De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados com base no Censo 2022, o Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que representa aproximadamente 1,2% da população. Entre crianças de 5 a 9 anos, a prevalência é ainda maior, chegando a 2,6%, sendo 3,8% entre meninos nessa faixa etária. Esses números reforçam a necessidade de capacitação e sensibilidade dos profissionais de saúde bucal para lidar com o público neurodiverso.

Cuidar da saúde bucal de crianças neuroatípicas exige muito mais do que técnica clínica: requer empatia, paciência e preparo. A dentista Camila Ferraz, que tem 16 anos de experiência e é reconhecida por sua abordagem humanizada, enfatiza que o atendimento personalizado transforma a experiência tanto das crianças com necessidades especiais quanto de suas famílias, que muitas vezes chegam ao consultório apreensivas após experiências odontológicas desafiadoras.

 Cuidar do sorriso de uma criança neuroatípica não é apenas tratar dentes. É criar um ambiente acolhedor, reduzir a ansiedade e garantir que ela se sinta segura e confiante. Um atendimento humanizado faz toda a diferença na vida do paciente e de seus familiares”, afirma Camila, fundadora da clínica Divertida Dente.

Segundo Camila Ferraz, crianças autistas, por exemplo, podem apresentar hipersensibilidade a estímulos como sons, luzes e texturas, além de reagirem de maneira diferente a situações novas. Por isso, cada atendimento deve ser cuidadosamente planejado, respeitando o ritmo do paciente e adaptando a comunicação, o ambiente e as abordagens clínicas.

Camila explica que o acolhimento e a previsibilidade são pilares fundamentais para o sucesso do tratamento. Isso envolve desde ajustes sensoriais no consultório até o uso de uma linguagem simples, visual e positiva. “Muitas vezes, o primeiro passo não é examinar ou tratar, mas permitir que a criança se familiarize com o ambiente, com os sons e com o profissional. Esse tempo é essencial para construir confiança e reduzir a ansiedade”, explica.

dentista destaca a importância da formação adequada dos profissionais para lidar com o público neuroatípico, enfatizando que a técnica deve caminhar junto com a empatia. Segundo ela, compreender o comportamento e as particularidades sensoriais dessas crianças é essencial para promover um cuidado realmente humanizado.

“Mais do que dominar procedimentos, o dentista precisa se colocar no lugar da criança e da família. É a empatia que transforma o atendimento em uma experiência positiva e inclusiva”, finaliza a especialista.

Atendimento odontológico ainda é desafio para pessoas com autismo

Com mais de 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados com TEA, especialistas apontam necessidade de adaptação estrutural e comportamental nos consultórios

O atendimento odontológico a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ainda enfrenta barreiras que vão além da técnica clínica. Ambientes com luz intensa, ruídos constantes e estímulos imprevisíveis podem transformar uma consulta de rotina em uma experiência altamente estressante, dificultando o acesso e a continuidade do cuidado.

O desafio ganha relevância diante dos números. Dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, apontam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros foram diagnosticados com autismo, o equivalente a 1,2% da população. A demanda por atendimentos adaptados, portanto, já é uma realidade no país.

Na prática clínica, a dificuldade não está apenas no paciente, mas na forma como o atendimento é estruturado. Para o cirurgião-dentista Marcos Pereira Villa-Nova, o modelo tradicional de consultório ainda não contempla essa diversidade.

“O consultório tradicional não foi pensado para esse paciente. E quando não há adaptação, o que deveria ser um cuidado vira um evento de estresse. A mudança exige planejamento, ajuste de ambiente, tempo de consulta e, principalmente, compreensão de como cada paciente responde aos estímulos”, afirma.

A psicóloga Edinalva Aparecida Alves reforça que o atendimento precisa deixar de ser improvisado e passar a seguir estratégias estruturadas. Segundo ela, a adaptação deve ser baseada em princípios da Análise do Comportamento Aplicada (ABA), com foco em previsibilidade, ensino de habilidades e redução de estímulos aversivos.

“A adaptação do atendimento odontológico ao paciente com TEA deve ser compreendida como um processo de manejo comportamental sistemático, no qual a modificação de antecedentes, o ensino de repertórios funcionais e o uso consistente de reforçamento positivo são fundamentais”, explica.

