O tema da redação do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) deste ano, realizada no último domingo (5), traz para o debate públicoum tema de extrema relevância social: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”.

A temática destacou o quanto essa realidade envolve não apenas o cuidado com a casa, mas também com os idosos, crianças e membros da família com necessidades especiais que, muitas vezes, recaem sobre os ombros femininos.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2022, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)92% das brasileiras realizam atividades domésticas, reforçando a sobrecarga de trabalho que muitas enfrentam.

A invisibilidade doméstica é multifacetada, se manifesta quando uma pessoa prepara o almoço para sua família, geralmente a mãe e, em seguida, limpa a cozinha sozinha, enquanto todos descansam ou vão embora. Pode se manifestar também quando uma esposa organiza as finanças do lar, porém a contribuição dela para a estabilidade financeira é subestimada.

E está presente também quando uma filha cuida do lar dos pais idosos, enquanto o esforço dela é considerado apenas um dever. Mas acontece principalmente quando um profissional doméstico não tem seus direitos reconhecidos.

“As mulheres assumem frequentemente a responsabilidade primária pelo cuidado de seus dependentes, além de gerenciar as tarefas do lar. Essas atividades não remuneradas, embora essenciais, têm um impacto direto na carga de trabalho devido à ‘segunda jornada’ que as mulheres enfrentam, equilibrando responsabilidades do emprego, casa e família”, afirma Ana Paula Delchiaro, gerente do Centro Brasileiro de Cursos (Cebrac).

Invisibilidade da economia do cuidado começa cada vez mais cedo

A invisibilidade do trabalho não remunerado começa cada vez mais cedo na vida das mulheres. Meninas de 14 a 19 anos, em sua maioria negras e moradoras da região Norte do país, estão cada vez mais cedo sendo inseridas na dupla jornada de trabalho.

Além de terem que trabalhar fora de casa, são responsáveis pelos trabalhos domésticos, que não são remunerados, não são valorizados e vistos como obrigação para as mulheres, já que elas cresceram vendo suas mães, avós e figuras femininas realizando a mesma jornada. Os dados foram levantados pela pesquisa Por Ser Menina, lançada pela Plan International em 2021 e executada pela Tewá 225.

O estudo teve como principal foco a captura da percepção das meninas brasileiras entre 14 e 19 anos, em 10 cidades das 5 regiões do Brasil, com um total de 2.589 meninas respondentes. Deste total, 18,6% das meninas na faixa etária entre 14 e 19 estão trabalhando, sendo que Amazonas e Maranhão são os estados que apresentaram maiores percentuais de meninas que trabalham nas idades entre 14 e 15 anos, com 23,8% e 22,4% respectivamente.

De acordo com os dados, é possível observar o papel central da figura materna no ambiente doméstico e na renda geral da casa. Para as entrevistadas, a mãe é apontada pelas respondentes como principal responsável em todos os aspectos consultados: desde a responsabilidade pela família (63,1%), pelo cuidado no dia a dia (61%), pela contribuição financeira para o sustento da casa (43,8%) e pelas decisões sobre as questões mais relevantes na vida da menina (56,3%).

Esses modelos sociais existentes ainda reforçam desigualdades de gênero e atrapalham o pleno desenvolvimento das meninas. Dentro de casa, elas ainda realizam o dobro de trabalhos domésticos que os meninos (67,2% das meninas contra 31,9% dos meninos), o que valida a tese de que as meninas são precocemente responsabilizadas pelo cuidado com o lar e com as pessoas. Assim, elas têm menos tempo para os estudos, lazer e atividades de desenvolvimento para a vida.

Uma das entrevistadas de 19 anos, moradora de Manaus, resumiu bem a questão geracional da invisibilidade do trabalho doméstico: “Como meus pais são separados é meio isso: a gente pega o papel de segunda mãe. No meu caso fui mais privilegiada porque tinha nossa avó, mas à medida que ela vai envelhecendo eu vou pegando mais esse cargo. É engraçado porque sempre vai tendo uma mulher que vai aparecendo, uma vai substituindo a outra nesse cargo.”

A carga de trabalho doméstico piorou durante a pandemia: 54,6% das meninas disseram que as tarefas aumentaram. Isso se deu tanto pela maior dedicação ao ambiente doméstico quanto pela perda de parentes que assumiam essas funções junto a elas.

“O estudo reflete que ser menina no Brasil é carregar desde o nascimento o papel de gênero imposto a elas, pois ainda não protegemos, enquanto sociedade, esse público”, afirma Luciana Sonck, mestra em planejamento territorial, especialista em governança e sócia-fundadora e CEO da Tewá 225.

