Jurandir Mattoso, de 84 anos, descobriu somente com 70 anos que tinha diabetes mellitus tipo 2 durante um exame de sangue de rotina. Sem apresentar sintomas iniciais, como boa parte dos diabéticos, ele só percebeu a doença quando os níveis de glicose já estavam elevados. 

Após o diagnóstico, assim como os milhões de brasileiros que convivem com a doença, o aposentado precisou modificar sua rotina, passando a se alimentar a cada três horas para evitar quedas de glicose, reduzindo o consumo de açúcar e sódio e substituindo o açúcar por adoçante stevia, conforme recomendação nutricional.

Com essas adaptações, Jurandir tem conseguido viver de forma saudável e equilibrada, demonstrando que é possível ter qualidade de vida mesmo com o diabetes, seguindo uma rotina rígida para controlar a doença.

Utilizo insulina NpH três vezes ao dia para regular o nível de glicose no sangue. Ainda consumo alguns doces e itens com açúcar, como refrigerante, ‘cueca virada’ e bala, mas tento não exagerar e evitar o consumo diário”, comenta.

Avô com diabetes tipo 2, neto com diabetes tipo 1

Francisco descobriu a diabetes tipo 2 aos 50; já o neto Arthur foi diagnosticado aos 9 com diabetes tipo 1 (Foto: Acervo pessoal)

Já o aposentado Francisco Omar Froeder, de 67 anos, convive com a diabetes tipo 2 desde os 50. Como tratamento, ele evita a ingestão de açúcar e investe na atividade física.  Seu neto, Arthur de Miranda, de 10 anos, foi diagnosticado com diabetes tipo 1 há pouco mais de um ano e, além dos cuidados com a alimentação e exercícios, precisa medir a glicemia várias vezes ao dia e fazer uso da insulina.

Apesar do parentesco, os dois casos não estão relacionados, mas o controle é para sempre. Enquanto a diabetes tipo 2 é uma doença crônica em que ocorre uma resistência à ação da insulina nos órgãos periféricos, como músculo e tecido adiposo, a diabetes tipo 1 ocorre quando o sistema imunológico ataca as células que produzem a insulina. Assim, não há produção suficiente para fazer com que a glicose entre nas células, permanecendo no sangue e ocasionando aumento nas taxas glicêmicas.

Desde os 6 com tipo 1, ‘Biabética’ luta por bomba de insulina para todos

Este também é o caso de Beatriz Scher, de 30 anos. diagnosticada com diabetes tipo 1 aos seis anos de idade, ela aprendeu desde cedo a desafiar a doença. A falta de acesso a tratamentos gratuitos serviu de combustível para a carioca  criar uma comunidade virtual em prol da conscientização sobre a doença.

A “influencer da diabetes” hoje conta com mais de 50 mil seguidores em suas redes sociais, canal por onde compartilha desde conteúdos simples, sobre como usar a bombinha de insulina, até temas mais profundos, como a integração social dos diagnosticados com a condição.

Diabetes tipo 1 é o tipo mais raro, mas ambos devem ser tratados para sempre

O país está em quinto lugar no ranking mundial com mais pessoas com diabetes e em terceiro lugar quando se fala em diabetes tipo 1, de acordo com a Federação Internacional de Diabetes (IDF). Esse tipo é mais raro – do total de brasileiros com diabetes, aproximadamente 10% são do tipo 1 e 90% são do tipo 2.
A população brasileira possui aproximadamente 20 milhões de diabéticos, segundo o último Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Já de acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes, atualmente existem mais de 13 milhões de pessoas vivendo com a doença no Brasil, o que representa 6,9% da população. 
Os números chamam atenção, especialmente por ocasião do Dia Nacional do Diabetes, data criada em 26 de junho pelo Ministério da Saúde, em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS), com o intuito de disseminar informações sobre a prevenção e o controle da doença. Apesar de a patologia ser comum entre a população, a falta do diagnóstico ainda é uma realidade, apresentando diversos riscos à saúde.

A médica endocrinologista Andressa Miguel Leitão, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) no Paraná, explica que o diabetes é caracterizado pelo aumento da glicose no sangue, podendo ser classificado principalmente em dois tipos: tipo 1, causado pela ausência absoluta de insulina, e tipo 2, resultante da ineficiência da insulina associada a outros defeitos metabólicos.

