O cenário da violência de gênero no Brasil permanece alarmante, com o ambiente doméstico consolidado como o local de maior risco para as mulheres. Segundo o balanço anual da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180, divulgado nesta quarta-feira (15), quase 70% das agressões registradas em 2025 ocorreram dentro de casa. O serviço contabilizou mais de 1 milhão de atendimentos no último ano, uma média de quase 3 mil contatos diários, o que representa um salto de 45% em relação a 2024.
O levantamento detalha que 40,76% dos casos de violência acontecem na residência da própria vítima e 28,58% no imóvel compartilhado com o agressor. Apenas uma pequena parcela das denúncias (2,96%) tem como cenário as vias públicas, o que evidencia que, para milhares de brasileiras, o lar está longe de ser um local seguro.
A rotina da violência e o perfil das vítimas
A persistência é uma das marcas mais cruéis dos dados apresentados. Cerca de 31,8% das mulheres atendidas relataram sofrer agressões diariamente. Além disso, mais de 20% das denunciantes convivem com a violência há mais de um ano. No topo da lista das violações está a violência psicológica, que responde por 49,9% dos registros, seguida pela violência física (15,3%) e patrimonial (5,4%).
O recorte racial do relatório expõe o agravante da desigualdade estrutural: mulheres negras (pretas e pardas) são as principais vítimas, somando 43,16% dos episódios relatados. Em termos etários, a maior vulnerabilidade concentra-se na faixa dos 26 aos 44 anos, que reúne 37,19% das queixas.
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Avanços legislativos e a violência vicária
Um dado emergente que preocupa as autoridades é a violência vicária — quando o agressor utiliza filhos ou familiares para causar sofrimento psicológico à mulher. Em 2025, foram 7.064 denúncias desta natureza. O aumento dessa modalidade no início de 2026 impulsionou a sanção da Lei 15.384/2026, que tipifica o “vicaricídio” como crime hediondo, com penas que podem chegar a 40 anos de reclusão.
A maioria dos casos atendidos (75,9%) é amparada pela Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), ferramenta essencial no combate ao abuso familiar. O monitoramento contínuo desses dados é fundamental para orientar as ações de proteção, lembrando que a saúde da mulher está intrinsecamente ligada ao seu direito de viver sem medo.
Como buscar ajuda: O Ligue 180 é gratuito e funciona 24 horas. Além do telefone, é possível denunciar pelo WhatsApp (61) 9610-0180 ou procurar Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM). Em casos de emergência e risco imediato, a orientação é ligar para a Polícia Militar (190).



