplas formas de violência;
– Nomeação e combate às microviolências;
– Acolhimento e apoio psicológico às vítimas;
– Incentivo à denúncia;
– Cobrança de políticas públicas eficazes de prevenção e proteção;
– Promoção da autonomia das mulheres.
‘Um colapso de referências sobre o que é ser homem e como lidar com o desejo do outro’
Para a psicanalista Camila Camaratta, esses dados revelam mais do que uma epidemia de violência física. Eles apontam um colapso simbólico nas formas de lidar com o outro, com o desejo, com a perda e com os papéis de gênero.
Quando essa capacidade de elaboração falha, o sujeito age — age para destruir, calar, eliminar aquilo que não consegue elaborar. O feminicídio é justamente isso: uma passagem ao ato que denuncia uma falência profunda na possibilidade de lidar com o outro”, explica Camaratta.
Ela destaca que, além do feminicídio tipificado — que chegou a 1.450 casos em 2024, o maior número desde 2015 —, muitos homicídios de mulheres ainda não são corretamente classificados, o que pode ocultar a real dimensão do problema.
É mais que um dado criminal. É um fenômeno psíquico, histórico e cultural que expõe o desamparo do sujeito frente à perda de referências sobre o que é ser homem, o que é ser mulher e como coexistir com o desejo do outro”, afirma.
O feminino como ameaça
A pergunta que ecoa nos noticiários e assombra famílias de vítimas — “por que tantos homens ainda matam mulheres?” — ganha contornos ainda mais densos à luz da psicanálise. Segundo Camaratta, há uma profunda dificuldade simbólica em lidar com a autonomia feminina.
É como se o sujeito dissesse: ‘não suporto que o outro exista sem ser meu’. Quando falta a capacidade de elaboração da perda do ser amado, falta também a mediação. O impulso vira ação sem filtro, e o feminino vira ameaça concreta a ser eliminada.”
Essa lógica é reforçada por comunidades misóginas online, como os incels e grupos redpill, que disseminam a ideia de que a mulher deve obediência ao homem. Esses discursos ajudam a sustentar uma masculinidade frágil, que responde à frustração com agressividade.
Essa construção ideológica produz sujeitos vulneráveis à angústia do abandono, da frustração, do não saber lidar com o desejo do outro. Ao invés de elaborar o luto pelo desenlace, eles agem”, pontua a especialista.
O papel das instituições e dos vínculos primários
Camila Camaratta lembra que a civilização, segundo Freud, atua como freio das pulsões destrutivas. Mas quando instituições como família, escola e cultura falham em oferecer contornos simbólicos, essas pulsões escapam.
A destrutividade e o ódio não são uma falha de caráter. São parte do que nos constitui humanos. O que nos civiliza é a capacidade de simbolizar e conter esses impulsos. Sem isso, sobra o ato bruto.”
A teoria do pediatra e psicanalista Donald Winnicott também ajuda a compreender esse cenário. Quando o ambiente falha nos primeiros vínculos afetivos, o sujeito pode crescer sem recursos psíquicos para tolerar frustrações. Isso, segundo Camaratta, é uma bomba-relógio.
O feminicídio, então, surge como um gesto radical para reestabelecer um suposto controle que na verdade nunca existiu.”
A historiadora e psicanalista Élisabeth Roudinesco, em obras como A Família em Desordem, também relaciona essa violência ao vazio simbólico deixado pelo declínio do patriarcado. Sem novas formas de subjetivação, gerações de homens permanecem sem referências sólidas.
A ausência de novas narrativas para a masculinidade gera um vazio perigoso. Sem uma resignificação simbólica, o sujeito se defende da angústia com atos concretos — como o assassinato. O feminicídio é a encenação trágica de uma subjetividade em ruínas”, interpreta Camaratta.
Punição é essencial — mas não suficiente
Apesar de avanços como o veto do STF ao uso da “legítima defesa da honra”, o julgamento dos feminicídios ainda sofre influência de preconceitos de gênero. Muitos casos são levados a júri popular, onde estereótipos ainda pesam.
É uma bomba-relógio que estoura quando nenhuma instância simbólica — nem social, nem afetiva, nem psíquica — funciona como barreira.”
Camila reforça que a mudança não depende apenas da legislação, mas da cultura.
Precisamos criar espaços de escuta, de elaboração e ressignificação simbólica de novos sentidos. A psicanálise nos ensina que o sintoma carrega uma mensagem. Escutá-lo é o primeiro passo para mudar.”
Mesmo que os números oscilem, o impacto emocional permanece. “O número pode cair, mas o trauma continua atravessando gerações”, conclui a psicanalista.
Combate à violência contra a mulher precisa ultrapassar o calendário
Mais do que uma campanha, o Agosto Lilás escancara a urgência de combater o machismo estrutural e garantir a autonomia das mulheres
O mês de agosto carrega um símbolo poderoso: o laço lilás. Ele representa a luta contra a violência doméstica e familiar, em uma campanha nacional que busca dar visibilidade a uma realidade alarmante e, muitas vezes, silenciada. O chamado Agosto Lilás ganha fôlego a cada ano, mas os números continuam a gritar por atenção.
De acordo com a psicóloga, o enfrentamento à violência precisa ultrapassar o simbolismo do mês de agosto. É necessário que o debate sobre violência contra a mulher esteja presente nas escolas, nas famílias, nas empresas, nas políticas públicas e no sistema de justiça — não apenas durante um mês do ano (o Agosto Lilás)
“Autonomia não é luxo, é sobrevivência”, conclui Luanna Debs. “Sem acesso à informação, a violência é naturalizada. Sem autonomia — seja emocional, psicológica, financeira ou social —, muitas mulheres não conseguem sair de relações abusivas. É essa conscientização de homens e mulheres, junto com a construção da autonomia que salva vidas.”
O Agosto Lilás, portanto, não é apenas um alerta. É um pedido de urgência. É um apelo para que a luta das mulheres pela dignidade e pela vida não seja lembrada apenas quando a cor lilás ganha destaque ou quando uma mulher perde a vida física. É um chamado para que essa luta nunca mais saia de cena.
Com Assessorias