A insulina é um hormônio produzido no pâncreas e é responsável por permitir a entrada da glicose dentro das células do nosso corpo para nos oferecer energia. Na ausência ou ineficiência dela, a glicose se acumula no sangue, não entrando nas células como deveria. Isso gera uma série de complicações agudas e crônicas, trazendo grande perigo ao paciente que não controla seus níveis de glicose com o tratamento”, explica.

Enquanto o diabetes tipo 1 costuma ocorrer na infância e na adolescência, quando não há uma produção suficiente de insulina, fazendo com que a glicose permaneça na corrente sanguínea, assim aumentando a taxa de glicemia no corpo. Ou seja, não está ligada a hábitos alimentares e ao estilo de vida como o tipo 2.
Esse costuma surgir já na fase adulta, principalmente entre pacientes que não seguem uma dieta equilibrada e que não praticam exercícios físicos frequentemente, fatores esses que levam à obesidade; um dos principais motivos para diabetes Tipo 2 ser diagnosticado”, explica o médico em saúde integrativa e funcional Silas Soares.
Além desses tipos, existem condições específicas como o diabetes gestacional, que ocorre durante a gravidez devido à dificuldade do corpo em produzir ou utilizar insulina eficientemente.
Este quadro pode afetar significativamente a saúde tanto da mãe quanto do bebê, destacando a importância de diagnóstico precoce e cuidado intensivo durante a gestação. Por outro lado, o pré-diabetes, uma condição que precede o diabetes tipo 2, revela níveis elevados de glicose que, se não controlados, aumentam o risco futuro de desenvolver diabetes”, esclarece dra Andressa.

Como saber se estou com diabetes? 

Assim como aconteceu com Jurandir, a maioria dos pacientes não apresenta sintomas na fase inicial da doença, o que pode atrasar o diagnóstico. Segundo Silas, esses sintomas podem ser considerados como claros, mas na rotina do paciente, a doença pode ser silenciosa, os sinais podem passar despercebidos principalmente por conta da vida corrida.

No meio de tantas tarefas do dia a dia, as pessoas deixam à saúde de lado, como também não enxerguem os problemas em relação ao organismo. Muitas vezes a diabetes pode ser desenvolvida por conta dessa rotina, já que pacientes costumam se alimentar mal, com alimentos ultraprocessados, com alto teor de gordura e açúcar, justamente por serem mais práticos”, afirma o profissional.

Quando sintomáticos, os pacientes apresentam muita urina, inclusive acordando muito à noite para urinar, muita sede, maior apetite, cansaço e dores no corpo.   O diagnóstico do diabetes é feito através da história clínica do paciente e de exames laboratoriais.

Para apresentar sintomas mais evidentes, a glicose no sangue do paciente deve passar de 180 mg/dl. No entanto, valores iguais ou acima de 126 mg/dl em jejum já indicam o diabetes.

Em pessoas com fatores de risco, é recomendado realizar rastreamento mesmo na fase assintomática. A genética desempenha um papel significativo no risco de desenvolver diabetes, com o tipo 2 tendo uma forte predisposição genética e o tipo 1 sendo geralmente uma condição autoimune não relacionada à história familiar.

Diferenças entre diabetes tipo 1 e tipo 2

A endocrinologista Luiza Esteves, do Hospital São Marcelino Champagnat, explica que a diabetes tipo 2 tem fator genético diferente da 1.

“A tipo 2 é mais comum e acomete adultos e idosos, porque está ligada ao estilo de vida, como ingestão de muito açúcar e a falta de atividade física. Já a tipo 1 aparece na infância ou adolescência, é autoimune. Nesse caso, há fabricação de anticorpos contra o pâncreas, com isso ele diminui seu funcionamento e, consequentemente, a produção de insulina”, explica a médica.

Outra diferença apontada pelos especialistas, é que a diabetes tipo 2 é silenciosa e seu tratamento é mais fácil. Já a tipo 1 costuma ser percebida pela sede excessiva, vontade constante de urinar e perda de peso. Ocorrem também constantes episódios de náuseas e vômitos, fraqueza, fadiga e mudanças de humor.

Já no diabetes tipo 2, os sintomas também incluem fome frequente, sede constante, formigamento nos pés e mãos, vontade de urinar diversas vezes, infecções frequentes na bexiga, rins e pele, feridas que demoram para cicatrizar e visão embaçada.

