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Madonna recoloca epidemia de Aids na pauta da saúde

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Muito já se falou sobre o megashow de Madonna no Rio de Janeiro – contra e a favor. Mas pouco foi dito sobre o grande significado da homenagem que a rainha do pop fez a ícones brasileiros que morreram de Aids – os cantores Cazuza e Renato Russo e o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, ativista dos direitos humanos e criador da Ação da Cidadania contra a Miséria, a Fome e pela Vida.

Madonna incluiu Cazuza, Renato Russo e outros brasileiros em homenagem a vítimas da Aids ( Foto: Reprodução/Redes sociais)

Fotos dos três ícones brasileiros apareceram durante a apresentação da música Live to Tell na Praia de Copacabana, no útimo dia 5 de maio, emocionando as mais de 1 milhão de pessoas presentes e milhares que assistiram pela TV ou pela internet. Também foram incluídas imagens de outras vítimas brasileiras famosas da doença, como a atriz Sandra Bréa, o ator Mauro Faccio (que interpretava Zacarias em ‘Os Trapalhões’), e o escritor Caio Fernando Abreu.

Os shows da Celebration Tour, que comemora os 40 anos de carreira da cantora, traz retratos em preto e branco de centenas de pessoas que morreram por conta da Aids ou por complicações causadas pela doença. Entre os destaques internacionais, estão artistas como Freddie Mercury, Keith Haring. Também ao longo da turnê, amigos pessoais da cantora vitimados pela doença foram lembrados. Ela também chorou durante a homenagem.

‘Olha Pra Mim’: pessoas que lutam contra o preconceito ao HIV

Desde os primórdios da epidemia de Aids, nos anos 80, Madonna tem tido um papel significativo na luta contra o preconceito em relação a pessoas que vivem com HIV. Mais do que honrar a memória dessas pessoas que morreram sob o estigma da ‘peste gay’, a cantora traz de volta o tema à pauta da saúde pública no Brasil.

Segundo dados do Relatório de Monitoramento Clínico do HIV de 2022, do Ministério da Saúde, aproximadamente 936 mil pessoas vivem com HIV no país atualmente, sendo que 88% estão diagnosticadas. Destas, 71% encontram-se em tratamento com antirretroviral e 63% estão com supressão viral. Mas muito além de números, quem são e como é a vida das pessoas que vivem com HIV?

São essas perguntas que uma edição especial do projeto Olha Pra Mim procura responder, que reúnem fotos de pessoas que têm alguma ligação com o tema. A proposta é combater o preconceito ao mostrar que o HIV não tem “cara” e não está diretamente ligado a uma orientação sexual, gênero, ou qualquer outro estereótipo que pode ser associado ao tema.

Muito mais do que isso, a campanha reforça que existe vida após o diagnóstico, e ela pode seguir cheia de sonhos e possibilidades. O projeto Olha Pra Mim começou em 2014 como uma iniciativa do fotógrafo Thiago Santos, com o propósito de evidenciar o olhar do outro e trazer um pensamento de humanização e de conexão social por meio da expressão do olhar.

“Meu objetivo era colocar todas as pessoas fotografadas no mesmo espectro, sem distinção de personalidade, cor, classe social, religião, gênero ou caráter, desde aquelas mais admiradas pela sociedade até as mais esquecidas e marginalizadas”, conta.

Segundo ele, a recente parceria com a GSK/ViiV Healthcare leva o projeto para uma nova esfera, já que as pessoas que vivem com HIV ainda são tão invisibilizadas. “A partir dos registros, eu convido o público a perceber que, apesar de muitas diferenças, todos nós somos iguais”, comenta ele.

8 pessoas que vivem com HIV ou apoiam quem vive

Posaram para as lentes do fotógrafo pessoas que vivem com HIV/Aids (PVHA), outras que têm algum vínculo próximo com PVHA ou que fazem parte de redes de apoio, além de especialistas da área da saúde. São elas:

Diego Moi– Profissional de saúde, da área de educação física, pai recente de uma menina. Vive com HIV desde 2019, heterossexual;

Gabriel Comicholi – Comunicador e criador de conteúdo digital, vive com HIV desde 2016;

Lázaro Silva– Homem negro, candomblecista e educador social nas áreas de relações étnico-raciais, HIV/Aids e povos de terreiros. Formado em gestão pública, tendo atuado com projetos na ONU (Unaids) e em ONGs em vários lugares do Brasil;