Segundo ela, o estudo permite enxergar que repetimos padrões de forma circular. “As mães que hoje cobram responsabilidades precoces das meninas, que julgam suas escolhas e batalham por seu sustento, ou ainda, que criam meninos com as mesmas estruturas machistas dos homens que as violentaram/oprimiram, foram ontem meninas que passaram pelas mesmas pressões e violências”.

Para quebrar esse ciclo, diz Luciana, é preciso pensar e agir em ações para promover a equidade de gênero dentro e fora de casa, permitindo que estas adolescentes, jovens e mulheres possam construir suas vidas com mais dignidade e menos sobrecarga.

‘Quando eu limpo a casa, ninguém percebe’

Para contribuir para a discussão sobre o tema nas redes sociais, uma marca de produtos de limpeza e autocuidado ecológicos viralizou no Instagram com um vídeo sobre a invisibilidade dos afazeres domésticos. Simples e objetivo, o conteúdo gerou identificação e comentários dos usuários.

Quando eu lavo a roupa, ninguém percebe. Quando eu faço comida, ninguém percebe. Quando eu limpo a casa, ninguém percebe. Mas, quando sento no sofá para mexer no celular, reclamam que fico no telefone o tempo todo”, diz o áudio do vídeo, com imagens de uma mulher organizando a casa.

O conteúdo, que já alcança mais de 7,5 milhões de visualizações, 275 mil curtidas e 148 mil compartilhamentos, gerou ainda outros 349 reels criados a partir do áudio. Entre os mais de 2.777 comentários, frases como esta chamam atenção por apontarem a ingratidão relacionada aos afazeres domésticos. “E quando não faz…aí percebem tbm… ohhh serviço ingrato é o de dona de casa”, diz um dos comentários mais curtidos do vídeo.

Na mesma linha dos comentários, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) sobre outras formas de trabalho aponta que as mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas em 2022. Mesmo assim, a sobrecarga ainda não é valorizada.

“Os afazeres domésticos são historicamente atribuídos às mulheres, e como uma marca responsável de produtos de impacto socioambiental, nascemos com a preocupação de tirar da invisibilidade quem assume essa função. Usamos nossa força de comunicação para que essas pessoas sejam percebidas e valorizadas, independente se ela é remunerada ou não”, conta Marcella Zambardino, sócia e diretora de impacto positivo da positiv.a.

Ela lembra que, durante a pandemia, quando faltava profissional para cuidar do lar, muitos passaram a dar mais valor aos afazeres domésticos e aos profissionais de limpeza.  Segundo Marcella, para combater a invisibilidade, é essencial valorizar e considerar esse trabalho como uma contribuição significativa para a família e sociedade.

“Ao trazer essa questão à luz, podemos começar fazendo a nossa parte em casa, valorizando e reconhecendo essas pessoas e esse serviço como essencial para o bem-estar de nossas famílias e sociedade como um todo”, finaliza Marcella.

  1. RJ pode ter atendimento psicológico a familiares de pessoas com deficiência

  2. Uma medida importante pode ajudar essas mulheres e também demais familiares e cuidadores de pessoas com deficiência no Estado do Rio de Janeiro. A Assembleia Legislativa (Alerj) aprovou nesta terça-feira (7/11), em segunda discussão, um projeto de lei que cria o Programa de Saúde Mental, Prevenção de Depressão e Suicídio, para atendimento psicológico on-line a esse público.

    O Projeto de Lei 616/23 estabelece que os benefícios do programa serão oferecidos aos pais e cuidadores cuja renda familiar mensal não ultrapasse o valor correspondente a três salários mínimos. O programa deverá ser implementado por meio de convênios, parceria com organizações não-governamentais, universidades e instituições de ensino públicas e privadas, órgãos governamentais e demais setores da sociedade civil, a fim de prevenir o adoecimento, o estresse, a depressão e o suicídio de pais e cuidadores diretos de PCDs.

    Os protocolos do programa deverão ser desenvolvidos por uma equipe multidisciplinar composta por psicólogos, terapeutas e assistentes sociais, sem prejuízo de outros profissionais que se fizerem necessários à sua confecção, implementação e desenvolvimento qualificado. O Poder Executivo também poderá ser autorizado a criar um aplicativo de celular gratuito e de fácil visualização, com recurso de tecnologia assistiva, para o oferecimento do atendimento psicológico por videoconferência. O agendamento do atendimento psicológico deverá ser realizado diretamente no aplicativo.

    “O objetivo é oferecer suporte psicológico aos pais e cuidadores de PCDs, visando uma intervenção precoce para acolher, reduzir os impactos de negação ou dificuldade de aceitação, fortalecer os laços familiares através de informação qualificada acerca da deficiência e diminuindo o estresse dos pais ou cuidadores diretos”, justifica a deputada Índia Armelau (PL), uma das autoras do projeto.

