A escoliose é a principal deformidade da coluna em crianças e adolescentes e afeta entre 2% e 3% da população. Embora muitas vezes passe despercebida por apresentar poucos sintomas nas fases iniciais, a condição pode evoluir rapidamente durante o estirão de crescimento e, nos casos mais graves, comprometer a função pulmonar, a saúde cardiovascular e a qualidade de vida dos pacientes.
Ao longo do Junho Verde, mês mundial de conscientização da escoliose, instituições públicas e privadas de saúde – como o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp (HCFMB) e o Hospital Pequeno Príncipe, em Curitiba (PR) – recebem mutirões para reduzir o impacto da longa espera de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), muitos com risco de agravamento enquanto aguardam tratamento.
Com o objetivo de ampliar a conscientização sobre a doença e oferecer tratamento aos casos mais graves, o Hospital Pequeno Príncipe realiza, de 9 a 12 de junho, a Semana da Coluna. Ao longo da mobilização, pacientes com indicação cirúrgica passarão por um procedimento chamado artrodese da coluna. O procedimento é indicado para corrigir deformidades graves e progressivas e consiste na fusão de duas ou mais vértebras para estabilizar a estrutura óssea e melhorar a qualidade de vida.
Os oito pacientes selecionados para o mutirão têm entre 12 e 15 anos e são atendidos exclusivamente pelo SUS. Seis deles são meninas, refletindo o perfil mais comum da doença, que acomete predominantemente o sexo feminino durante o estirão de crescimento. Todos apresentam deformidades graves da coluna com indicação cirúrgica e foram priorizados conforme critérios clínicos e tempo de espera pelo procedimento.
Além do diagnóstico, esses adolescentes compartilham os desafios impostos pela progressão da doença em uma fase importante do desenvolvimento físico e emocional. Para muitos, a cirurgia representa a oportunidade de recuperar qualidade de vida, melhorar a autoestima e retomar atividades cotidianas com mais conforto, autonomia e segurança.
O impacto desse tipo de cirurgia na vida de uma criança ou adolescente é imenso. Trata-se de devolver dignidade, permitir que eles voltem a brincar, estudar e projetar o futuro com mais autonomia. E, em muitos casos, a cirurgia muda não somente a vida dos pacientes, mas de toda a família”, realça o chefe do Serviço de Ortopedia e Traumatologia do Hospital Pequeno Príncipe, Luis Eduardo Munhoz da Rocha.
Mude a Curva: mutirão já beneficiou mais de 140 jovens e adolescentes
Já a 12ª edição do Mutirão de Cirurgias de Escoliose, realizado pela ONG Mude a Curva e formada por renomados cirurgiões de coluna, acontece de 14 a 19 de junho, beneficiando entre 15 e 20 crianças e adolescentes atendidos pelo SUS, A iniciativa acontece pela segunda vez, com o apoio do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp (HCFMB).
Segundo Ricardo Acácio, médico ortopedista especialista em coluna vertebral e membro do projeto Mude a Curva desde o início, a iniciativa vai muito além das cirurgias de escoliose. Já são mais de 140 jovens e adolescentes cujas vidas foram transformadas pelo mutirão de cirurgias de escoliose ao longo dos anos.
O mutirão, que tem por objetivo realizar cirurgias corretivas que devolvem qualidade de vida e mobilidade aos pacientes, além de capacitar equipes de ortopedistas e cirurgiões de coluna em hospitais de referência, fortalecendo a rede de atendimento em todo o país,
Os pacientes submetidos às cirurgias foram avaliados pela equipe médica e classificados em diferentes níveis, que levaram em conta o risco cirúrgico, necessidade de internação em UTI e uso de bolsas de sangue. A seleção ocorreu por meio de avaliação presencial da equipe do Mude A Curva no ambulatório do HCFMB e encontros virtuais de discussão dos casos.
A iniciativa é fundamental para a nossa rede pública de saúde. O mutirão de escoliose representa cuidado e acolhimento dignos para centenas de pacientes que aguardam por avaliação e tratamento. Trata-se de uma assistência cada vez mais humana, resolutiva e acessível para toda a população”, frisa o presidente do HCFMB, José Carlos Souza Trindade Filho.
