A obesidade atingiu patamares alarmantes nos últimos anos. Dados do sistema Vigitel revelam que 24,3% da população adulta brasileira vive com obesidade, um salto expressivo em relação aos 11,8% registrados em 2006. E o cenário global não é menos preocupante, o Atlas Mundial da Obesidade 2026 prevê que, até 2040, mais de 225 milhões de crianças em idade escolar viverão com obesidade no mundo.

Diante dessa crise de saúde pública, a medicina moderna entende que a obesidade não é uma falha pessoal ou falta de esforço. “A obesidade é uma doença crônica, multifatorial, inflamatória e metabolicamente complexa. Eu já vivi esse processo, emagreci mais de 20 quilos e para isso tentei de tudo”, diz a médica Camila Paes, que perdeu 27 quilos.

À frente do Programa de Emagrecimento da Casa Paes, ela explica que a obesidade “exige um cuidado focado no diagnóstico correto, longe de promessas mágicas”. A doença é categorizada em quatro perfis clínicos distintos e que compreender cada um deles é o primeiro passo para um tratamento eficaz:

1. Cérebro faminto (regulação do apetite) 

Neste perfil, o paciente precisa consumir um volume muito grande de calorias para se sentir satisfeito. O cérebro não processa o sinal de saciedade no tempo adequado, fazendo com que a pessoa faça refeições volumosas e demore a parar de comer. O tratamento ideal é a regulação do apetite, incluindo uma dieta rica em fibras e medicações específicas que atuam diretamente no sistema nervoso central para promover a saciedade mais rapidamente.

2. Intestino faminto (saciedade curta) 

Diferente do cérebro faminto, a pessoa com intestino faminto até se sente satisfeita após uma refeição normal, mas o estômago esvazia de forma acelerada. Como resultado, a fome volta muito rapidamente, geralmente entre 1 e 2 horas após comer. O tratamento ideal exige o prolongamento da saciedade, tendo como estratégia nutricional incluir dietas com menos carboidratos (low carb) e mais proteínas.

Na Casa Paes, o uso dos modernos hormônios intestinais é um grande aliado. “Hoje a gente tem abordagens extremamente modernas com medicações que atuam nos hormônios intestinais, como os agonistas do GLP-1 e do GIP, que vão ajudar a regular a fome e a saciedade de uma maneira fisiológica”, explica a dra. Camila, citando medicações como a wegovy, monjauro e retatrutida.

3. Obesidade emocional (alimentação hedônica)

Neste caso, o ato de comer não é motivado pela fome física, mas pelas emoções. O paciente busca na comida um “refúgio” e uma válvula de escape para lidar com tristeza, estresse e ansiedade. O tratamento requer um forte acompanhamento comportamental. O foco não é usar inibidores de apetite tradicionais, mas sim medicações que controlam o sistema de recompensa do cérebro.

Muitas pessoas comem por ansiedade, então é preciso a gente aprender algumas estratégias práticas para não ter esse gatilho do comer emocional, como pausas conscientes, técnicas de respiração e organização da nossa rotina“, orienta a dra Camila.

4. Metabolismo lento (combustão lenta)

Aqui, o corpo apresenta um gasto energético muito baixo e mesmo comendo pouco não consegue queimar as calorias correspondentes ao peso, altura, idade e gênero do paciente. Para o tratamento é necessário mais do que restrição calórica, este perfil exige um plano rigoroso de exercícios intensos (como HIIT e treinos de resistência) aliado a uma dieta estratégica (low carb com reforço proteico pós-treino).

A médica faz um alerta fundamental a pessoas com esse perfil: “Não adianta a gente perder peso sem saber se foi gordura ou músculo porque quem vai manter o nosso corpo forte, quem vai manter esse emagrecimento, é a musculatura”.

O fim do IMC e a necessidade de acolhimento

A dra. Camila também destaca que a forma de diagnosticar a doença mudou, abandonando o antigo Índice de Massa Corporal (IMC) em favor de uma análise real da composição corporal (gordura x músculo). Acima de tudo, a especialista reforça a urgência de combater o estigma.

Associar a obesidade à preguiça ou a desleixo é um erro gigantesco. Isso atrasa o diagnóstico, dificulta o tratamento e aumenta o sofrimento psicológico. Uma obesidade exige um cuidado médico e não um julgamento”, conclui a especialista.

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