Na rotina, estratégias como dessensibilização gradual ao ambiente, uso de histórias sociais, comunicação visual e treino prévio de habilidades, como abrir a boca sob comando, já mostram resultados positivos. A previsibilidade, segundo os especialistas, é um dos fatores mais importantes para reduzir a ansiedade e aumentar a colaboração do paciente.

Apesar dos avanços, ainda há lacunas importantes. A formação dos dentistas, em geral, não inclui treinamento específico em manejo comportamental. Isso se reflete em práticas pouco adaptadas, uso excessivo de contenção ou sedação e baixa individualização do atendimento.

A maior parte dos profissionais ainda atua sem protocolos estruturados. Falta conhecimento sobre reforçamento positivo, avaliação comportamental e adaptação sensorial. Isso aumenta comportamentos de fuga, resistência e até abandono do tratamento”, destaca Edinalva.

Outro ponto crítico é a falta de integração entre profissionais. “O atendimento, muitas vezes, ocorre de forma isolada, sem diálogo com psicólogos, fonoaudiólogos e a própria família, o que compromete a consistência das intervenções”, completa Marcos.

Para eles, a mudança passa por uma transformação de modelo. Em vez de um atendimento centrado apenas no procedimento, o foco deve estar no paciente, considerando seu comportamento, suas respostas sensoriais e seu tempo de adaptação.

Quando há planejamento, previsibilidade e respeito às individualidades, o que antes era um cenário de estresse pode se tornar uma experiência possível e, progressivamente, tolerável.

Dicas para dentistas atendimento aos pacientes com  TEA

Com o intuito de ressaltar a importância do atendimento odontológico adequado e de qualidade aos pacientes com TEA, o Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (CROSP) traz algumas informações e orientações relevantes, principalmente para os profissionais que desejam atuar nessa especialidade.

O atendimento odontológico direcionado ao paciente com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) deve levar em consideração os diferentes níveis que o caracterizam. A cirurgiã-dentista mestre em Ciências da Saúde, especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais e membro da respectiva Câmara Técnica do CROSP, Adriana Zink, explica que, dentro dos critérios diagnósticos do DSM-5 para o TEA, estão presentes os níveis de suporte ou as necessidades de suporte para as atividades de vida diária, sendo divididos em 3 níveis diferentes (nível 1, 2 e 3).

No nível 1 de suporte, em geral, estão as pessoas que lidam com dificuldades para manter e seguir normas sociais, apresentam comportamentos inflexíveis e dificuldade de interação social desde a infância. Podem ser mais difíceis de serem diagnosticados pelo masking, estratégia adotada por muitas pessoas com TEA desde a infância para evitarem bullying, sofrimento psicológico e estresse.

O nível 2 de suporte, por sua vez, compreende aqueles que apresentam comportamento social atípico, rigidez cognitiva, dificuldades de lidar com mudanças e hiperfoco (interesse intenso por determinados objetos, pessoas ou temas). Nesse nível do espectro, o autista demonstra déficits marcantes na conversação, com respostas reduzidas ou consideradas atípicas. As dificuldades de linguagem são aparentes, mesmo quando a pessoa tem algum suporte e a sua iniciativa para interagir com os outros é limitada.

No nível 3 de suporte estão os casos nos quais os indivíduos têm mais dificuldades no seu cotidiano e déficit severo de comunicação, com uma resposta mínima a interações com outras pessoas e a iniciativa própria de conversar muito limitada. Também podem adotar comportamentos repetitivos, como bater o corpo contra uma superfície ou girar, e apresentar grande estresse ao serem solicitados a mudar de tarefa.

Conhecer para tratar 

Segundo a Dra. Adriana, os três níveis do TEA necessitam de terapias adequadas e específicas. Ela explica que o plano de tratamento será de acordo com a necessidade individual e que, durante o mesmo, poderão ser utilizadas (caso necessário), todas as técnicas de manejo de comportamento, estabilizações físicas/mecânicas, sedações ou atendimento em ambiente hospitalar sob anestesia geral. “O modelo de atendimento não está diretamente relacionado ao nível de suporte do paciente: podemos ter duas pessoas com nível 1 de suporte e cada uma com uma necessidade de atendimento diferente. Cada paciente tem seu plano de tratamento individualizado, de acordo com sua necessidade”. 

