Imagine uma impressora que, em vez de tinta ou plástico, utiliza células vivas e materiais biológicos para “desenhar” tecidos humanos muito semelhantes aos reais. Parece ficção científica, mas essa tecnologia acaba de ganhar um endereço fixo no Rio de Janeiro. O Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ) inaugurou nesta quinta-feira (18) o Biotech Hub, o primeiro polo voltado exclusivamente para a bioimpressão 3D e desenvolvimento de organoides do estado.

Instalado no campus da incubadora de startups da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão, o espaço vai conectar cientistas, indústrias e startups para mudar a forma como a ciência é feita no Brasil.  Além de equipamentos de última geração trazidos pela multinacional de ciência e tecnologia Merck,.

Mas o que isso muda para a saúde e para o cidadão comum? Na prática, o novo hub democratiza o acesso à tecnologia de ponta para cientistas locais e pequenas empresas que, sozinhos, não teriam recursos para importar esses equipamentos, acelerando descobertas que podem salvar vidas nos próximos anos.

O que é a bioimpressão 3D e os “mini-órgãos”?

Para entender o avanço, pense na bioimpressora como uma evolução da impressora 3D convencional. A diferença é que ela utiliza as chamadas biotintas (compostas por células e proteínas).

Com essa tecnologia, os cientistas conseguem criar os organoides — estruturas tridimensionais que funcionam como “mini-órgãos” em miniatura (como pedaços de fígado, pele ou tecido tumoral).

Entre os recursos disponíveis estão insertos e placas para cultivo celular 3D, suplementos para crescimento e manutenção de organoides e reagentes voltados à dissociação celular, desenvolvidos para apoiar pesquisas de alta complexidade e aumentar a eficiência na formação e manutenção de estruturas tridimensionais em laboratório.

Os impactos práticos na saúde e na ciência

A chegada desse hub de alta tecnologia traz três grandes revoluções para a medicina e para a sociedade:

Os impactos práticos na saúde e na ciência

A chegada desse hub de alta tecnologia traz grandes revoluções para a medicina e para a sociedade:

  • Remédios testados de forma mais rápida e segura: Antes de um medicamento chegar às farmácias, ele precisa ser testado exaustivamente. Com os tecidos humanos bioimpressos em laboratório, as respostas sobre a eficácia ou toxicidade de uma nova molécula vêm de forma muito mais rápida e eficiente.

  • Menos testes em animais: Por criar modelos biológicos tridimensionais muito mais próximos da realidade humana, a bioimpressão reduz drasticamente a dependência de testes em animais na ciência.

  • Tratamentos sob medida (Medicina de Precisão): No futuro, se um paciente tiver um tumor, os médicos poderão criar um organoide a partir das células desse próprio paciente para testar, no laboratório, qual quimioterápico funciona melhor para o caso dele, antes mesmo de aplicar a medicação no corpo. É o fim da tentativa e erro.

  • Avanço do conceito de Saúde Única (One Health): Embora o foco principal seja a medicina humana, a bioimpressão 3D caminha lado a lado com a visão integrada da saúde. A tecnologia também será aplicada na saúde animal e até no desenvolvimento de carne cultivada em laboratório (indústria de alimentos), como vimos aqui, demonstrando como a saúde humana, animal e ambiental estão interconectadas.

Por que o Rio de Janeiro vira protagonista?

A escolha da Coppe/UFRJ para sediar o Biotech Hub não é por acaso. O Rio de Janeiro consolida sua posição como um polo de inovação e pesquisa biomédica de ponta. A coordenação científica do espaço ficará a cargo da professora Leandra Baptista, da UFRJ, que também é sócia-fundadora técnica da startup Gcell Cultivo 3D.

O avanço da inovação biomédica depende não apenas do desenvolvimento de novas terapias, mas também da criação de ferramentas mais sofisticadas para tornar os processos de pesquisa mais rápidos e precisos”, explica a pesquisadora.

O Biotech Hub não funcionará como um laboratório aberto para operação direta dos usuários. O acesso aos equipamentos de ponta (como a Bioimpressora 3D, Luminex e CellASIC) será feito por meio da própria equipe técnica do hub, através de projetos, serviços especializados, treinamentos e programas de inovação. Segundo a coordenadora, esse modelo garante maior segurança operacional e oferece metodologias já consolidadas aos pesquisadores.

Muitas empresas em estágio inicial não possuem recursos para investir em equipamentos sofisticados ou equipes altamente especializadas. Ao disponibilizar uma infraestrutura compartilhada e suporte técnico qualificado, criamos condições para que essas organizações concentrem seus esforços na validação de suas tecnologias e de seus modelos de negócio”, explica a professora.

Rio de Janeiro como polo de inovação

A iniciativa é estratégica para fortalecer o ecossistema nacional de inovação, prevendo a formação de novas startups e a ampliação da transferência de conhecimento. Os pesquisadores cariocas terão suporte e mentoria internacional da HUB Organoids Holding B.V., uma empresa holandesa que é a maior referência global no setor.

A conexão entre pesquisadores, startups e especialistas internacionais é fundamental para acelerar o desenvolvimento da bioimpressão 3D no Brasil. Nosso objetivo é criar um ambiente colaborativo capaz de impulsionar novas soluções científicas e ampliar o acesso a tecnologias de ponta no ecossistema de inovação”, destaca Misael Silva, diretor de Inovação da Merck Life Science.

De acordo com Fabio Demetrio, diretor de Discovery Solutions Brasil e México da Merck Life Science, o objetivo principal é “criar um ambiente colaborativo capaz de impulsionar novas soluções científicas e ampliar o acesso a tecnologias de ponta no ecossistema de inovação”.

O lançamento do Biotech Hub reuniu representantes da UFRJ, Fiocruz, Faperj, Sebrae RJ e das secretarias estadual e municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Com informações da Coppe/UFRJ e da Merck

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