Nunca se falou tanto de inteligência. Artificial, principalmente. Discutimos a capacidade das máquinas de escrever, criar imagens, programar, diagnosticar, ensinar e resolver problemas. Empresas investem bilhões para tornar modelos cada vez mais capazes. Universidades correm para incorporá-los. Escolas tentam descobrir o que fazer com eles. E nós seguimos fascinados diante de cada nova habilidade demonstrada por uma máquina. Recentemente otimizei meu tempo usando ChatGPT porque a IA resolveu algo que eu estava levando mais de 40 minutos para finalizá-lo.
Uma conversa recente com representantes do Instituto Rogério Steinberg (IRS) me levou para outra direção. A organização atua na identificação e no desenvolvimento de crianças e jovens com altas habilidades e superdotação, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. No trabalho de orientação desses jovens, o Instituto recorre, entre outras referências, às inteligências múltiplas de Howard Gardner.
Voltar a Gardner em plena corrida pela Inteligência Artificial é um exercício oportuno.
Na década de 1980, o psicólogo de Harvard questionou a ideia de que a inteligência pudesse ser compreendida principalmente por testes de QI e pelo desempenho em determinadas capacidades cognitivas. Sua teoria das inteligências múltiplas ampliou o conceito e descreveu diferentes formas de manifestação das capacidades humanas.
Gardner falou das inteligências linguística e lógico-matemática, historicamente valorizadas pela escola, mas também das inteligências espacial, musical, corporal-cinestésica e naturalista. Acrescentou as inteligências interpessoal, relacionada à capacidade de compreender e se relacionar com outras pessoas, e intrapessoal, associada ao conhecimento de si próprio.
A teoria foi debatida e criticada no campo científico ao longo das últimas décadas. Reduzi-la a uma classificação de pessoas seria, inclusive, contrariar uma de suas contribuições mais interessantes. Ninguém precisa sair por aí dizendo que uma criança “é musical” enquanto outra “é lógico-matemática”. A questão relevante está na ampliação do nosso olhar sobre as capacidades humanas.
E é aí que Gardner encontra um problema brasileiro bastante concreto.
Uma criança pode possuir enorme capacidade de argumentação e não encontrar quem a estimule. Outra pode compreender relações espaciais com facilidade incomum sem jamais ter contato com experiências que desenvolvam essa habilidade. Um jovem pode demonstrar liderança, criatividade, sensibilidade musical ou grande capacidade para solucionar problemas e atravessar anos de escolarização sem que essas características sejam reconhecidas como potencial. O talento existe mesmo quando ninguém o percebe.
Em contextos de vulnerabilidade social, essa invisibilidade cobra um preço ainda maior. Crianças de famílias com melhores condições econômicas têm mais acesso a livros, idiomas, tecnologia, viagens, atividades culturais, esportes, cursos e outros ambientes nos quais suas capacidades podem aparecer. Se uma habilidade desponta, há maior possibilidade de alguém reconhecê-la e investir nela. A capacidade de uma criança em situação de vulnerabilidade não é menor. Menores são as oportunidades para que ela seja descoberta e desenvolvida. Talento não escolhe CEP. Oportunidade ainda escolhe.
Essa constatação deveria incomodar quem trabalha com educação. Construímos uma escola bastante treinada para descobrir aquilo que o estudante não sabe. Aplicamos provas, contamos erros, atribuímos notas, diagnosticamos dificuldades e criamos mecanismos de recuperação. Precisamos desenvolver a mesma competência para descobrir aquilo que cada estudante pode fazer muito bem.
Identificar altas habilidades, nesse sentido, não significa apenas reconhecer quem apresenta desempenho excepcional. O desafio começa depois da identificação: criar condições para que uma potencialidade se transforme em desenvolvimento. É nesse ponto que orientação, repertório, experiências educacionais e acesso a oportunidades fazem diferença.
Há uma contradição curiosa no nosso tempo. Mobilizamos quantidades extraordinárias de dinheiro, pesquisa, energia e infraestrutura para desenvolver máquinas mais inteligentes. Queremos descobrir tudo o que elas conseguirão fazer daqui a cinco ou dez anos. Enquanto isso, uma criança com capacidades excepcionais pode permanecer anos numa sala de aula sem ser percebida.
Não precisamos escolher entre inteligência humana e artificial. A tecnologia pode ampliar oportunidades de aprendizagem e acesso ao conhecimento. A questão é onde estamos colocando nossa atenção. Quanto mais sofisticadas ficam as máquinas, mais sofisticado precisa ser nosso olhar para as pessoas.
Em meio a tantos debates sobre o futuro da Inteligência Artificial, vale recuperar uma pergunta bem mais antiga: quantas inteligências humanas estão diante de nós sem que consigamos reconhecê-las? Um país que não enxerga as capacidades de suas crianças e jovens não desperdiça apenas talentos. Desperdiça o desenvolvimento humano.