A cirurgiã-dentista esclarece, ainda, que um paciente com TEA pode ser atendido por um profissional não especialista em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais, mas o ideal é que este profissional conheça as particularidades do autismo para proporcionar um melhor atendimento e respeitar suas necessidades, não ocasionando traumas e dificuldades posteriores de atendimento. “As questões sensoriais precisam ser individualizadas e adequadas para melhor atendimento”, completa ela.

Com relação às adequações para o atendimento, a Dra. Adriana informa que elas também dependerão da necessidade individual e que, após uma anamnese detalhada, o profissional saberá as limitações e quais adequações deverá proporcionar. Ela cita exemplos: “Para um paciente com alteração sensorial auditiva, uma opção seria o atendimento com uso de abafadores; para um paciente com alteração sensorial visual, poderíamos pensar em um óculos de sol – e, assim, individualizando sempre. Mas esse processo muitas vezes consiste em tentativas até acertar a melhor estratégia de acolhimento. Os terapeutas e familiares auxiliam nesse processo”.

Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais

Embora um paciente com TEA possa ser atendido por um profissional não especialista, atuar na área de OPNE pode ser muito gratificante. A especialização em Odontologia para Pacientes com Necessidades Especiais ocorre por meio de um curso de 1.000 horas e está dividida em parte teórica e clínica. Por meio dele, o especialista será capaz de reconhecer as diversas necessidades de várias condições entre as pessoas com deficiência e grupos sistemicamente comprometidos. “Adquirimos o conhecimento para o atendimento ambulatorial, domiciliar e hospitalar. Especificamente para o TEA temos cursos livres de 16 horas e atualizações de alguns meses”.

A especialista acrescenta que o profissional deverá procurar professores com referência no atendimento e buscar esse conhecimento clínico que, segundo ela,  é bem diferente quando se aprende com quem realmente atende pessoas com TEA. “Na teoria tudo funciona, mas dicas clínicas você só adquire com quem já passou pelo processo. Buscar cursos livres em outras áreas como psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, entre outros, também agrega conhecimento”.

Por fim, a Dra. Adriana enumera algumas orientações e conselhos para aqueles que desejam se especializar no atendimento de pacientes com TEA e/ou outras necessidades especiais:

1º –  Busque o conhecimento específico sobre o TEA.

2º –  A Odontologia é a mesma para todos.

3º – Saiba que não vamos conseguir atender todos apenas com técnicas de manejo comportamental, sendo necessários conhecimentos e treinamentos para realizar estabilização, sedação e atendimento hospitalar. Para cada técnica, faz-se necessária capacitação, principalmente no manejo de possíveis intercorrências.

4º – Ofereça as diversas possibilidades de atendimento, desde as técnicas de manejo até o atendimento hospitalar – mas, para isso, esteja capacitado para todas as abordagens. Junto à família, faça a melhor escolha dentro de cada caso, levando em conta também fatores financeiros, que muitas vezes pesam nas escolhas e limitam as indicações.

5º – Prepare-se para atender pacientes em todas as idades, nossos autistas adultos também precisam de cuidados!

6º – O SUS também conta com atendimento, e é mais uma oportunidade de trabalho para o cirurgião-dentista especialista em OPNE.

7º – Seja ético.

Quando o cuidado começa em casa

UFPR desenvolve material inédito sobre saúde bucal para famílias de pessoas com Síndrome do X Frágil

Em um consultório da Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma conversa sensível entre profissionais da saúde e uma família com um filho diagnosticado com Síndrome do X Frágil (SXF) foi o ponto de partida para um projeto que promete transformar a relação dessas famílias com a saúde bucal. Sensível aos desafios enfrentados no dia a dia — desde a escovação dificultada pela hipersensibilidade oral até o desconhecimento generalizado sobre a condição — um grupo de pesquisadores decidiu agir.

A partir dessa experiência e em parceria com o Instituto Buko Kaesemodel, nasceu um projeto ousado e necessário: o desenvolvimento de um material educativo pensado especialmente para pais e cuidadores de pessoas com SXF.
“A ideia surgiu de uma conversa entre minha coorientadora, professora Yasmine Pupo, e representantes do Instituto. O contato com essa família na clínica da UFPR nos ajudou a perceber o quanto ainda falta informação acessível e específica para quem cuida dessas pessoas”, explica a cirurgiã-dentista Rebeca Alves Lins de Albuquerque, idealizadora do projeto e doutoranda em Clínica Odontológica Integrada com ênfase em Pacientes com Necessidades Especiais e Odontopediatria.

