Mulher transexual, Amanda de Souza Soares foi atraída por Marlon Nascimento da Silva para uma conversa e acabou sendo assassinada a facadas. O crime – ocorrido em fevereiro de 2024 no bairro Jardim Nova República, em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio de Janeiro – teve como motivação a transfobia, com o objetivo de ocultar da sociedade a relação, inclusive de natureza sexual, que o réu mantinha com a vítima.

Um ano e meio depois, em agosto de 2025, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) obteve a condenação de Marlon a 25 anos de prisão pelo homicídio quadruplamente qualificado. Além da pena de prisão, também foi fixado o pagamento de indenização por danos morais aos familiares da vítima.

O Conselho de Sentença acolheu integralmente as teses da 2ª Promotoria de Justiça junto à 4ª Vara Criminal de São Gonçalo e reconheceu a gravidade das quatro qualificadoras apresentadas: motivo torpe (transfobia), meio cruel, traição e feminicídio (contexto doméstico e familiar). Trecho da sentença destacou a crueldade: “o crime foi praticado em razão da transfobia do réu, que nada mais é do que uma espécie de feminicídio, só que velado, oculto”.

Infelizmente, crimes como este nem sempre são punidos no Brasil. O assassino da adolescente trans Michelly, morta a tiros em Itaperuna (RJ) em 2018, até hoje não foi julgado nem condenado. Apesar da grande repercussão do caso na mídia e de muitos moradores da cidade saberem quem era o assassino, prevaleceu o entendimento de que a vítima teria sido culpada pela própria morte ao enfrentar seu algoz, supostamente para receber uma dívida por um programa com ele.

Casos como esses engrossam as estatísticas ano após anos. Um dossiê divulgado nesta segunda-feira (26) pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revela que pelo menos 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil em 2025. O número apresenta uma queda de 34,4% em relação às 122 mortes contabilizadas em 2024.
Apesar disso, segundo a Antra, o estudo mantém o Brasil pelo 17º ano consecutivo como país mais perigoso para a população trans em todo o mundo. De acordo com o dossiê, a vítima mais nova tinha 13 anos. O perfil das vítimas é majoritariamente de “jovens trans negras, empobrecidas, nordestinas e assassinadas em espaços públicos, com requintes de crueldade”.

Personagem de novela das 9 é exemplo de coragem e superação

Celebrado em 29 de janeiro, o Dia Nacional da Visibilidade Trans reforça a luta por direitos, respeito e inserção digna no mercado de trabalho e em outros espaços. Felizmente, o enfrentamento do preconceito parece estar evoluindo nos últimos anos. Um exemplo é a grande repercussão da personagem Viviane, uma mulher trans que vive um romance com Leonardo (Pedro Novaes), um homem heterossexual na novela Três Graças, da TV Globo.
Coincidentemente, a atriz trans Gabriela Loran, de 33 anos, também é nascida em São Gonçalo, onde ocorreu o feminicídio por transfobia em 2024. Ao contrário do fim trágico de Amanda, Gabriela celebra a representatividade na TV. É a primeira atriz trans a integrar o elenco fixo de uma novela das nove da emissora.
A atriz, que realizou cirurgia de redesignação sexual na Tailândia, vem se destacando por um papel afetuoso e complexo, distante de estereótipos. A personagem é farmacêutica, vive um romance com  e enfrenta transfobia com firmeza. Esta semana, ela encara o homofóbico e transfóbico empresário Feretti (Murilo Benício), ao ser apresentada a ele em um jantar cercado de preconceito.

Na vida real, Gabriela vive um relacionamento com o ator, artista circense e influenciador Ipojucan Ícaro, de 32 anos, conhecido por ter sido vice-campeão da edição de 2022 de “No Limite”, reality de sobrevivência exibido pela Globo.

Trajetória de maqueira do SUS simboliza respeito e inclusão no serviço público

Na vida real, também crescem exemplos de inclusão. Ana Flávia Pereira, de 35 anos, maqueira da rede pública de saúde no Rio de Janeiro, cuja trajetória simboliza resistência, superação e a conquista de um espaço profissional onde a identidade de gênero é respeitada.

A história de Ana Flávia é marcada pelo cuidado e pela responsabilidade desde cedo. A mais velha de cinco irmãos, cresceu sob uma disciplina rígida e, aos 14 anos, precisou assumir o papel de cuidadora da família em razão de problemas de saúde enfrentados pelos pais. “Fiz meu papel de cuidar dos meus irmãos e deixá-los encaminhados e bem”, recorda, orgulhosa de vê-los hoje como cidadãos formados.

O caminho para sua própria afirmação como mulher trans, no entanto, foi permeado por silenciamentos e preconceitos. Há cerca de 15 anos, quando começou a compreender sua identidade de gênero, o cenário social era ainda mais hostil. “O mundo era bem diferente. Não havia entendimento sobre nós; o que existia era preconceito e agressão”, relembra a funcionária da Riosaúde.

Barreiras no mercado de trabalho

A transição trouxe obstáculos severos para sua trajetória profissional. Durante anos, Ana Flávia precisou esconder quem era para conseguir uma oportunidade de emprego. Em entrevistas, usava roupas masculinas por medo da rejeição. “Eu chegava à porta da empresa e via profissionais e candidatos rindo. Era uma humilhação”, relata, ao recordar um período em que a exclusão era regra.

A virada aconteceu com sua entrada na RioSaúde. Atualmente, atuando como maqueira na rede municipal, Ana Flávia celebra não apenas a estabilidade profissional, mas, sobretudo, a dignidade de ser chamada pelo seu nome e reconhecida pelo seu trabalho. Para ela, o ambiente hospitalar da rede pública representa um espaço de acolhimento e respeito.

“Pela primeira vez, me sinto plenamente respeitada em um ambiente de trabalho”, afirma. Sua atuação na linha de frente da saúde pública do Rio de Janeiro reforça a importância de políticas institucionais de diversidade, inclusão e respeito aos direitos humanos.

Com Assessorias
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