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‘Ser negro e PcD no Brasil é enfrentar uma dupla discriminação’

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No Brasil, 56% da população são negros (pardos e pretos), conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entretanto, dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram uma triste realidade, que aponta crescimento de 67% nos registros de crimes de racismo em 2022, frente ao ano anterior. Por isso, no Dia da Consciência Negra no Brasil (20 de novembro), data que homenageia a resistência e a luta do povo negro contra a escravidão e o racismo, lembramos das lutas e desafios enfrentados até hoje pelos negros, como as dificuldades de aceitação e inclusão na sociedade.

E se além da cor da pele, tiverem algum tipo de deficiência, o preconceito que eles sofrem é ainda maior. Mais da metade (56,1%) dos brasileiros são negros, de acordo com o IBGE. E eles sofrem duas vezes com o preconceito quando nascem ou adquirem algum tipo de deficiência ao longo da vida. Dos 45,6 milhões de brasileiros que têm algum tipo de deficiência, 23,8% são negros e 23,6% são pardos. Esses grupos são os que mais sofrem com a pobreza, a violência e a exclusão social.

“Ser negro e PcD no Brasil é enfrentar uma dupla discriminação, que se reflete em desigualdades de acesso à educação, saúde, trabalho, cultura e direitos humanos”, diz o defensor público federal André Naves, que é especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social.

Exemplo de preconceito em dobro é o vivido por Maria Alexandra Giorgio Natali, de 40 anos, que tem paralisia cerebral – com idade mental de 5 anos. Ela é filha adotiva da jornalista Nydia Giorgio Natali, de 69 anos, ambas moradoras de Jacareí, no Vale do Paraíba (SP). Nydia lembra que viu Maria Alexandra pela primeira vez no dia 21 de julho de 1983.

“Foi quando aconteceu a primeira greve geral no país durante a ditadura militar. Eu, repórter, passei a noite toda cobrindo a greve. Exausta, fui deitar às 6h da manhã, mas logo em seguida o telefone tocou. Era do posto do INPS (antes do SUS). A coordenadora pedia para eu ir até lá fazer uma reportagem sobre um bebê de seis meses que havia sido abandonado no local. Eu fui e me apaixonei por aquele bebê imediatamente”, conta.

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Preconceito começou dentro da própria casa

De acordo com Nydia, o preconceito começou logo, em sua própria casa. Sua tia chamava Alexandra de negrinha e não queria que a menina chegasse perto dela. “Foi muito difícil. Minha menina só andou com quase 5 anos. Na época não existia inclusão escolar, mas eu consegui que ela fosse matriculada no pré-primário (hoje pré-escola), com crianças da idade dela”, conta.

A escola era particular porque nenhuma escola pública aceitava crianças com deficiência. “Além disso, havia também o preconceito por ela ser preta. Recordo que dois meninos saíram da escola porque os pais não aceitaram minha filha estudando com eles”, relembra.

Desde os sete anos de idade, Maria Alexandra frequenta uma escola especial filiada à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), a JAM Jacareí. Lá, ela participa até hoje de atividades cotidianas, como plantar e cozinhar, além de jogar capoeira.

“Maria Alexandra nunca aprendeu a ler e escrever, mas vive com caderno e lápis na mão fingindo que escreve. Na realidade, ela nunca sentiu o preconceito diretamente e é feliz. Sempre fiz de tudo para que minha filha não soubesse o que é preconceito de verdade, apesar de lidarmos com isso diariamente”, ressaltou Nydia.

O que fazer para mudar essa realidade?

Defensor público federal André Naves (Foto/Divulgação Assessoria Ex-Libris)

Naves aponta que, para mudar essa realidade, é preciso promover políticas públicas que avancem nas práticas inclusivas e de acessibilidade de negros PcDs em todos os espaços da sociedade: escola, trabalho, cultura, espaços de lazer, entre outros.

Algumas dessas políticas são: a reserva de vagas em concursos públicos e no ensino superior; a oferta de bolsas de estudo e financiamento estudantil; a criação de programas de capacitação profissional e geração de renda; a implantação de equipamentos e serviços adaptados às necessidades específicas de cada deficiência; e o fortalecimento de organizações sociais que defendem os direitos dessa população.

“É preciso combater cada vez mais a discriminação, valorizando a diversidade, a cultura afro-brasileira e dando voz a essa imensa parcela da população. O Dia da Consciência Negra nos oferece, portanto, uma grande oportunidade para nos engajarmos na construção de um país mais justo e igualitário para todos”, reforça André Naves.

 

Com Assessorias

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