    Assinam o texto como coautores os deputados Fred Pacheco (PMN), Otoni de Paula Pai (MDB), Brazão (União), Vinicius Cozzolino (União), Carla Machado (PT), Dionísio Lins (PP) e Jari Oliveira (PSB). O projeto será encaminhado para o governador Cláudio Castro, que tem até 15 dias úteis para sancioná-lo ou vetá-lo.

    Busca pela profissão de cuidador cresceu 84% em relação ao ano anterior

    Uma maneira de enfrentar o desafio da invisibilidade do trabalho doméstico é incentivar a inserção da mulher no mercado de trabalho com atividades que se assemelham ao que já realiza, como, por exemplo, a de cuidador, que cresceu 84% em relação ao ano anterior, conforme dados do Google Trends.

    Isso indica haver oportunidades reais para quem deseja entrar nesse campo e a sociedade está começando a valorizar o trabalho de Cuidador. A profissão está em crescimento no Brasil, com um teto salarial de R$ 2.292,90, segundo o site Salario. com.br, considerando o salário base de profissionais em regime CLT em todo o país.

    Pensando no cenário das mulheres no mercado de trabalho, Ana Paula Delchiaro separou 3 dicas para quem planeja atuar na área de cuidador:

    1. Capacitação profissional: buscar cursos de formação para cuidadores, que fornecem conhecimentos específicos sobre cuidados gerais, primeiros socorros, podendo inclusive aprimorar habilidades de comunicação que são essenciais nessa profissão;
    2. Atualização do currículo: destacar no currículo as habilidades adquiridas ao longo dos anos na gestão do lar e no cuidado com familiares, enfatizando a capacidade de organização, empatia e habilidades de resolução de problemas;
    3. Networking: conectar-se com profissionais da área, frequentar grupos de apoio e buscar oportunidades de trabalho em instituições de saúde ou agências de Cuidadores.
  1. Professores aprovam o tema da redação do Enem

    Professores do Estratégia Vestibulares avaliaram como muito positivo o tema da Redação do Enem de 2023. Para Anna Cabral, professora de redação, o tema da permite “relacionar com o patriarcalismo e machismo ainda muito existentes na sociedade”, uma vez que o trabalho de cuidado ainda é mais voltado para as mulheres brasileiras.

    “Além disso, invisível por ser desprezível pela grande maioria da população, afinal muito ainda se escuta dizer que o trabalho de cuidado demanda pouco esforço quando comparado com os trabalhos fora do ambiente doméstico. O candidato precisa estar atento para não tangenciar o tema, pois a invisibilidade se trata do trabalho de cuidado praticado pelas mulheres e não da invisibilidade feminina, embora seja parecido, não é a mesma coisa”, ressalta.

    Também professora de redação, Marina Ferreira considera o tema “super necessário e relevante” e lembrou que a banca Cebraspe, mais uma vez, trouxe o tema das mulheres à tona, já havia feito em 2016, ao mencionar violência. Dessa vez, cobrou a invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher.

    “A palavra cuidado é chave, central para a discussão. Esse cuidado trata justamente da posição da matriarca, aquela que está no centro da família, cuidando dos filhos, do marido, dos mais idosos. Inclusive, vale mencionar que as mulheres são responsáveis por movimentar a economia doméstica, por gerir as responsabilidades do lar, mesmo naqueles que são compartilhados. A principal perspectiva a ser problematizada é a de sobrecarga, uma vez que já não se fala apenas em dupla função, fala-se em múltiplas funções que estão no escopo da gestão feminina.

    Ela destaca alguns dados da pesquisa PNAD Contínua que demonstraram isso recentemente: mulheres gastam mais tempo em tarefas domésticas quando dividem o lar, além de dedicarem o dobro de tempo do que homens no cuidado de pessoas. Para a professora, esse “cuidado” não é remunerado e faz com que desigualdades de gênero prevaleçam.

    “Além disso, as mulheres sofrem mais com a sensação de esgotamento e de cansaço, sendo mais vítimas de Burnout que homens. Seria muito bacana que o aluno falasse de compartilhar responsabilidades de cuidado, as creches e as casas de acolhimento de idosos são ações governamentais que poderiam favorecer a mulher nesse trabalho de cuidado”, ressaltou.

    Maria Celina Gil, professora de redação e Língua Portuguesa, considera o tema bem atual por tratar da desigualdade de gênero a partir de uma perspectiva específica. Ela sugere alguns recortes, pensando que o trabalho de cuidado envolve tanto o trabalho doméstico quanto a maternidade.

    “Importante lembrar que o Brasil já prevê a possibilidade de aposentadoria para donas de casa, para não cair no erro de sugerir intervenções que já existem. Pensar sobre maneiras de dividir o cuidado doméstico entre homens e mulheres poderia ser um caminho também”, comentou.

Com Assessorias

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