Lucian Ambrós – Psicanalista, criador do projeto ‘Posithividades’ e autor do livro ‘O Guia quase completo como viver com HIV’;

Rico Vasconcelos – É um dos médicos infectologistas mais conhecidos por trabalhar com ênfase na questão do HIV há duas décadas;

Thais Renovatto – Mãe, escritora, palestrante e autora do livro ‘5 anos Comigo’, é embaixadora do projeto Criança Aids, e vive com HIV há 7 anos. Ela vive um relacionamento heterossuxal sorodiferente;

Thiphany Lopes– Ativista da causa LGBTQIAP+, especialmente para questões ligadas à vivência trans. Atua através de centros de acolhimento na prevenção do HIV e outras ISTs.

Gabriella Durso– Médica infectologista há mais de 15 anos. Atua no SUS e em consultório particular para, além de fazer diagnóstico e tratar problemas de saúde, compartilhar conhecimento e combater mitos, preconceitos e estigmas sobre HIV;

Combate ao estigma social: ‘obrigado por confiar em mim’

A campanha busca reduzir o estigma e reforçar a importância da rede de apoio após o diagnóstico. “É um fardo difícil para carregar, mas você não precisa carregar ele sozinho”, conclui o comunicador Gabriel Comicholi.

“Para você conseguir falar sobre a sua sorologia, tem que trabalhar preconceitos seus para conseguir externalizar. E essa é a barreira mais difícil que existe na vida de quem vive com HIV”, afirma o psicanalista Lucian Ambrós. 

Para a infectologista Gabriella Durso, o ponto de vista médico, em tratamento e qualidade de vida, a gente está muito avançado. “Mas do ponto de vista psicológico e de preconceito, parece que não evoluiu muito. Quem vive com HIV continua tendo muita sombra, muita vergonha e dificuldade de conversar com as pessoas sobre disso”, comenta.

A importância das redes de apoio

As redes de apoio auxiliam o paciente a lidar com implicações negativas que podem surgir após o diagnóstico, como hostilidade, segregação, exclusão social e até mesmo autoexclusão. “Eu tive que mostrar para a minha família como é viver com o vírus HIV”, afirma o educador físico Diego Moi.

“Quando nós, militantes e ativistas, reforçamos a importância de sermos ombro e ouvido para que as pessoas consigam falar do seu diagnóstico, é para tentar ser diferente do que foi com a gente. A vida traz novos significados”, ressalta Lázaro Silva.

“Eu costumo dizer que as redes de apoio vão salvar muitas pessoas, sabe? Porque uma andorinha só, não faz verão. Mostrar pra essa pessoa que vive e convive com o HIV, pra ela não desistir. Pra não desistir porque o amor, as redes de apoio, salvam!”, finaliza a ativista Thiphany Lopes.

E o que você pode fazer para ajudar? Acolhimento é a palavra-chave. “Quando alguém conta para você que vive com o vírus HIV, a primeira coisa que você tem que responder é ‘obrigado por ter confiado em mim’ “, diz o médico infectologista Rico Vasconcelos.

Making-of – Além das fotografias, esta edição especial do projeto Olha Pra Mimtambém conta com um vídeo ‘making-of’, no qual os participantes se apresentam e contam um pouco mais de sua trajetória. Eles revelam histórias de superação e relatos que desafiam qualquer tipo de ideia preconcebida criada pela sociedade.

Um exemplo é a escritora Thais Renovatto, uma mulher heterossexual que vive com HIV e tem dois filhos que não possuem o vírus, mesmo tendo nascido após seu diagnóstico. O vídeo “making-of” pode ser assistido aqui.

Existe vida após o diagnóstico do HIV

Rodrigo Favoni, Head de Vacinas e HIV da GSK Brasil, explica que o objetivo da campanha é mostrar que existe vida após o diagnóstico do HIV. Com os medicamentos necessários, o paciente atinge o estado de indetectável = intransmissível (i=i).

“Isso quer dizer que pessoas que vivem com HIV que fazem uso da terapia antirretroviral de maneira correta, e possuem carga viral indetectável há pelo menos seis meses, não transmitem o vírus por vias sexuais. Por isso, a testagem e o tratamento precoce são essenciais para garantir a qualidade de vida”, ressalta.