No tipo 2, muitos pacientes podem apresentar um comprometimento na sua visão, podem passar a ter uma grande fadiga e cansaço, mesmo que não tenha feito atividades de muito esforço. Além de ter desajustes metabólicos frequentes, que levam à perda de cabelo até o refluxo e a distensão abdominal”, explica Dr Silas.

Mudança de estilo de vida, com dieta saudável e exercicios

Segundo Dra Andressa, a diabetes tipo 2 está fortemente associado à obesidade e ao sedentarismo, portanto, o estilo de vida é um fator muito importante no seu desenvolvimento. A diabetes requer cuidados contínuos e um tratamento adequado, que envolve cuidados contínuos na alimentação, prática regular de exercícios e uso de medicamentos orais e/ou injetáveis.
Assim, a melhor forma de prevenir a patologia fica por conta da mudança do estilo de vida, através de dieta saudável, com redução do consumo de açúcar, carboidratos refinados e produtos industrializados, como refrigerantes e sucos de caixinha, e maior frequência de legumes e verduras entre as refeições.
Apesar do seu papel importante na prevenção do diabetes tipo 2, já que o tipo 1 ocorre por um fator genético, a mudança vai além da alimentação, adicionar exercícios físicos na rotina também é fundamental.

Para aqueles com histórico familiar de diabetes, a prevenção e o controle são fundamentais. Manter o peso ideal, evitar o tabagismo, controlar a pressão arterial, evitar medicamentos que possam prejudicar o pâncreas e permanecer fisicamente ativo são as principais recomendações que ajudam a reduzir o risco de desenvolver a doença e a controlar seus efeitos.

Solução e conforto para pacientes com diabetes 

Nos casos do diabetes tipo 2, o mais comum, além  das mudanças no estilo de vida, com auxilio da dieta equilibrada e da prática de atividades físicas, há a possibilidade de realizar um tratamento farmacológico, através do uso frequente de medicamentos que melhoram a sensibilidade das células à ação da insulina ou aumentam a sua produção pelo pâncreas.

O tratamento medicamentoso desempenha um papel fundamental no controle dessa condição. A indústria farmacêutica disponibiliza diversas substâncias para controle do diabetes, mas é importante que o paciente siga as orientações médicas no que se refere à administração dos medicamentos, com atenção especial aos horários corretos de uso”, destaca o especialista.

Para pacientes já diagnosticados com diabetes, é importante manter uma alimentação saudável, sem açúcar e com restrição de carboidratos. Além disso, utilizar os medicamentos prescritos de forma regular, praticar atividades físicas, monitorar os níveis de glicose no sangue e verificar diariamente os pés para identificar lesões precoces e consultar o médico regularmente são cuidados primordiais.

É importante seguir a recomendação médica. É comum o paciente achar que está bem e parar de fazer o uso do medicamento, o que acaba piorando o seu quadro clínico”, conta o farmacêutico da Prati-Donaduzzi, Danilo Pinheiro Stahelin.

Insulina é obrigatória nos casos de diabetes tipo 1

No caso de pacientes com diabetes tipo 2, a aplicação de insulina pode não ser sempre necessária. No entanto, para aqueles com diabetes tipo 1, a aplicação regular de insulina é fundamental. No Brasil, o Sistema Único de Saúde (SUS) fornece a chamada canetinha de insulina para aplicação. No entanto, vários pacientes têm recorrido à Justiça para ter direito à bomba de insulina.

Foi esta luta que levou Beatriz a se tornar ‘influencer de diabetes’. Seu boom na internet começou quando ela compartilhou sobre o tratamento gratuito que conseguiu pelo governo, via ação judicial, e que no particular custaria mais de R$ 20 mil.
Quando quis mudar a minha bombinha de insulina por uma mais moderna, comecei a pesquisar sobre o assunto na internet, mas todos os conteúdos que eu achava eram do exterior. Não encontrei nenhum blog ou rede social que abordasse o uso dos tratamentos e outros dados atrelados ao universo da diabetes no Brasil”, lembra.
Mas nem todos os pacientes com a mesma condição de Beatriz têm a mesma sorte. “Eu queria que outros com a mesma condição que a minha tivesse acesso a essa informação e, quando pesquisassem, pudessem encontrar um canal que fornecesse todo o passo a passo de como conseguir e usar esse tratamento, foi aí que surgiu o @biabética”, conta.

Com Assessorias

 

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