Além de  graves falhas no suporte de urgência e emergência, a recente tragédia envolvendo a morte da empresária Andreia Gaspar, de 51 anos, em Goiânia, após passar por seis procedimentos estéticos faciais no mesmo dia, reacendeu um alerta vermelho no Brasil sobre a segurança do paciente e os riscos associados à realização de múltiplos procedimentos estéticos em uma única intervenção.

Em abril, a notícia de que a influenciadora Ana Paula Siebert submeteu-se a quatro procedimentos estéticos de uma só vez — incluindo a blefaroplastia — acendeu um alerta no universo da saúde. Embora a busca pelo “rejuvenescimento do olhar” esteja em alta, o mercado médico observa com cautela a tendência de múltiplas intervenções simultâneas.

A promessa de otimizar o tempo de recuperação, enfrentar o anestesista apenas uma vez e reduzir custos com internação hospitalar faz com que a cirurgia plástica combinada — ou “em pacote” — seja uma escolha atraente. No entanto, especialistas ouvidos pelo VIDA E AÇÃO alertam que a busca por transformações intensas em um único ato cirúrgico exige limites rigorosos para não colocar a vida em risco.

Realizar múltiplos procedimentos estéticos em uma única cirurgia, prática cada vez mais comum entre pacientes que buscam resultados rápidos e transformações corporais intensas, pode esconder riscos potencialmente fatais.

Um dos fatores mais cruciais para a segurança do paciente em cirurgias múltiplas é a duração do procedimento. A exposição prolongada à anestesia e ao trauma cirúrgico altera a hemodinâmica do organismo, aumentando as chances de intercorrências graves.

Especialistas em cirurgia plástica orientam que o tempo limite de segurança para procedimentos combinados não deve ultrapassar de 4 a 5 horas em sala cirúrgica. Quanto maior a duração do procedimento, maiores são os riscos de diminuição do fluxo sanguíneo, hipotermia, sangramentos, infecções graves e episódios de tromboembolismo venoso ou embolia pulmonar.

Além disso, médicos reforçam que a presença de qualquer processo infeccioso ativo — detectado em exames de sangue ou de imagem — é contraindicação absoluta para a realização de cirurgias estéticas eletivas. A recomendação médica padrão determina o tratamento prévio da infecção com antibióticos e a repetição de todos os exames antes de autorizar qualquer entrada em centro cirúrgico. Cirurgias plásticas combinadas elevam risco de embolia gordurosa, alerta especialista

O tempo limite na mesa de cirurgia

De acordo com o cirurgião plástico Ícaro Samuel, referência na área, o tempo em sala cirúrgica precisa ser rigidamente controlado pela equipe médica:

Sempre oriento meus pacientes a encaixar os procedimentos em um período de 5 horas, no máximo, 6 horas, porque após esse tempo, os riscos para a saúde aumentam consideravelmente”, alerta Ícaro.

Estudos na área mostram que intervenções que ultrapassam esse período elevam a probabilidade de complicações respiratórias, hipotermia, sangramentos e eventos trombóticos.

Os perigos da embolia e o rigor no pré-operatório

A combinação de procedimentos corporais e faciais extensos — como lipoaspiração, gluteoplastia com enxerto de gordura e troca de próteses mamárias podem aumentar índice de complicações graves — eleva o risco de quadros graves como o tromboembolismo venoso e a embolia gordurosa.

Segundo o cirurgião plástico Christian Ferreira, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), esta última ocorre quando gotas de gordura entram na corrente sanguínea e atingem órgãos vitais como pulmões, cérebro ou coração.

Apesar de incomum, trata-se de uma intercorrência grave. A preparação pré-operatória deve ser encarada com a mesma importância da técnica cirúrgica em si. Quando bem planejadas, as cirurgias combinadas podem ser realizadas com segurança, mas é indispensável que o paciente tenha exames laboratoriais e cardiológicos normais, boa composição corporal, ausência de comorbidades e não seja fumante”, destaca o CEO da Lumivie Clinique.

Além da avaliação cardiovascular e metabólica, médicos reforçam que a presença de qualquer processo infeccioso ativo — detectado em exames de sangue ou de imagem — é contraindicação absoluta para a realização de procedimentos estéticos eletivos.

A conduta médica padrão determina o adiamento da operação, o tratamento completo da infecção com antibióticos e a repetição de todos os exames laboratoriais antes de liberar o paciente para o centro cirúrgico.

Checklist de segurança: como escolher o profissional e o hospital

Para evitar complicações e garantir que a busca pela autoimagem não se transforme em tragédia, especialistas orientam que o paciente adote critérios rigorosos antes de fechar qualquer contrato:

  • Registro na SBCP: Confirmar se o médico é membro titular ou especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e possui registro ativo no conselho regional de medicina.

  • Estrutura hospitalar credenciada: Exigir que a cirurgia ocorra em hospital credenciado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), equipado com Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e equipe de emergência.

  • Cuidado com as redes sociais: Não tomar decisões baseando-se apenas em número de seguidores ou promessas de resultados milagrosos na internet.

  • Consulta presencial obrigatória: A avaliação física minuciosa é insubstituível para checar a composição corporal, a anatomia e alinhar expectativas reais sobre o pós-operatório.

  • Equipe multidisciplinar e suporte pós-cirúrgico: Confirmar a presença de anestesista dedicado exclusivamente ao procedimento e checar os protocolos de acompanhamento após a alta.

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