Além disso, a rede de apoio, sejam familiares ou amigos, é fundamental para ter suporte social e emocional. Quem ainda não se sente confortável para compartilhar o diagnóstico com pessoas conhecidas também pode procurar grupos de aconselhamento e terapia para lidar com o impacto psicológico”, afirma.

Redução de 66% nas taxas anuais de novas infecções em 14 anos

Mas, afinal, a quantas anda a epidemia de Aids no Brasil e no mundo? Desde a pandemia de Covid-19, com tantas outras epidemias e surtos rondando o país, como a dengue, pouco espaço tem sido dedicado àquele que permanece como sendo a maior epidemia de todos os tempos.

Apesar dos avanços na prevenção e tratamento, que aumentam a sobrevida dos pacientes, ainda não há cura para a Aids. Portanto, a doença que já foi chamada, equivocada e preconceituosamente de ‘câncer gay’, continua figurando, infelizmente, como a epidemia que não acabou.

De acordo com relatório Prevenção do HIV: Da Crise à Oportunidade, lançado em março deste ano pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), o Brasil alcançou uma redução de pelo menos 66% em suas taxas anuais de novas infecções por HIV desde 2010.  A média global de redução de novas infecções por HIV nesse mesmo período é de 38%.

Outras 10 nações designadas como foco da Coalizão Global de Prevenção do HIV (GPC), também se destacaram positivamente no levantamento. A GPC é uma coalizão de 38 países que trabalham juntos para acelerar a diminuição das novas infecções por HIV. O objetivo é atingir a meta de que 95% das pessoas em risco de HIV tenham acesso a opções eficazes de métodos combinados de prevenção.

Brasil e as altas incidências do HIV em populações-chave

As populações-chave e as mulheres adolescentes e jovens continuam a enfrentar um alto risco de novas infecções por HIV.

A incidência persistente do HIV permanece alarmantemente elevada em comunidades onde as lacunas nos investimentos em prevenção do HIV persistem. Isto afeta especialmente as populações-chave em todas as regiões do mundo.

No Brasil, dados de 2022 mostram que, a cada semana, aproximadamente 37 mulheres jovens com idades entre 15 e 24 anos foram infectadas pelo HIV.

Além disso, há uma disparidade significativa entre os sexos nos resultados dos diagnósticos, com os homens apresentando uma trajetória mais favorável em comparação com as mulheres.

Essa disparidade persiste em todas as fases subsequentes do processo, desde o acesso ao diagnóstico até à vinculação e retenção nos serviços, o tratamento e a consequente supressão viral.

Países da Coalizão Global de Prevenção do HIV reduzem novas infecções por HIV, mas é preciso acelerar o progresso global.

Desafio é alcançar os grupos mais vulneráveis

Embora os países da GPC tenham alcançado avanços significativos na redução das novas infecções por HIV, ainda persistem desafios em escala global para alcançar as populações-chave mais vulneráveis, tais como homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e pessoas que usam drogas injetáveis.

A cada semana, mais de 11 mil novas infecções por HIV são registradas entre as populações-chave e suas parcerias sexuais em todo o mundo. Os dados revelam, também, que apenas uma parcela minoritária dessas populações acessou dois ou mais serviços de prevenção do HIV nos três meses anteriores.

Apenas 44% de profissionais do sexo, 28% de homens gays e outros homens que fazem sexo com homens e 37% das pessoas que usam drogas injetáveis conseguiram acessar esses serviços, de acordo com os valores médios relatados pelos países da GPC – quando a meta prevista é de 90%.

Maioria dos pacientes é de homens brancos gays

A maioria dos pacientes (82%) que usam profilaxia PrEP se adutodeclara branca. No Brasil, dados do Ministério da Saúde, referentes a 2023, revelam o perfil das pessoas que majoritariamente utilizam a PrEP:

  • Alta escolaridade: Em média, 12 ou mais anos de estudos;
  • Predominantemente brancas: 56% das dispensações;
  • Faixa etária entre 30 e 39 anos: representando 42% das dispensações;
  • Gays e HSH (homens que fazem sexo com homens): esse grupo corresponde a 82% das dispensações.
Países da Coalizão Global de Prevenção do HIV reduzem novas infecções por HIV, mas é preciso acelerar o progresso global

Falta de financiamento + leis punitivas = prevenção comprometida

A eficácia da prevenção do HIV tem sido severamente comprometida pela escassez de financiamento em programas de prevenção, bem como pela persistência de leis punitivas.