A iniciativa também conta com a orientação do professor Fabian Calixto Fraiz, pesquisador na área de letramento em saúde bucal, cuja expertise contribui diretamente para a construção de estratégias comunicacionais mais eficazes e inclusivas.

A Síndrome do X Frágil, considerada a causa hereditária mais comum de deficiência intelectual, impõe desafios sensoriais, cognitivos e comportamentais que impactam diretamente os hábitos de autocuidado — e a saúde bucal não escapa disso.

Na infância, a hipersensibilidade tátil pode tornar a simples escovação uma tarefa hercúlea. Já na adolescência, a busca por independência pode gerar resistência. E na vida adulta, a manutenção desses cuidados depende fortemente do apoio contínuo de familiares e cuidadores. “Cada fase da vida exige uma abordagem diferente. É preciso adaptar o cuidado à realidade e à capacidade de cada pessoa com SXF. O respeito à individualidade é essencial”, afirma Rebeca.

Com uma proposta visual, acessível e baseada em evidências científicas, o material em construção pretende ir além das cartilhas tradicionais. Serão incluídas orientações práticas sobre higiene bucal, escolha de escovas e adaptações no ambiente, sempre com atenção especial às dificuldades sensoriais e aos comportamentos desafiadores. Técnicas de reforço positivo e o estabelecimento de rotinas também fazem parte do conteúdo. “Queremos que qualquer cuidador, mesmo sem formação na área da saúde, consiga entender e aplicar as orientações”, destaca Rebeca.

Escuta ativa: o ponto de partida

Antes de colocar qualquer conteúdo no papel, a equipe da UFPR decidiu ouvir quem mais entende da rotina de cuidados: as famílias. Por meio de um questionário online, que está sendo divulgado em redes sociais e serviços de saúde, os pesquisadores buscam entender como vivem essas pessoas, qual o nível de letramento em saúde bucal dos cuidadores e quais barreiras enfrentam para acessar o atendimento odontológico.

“Infelizmente, ainda temos poucos dados oficiais sobre a Síndrome do X Frágil no Brasil. Então, antes de informar, precisamos conhecer. Esse mapeamento é essencial para que o material seja realmente útil e representativo”, afirma.

Mas o impacto esperado vai além da distribuição de um material educativo. A proposta é transformar, de maneira duradoura, a forma como a saúde bucal é encarada no contexto da deficiência intelectual. “Queremos reduzir a ansiedade das famílias e fortalecê-las com conhecimento. Quando o cuidado deixa de ser um momento de estresse e passa a ser parte de uma rotina tranquila, a qualidade de vida melhora — não só no aspecto físico, mas também emocional”, diz Rebeca.

A especialista reforça ainda o papel fundamental dos dentistas no acolhimento e no diálogo com essas famílias. “Mesmo fora do ambiente acadêmico, os profissionais da odontologia podem fazer a diferença ao adaptar o atendimento, oferecer informações individualizadas e, principalmente, escutar com empatia”, pontua.

Parceiro na concepção e desenvolvimento do projeto, o Instituto Buko Kaesemodel tem atuado para garantir que as demandas da comunidade com SXF sejam ouvidas e respeitadas. Para Luz Maria Romero, gestora do Instituto, iniciativas como essa são fundamentais para enfrentar as barreiras cotidianas enfrentadas pelas famílias. “Muitos pais nos relatam o quanto é difícil encontrar profissionais preparados para atender seus filhos. A resistência dos pacientes, aliada ao desconhecimento por parte de alguns dentistas, acaba afastando essas famílias do cuidado contínuo. Projetos como este da UFPR são essenciais porque criam pontes, oferecem informação e, acima de tudo, acolhem essas realidades”, afirma Luz Maria.

O projeto que nasce dentro da universidade é, antes de tudo, um gesto de escuta e acolhimento. Em tempos em que tantas famílias ainda enfrentam o desconhecimento e o despreparo de parte dos serviços de saúde, iniciativas como essa constroem pontes entre o conhecimento científico e o cuidado afetivo — aquele que começa dentro de casa, na hora de escovar os dentes.

Com Assessorias

 

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