O estigma social, a violência, a discriminação e a exclusão social representam barreiras significativas ao acesso aos serviços de saúde e informações para as populações-chave, agravando o risco de infecção pelo HIV.

A reforma das leis é um catalizador fundamental para promover programas de prevenção eficazes. Para proteger a saúde de todas as pessoas é preciso proteger os direitos de cada pessoa.

Em alguns países mais afetados pela epidemia de HIV, os investimentos em programas de preservativos e circuncisão médica voluntária masculina, ambos comprovadamente eficazes na prevenção do HIV, diminuíram notavelmente.

Além disso, opções inovadoras de prevenção do HIV, como a profilaxia pré-exposição (PrEP), continuam inacessíveis para a maioria das pessoas que mais precisam delas.

Coalizão Global de Prevenção do HIV

As reduções significativas nas novas infecções por HIV foram impulsionadas pela eficácia acumulada das estratégias de prevenção combinada do HIV, aliadas ao aumento do acesso ao tratamento antirretroviral.

De acordo com o Unaids, as taxas de infecção pelo HIV continuam a diminuir de forma mais acentuada nos países participantes da Coalizão Global de Prevenção do HIV (GPC) em comparação com o restante do mundo.

Os países da GPC que priorizaram a prevenção primária e o acesso ao tratamento, direcionando esforços para atender as populações mais vulneráveis, registraram as reduções mais significativas e consistentes nas novas infecções por HIV.

Entretanto, no âmbito global, o avanço na prevenção do HIV tem sido muito desigual, com a maioria dos países não seguindo trajetórias adequadas para alcançar as metas estabelecidas para 2025. Muitos países enfrentam sérias crises de prevenção, caracterizadas por um acesso limitado aos serviços e um alarmante aumento nas novas infecções por HIV.

“As conclusões deste relatório oferecem lições cruciais para ação”, disse Angeli Achrekar, diretora executiva adjunta de programas do Unaids. “Ele evidencia a necessidade crucial de liderança política contínua, investimentos em programas eficazes de prevenção do HIV e um ambiente político favorável para alcançar o objetivo de acabar com a AIDS como uma ameaça à saúde pública até 2030.”

Redução de infecção e métodos combinados de prevenção

As reduções significativas nas novas infecções por HIV foram impulsionadas pela eficácia acumulada das estratégias de prevenção combinada do HIV, aliadas ao aumento do acesso ao tratamento antirretroviral. Esse acesso ampliado ao tratamento também tem contribuído para a supressão viral em pessoas vivendo com HIV. Pessoas em tratamento e com carga viral suprimida não transmitem o HIV.

“É notável observar os avanços alcançados na resposta à AIDS nos últimos 20 anos. No entanto, devemos reconhecer que esse progresso não tem sido uniforme e ainda enfrenta desafios de sustentabilidade. Nunca devemos confundir progresso com garantia de sucesso”, disse Mitchell Warren, copresidente da GPC e diretor executivo da AVAC. “Nosso progresso é frágil e existe o risco de perdê-lo mais rapidamente do que conquistamos, se cedermos à complacência.”

Unaids: oportunidades de prevenção

Em 2024, estamos diante de oportunidades sem precedentes para a prevenção do HIV. Já está disponível uma variedade crescente de opções de prevenção, incluindo ferramentas existentes e novas tecnologias de prevenção de longa duração.

Além disso, exemplos de países que implementaram com sucesso a prevenção em grande escala estão se multiplicando, o que amplia as escolhas disponíveis para as comunidades em todo o mundo.

É imperativo que os programas de prevenção do HIV sejam abrangentes, eficientes e equitativos. As estratégias necessárias para o sucesso e a sustentabilidade já são conhecidas, comprovadas e amplamente aceitas: colaboração, base na ciência, combate às desigualdades, proteção dos direitos de todas as pessoas, liderança das comunidades e investimento adequado.

Qualquer retrocesso no financiamento ou na inclusão prejudicaria a todas as pessoas, ao mesmo tempo em que a solidariedade traz benefícios para toda a sociedade. Conjuntamente, comunidades, países e parcerias internacionais têm o poder de prevenir novas infecções por HIV e criar um futuro mais saudável e inclusivo.

Com Assessorias

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