O mutirão reafirma o poder da colaboração para enfrentar os grandes desafios da saúde pública, unindo tecnologia, conhecimento, médico e responsabilidade social para mudar a curva de muitas vidas. A iniciativa tem apoio da Medtronic pela sétima vez, que doa implantes, insumos e fornecerá equipamentos de alta tecnologia, disponibilizando também equipes técnica e de instrumentação especializadas para o adequado manuseio durante os procedimentos.
Menor tempo de internação de pacientes após a cirurgia
Mais do que ampliar o acesso ao tratamento especializado, o mutirão de cirurgias de escoliose do Hospital Pequeno Príncipe reafirma o papel da linha de cuidado voltada aos pacientes submetidos à artrodese da coluna. Implantado em 2020, o modelo é baseado na integração multiprofissional, no envolvimento das famílias e na adoção de protocolos assistenciais padronizados.
Os resultados foram publicados em estudo científico que demonstrou redução significativa do tempo total de hospitalização e da permanência em terapia intensiva. Entre 2019 e 2022, o período médio de internamento em UTI caiu de 3,8 dias para 0,8 dia por paciente, enquanto a redução acumulada gerou economia estimada de R$ 189 mil ao SUS em um período de cinco anos. Na prática assistencial, os ganhos continuaram avançando.
Segundo o ortopedista Luiz Müller Ávila, do Hospital Pequeno Príncipe, entre os pacientes com escoliose idiopática, o tempo médio de hospitalização foi reduzido de 5,7 dias para 3,8 dias. Além disso, apenas 3% dos pacientes necessitaram de UTI em 2024 e, em 2025, nenhum caso demandou cuidados intensivos no pós-operatório.
A principal evolução dos últimos anos não foi uma mudança na técnica cirúrgica, mas na forma como cuidamos do paciente antes, durante e depois da cirurgia. Hoje, conseguimos oferecer uma recuperação mais rápida, com menos complicações e maior conforto para pacientes e famílias. Psicologicamente, estar em um quarto é muito menos estressante do que permanecer em uma UTI em um momento que já é delicado por si só”, explica o especialista.
Escoliose pode evoluir sem sintomas e comprometer a qualidade de vida de adolescentes
Em geral, a cirurgia é indicada quando as curvas ultrapassam 45 ou 50 graus ou apresentam progressão significativa. Nos casos mais graves, além das consequências físicas, as deformidades da coluna podem afetar profundamente o bem-estar emocional dos pacientes e gerar impactos importantes na autoestima e na socialização dos adolescentes. Mas quando identificada no momento adequado, a doença pode ser tratada de forma conservadora e evitar a necessidade de cirurgia.
A escoliose normalmente não causa dor. Por isso, muitas vezes ela é percebida apenas quando a deformidade já está mais avançada. O olhar atento dos pais, professores e profissionais de saúde é fundamental para que o diagnóstico aconteça cedo”, explica o ortopedista Luiz Müller Ávila, do Hospital Pequeno Príncipe.
A forma mais comum da doença é a escoliose idiopática do adolescente, responsável por cerca de 80% dos casos. Caracterizada pela ausência de uma causa definida, ela ocorre principalmente em meninas e costuma surgir entre os 10 e os 14 anos, período marcado pelo rápido crescimento corporal.
O peso da mochila, o uso do celular e a má postura
O especialista ressalta que algumas crenças populares ainda geram dúvidas entre as famílias. Apesar de contribuírem para dores musculares e alterações posturais, fatores como uso excessivo de celulares, mochilas pesadas ou má postura não são responsáveis pelo surgimento das deformidades estruturais da coluna.
Esses hábitos não causam escoliose ou cifose. O que a má postura provoca é desconforto muscular e alterações funcionais. As deformidades têm outras origens, muitas vezes associadas a fatores genéticos, congênitos, neuromusculares ou sindrômicos”, afirma.
Segundo o especialista, a prática regular de atividade física continua sendo uma das principais aliadas da saúde musculoesquelética de crianças e adolescentes, contribuindo para o fortalecimento da musculatura, o desenvolvimento da consciência corporal e a prevenção de dores relacionadas à postura.
Alerta para a importância do diagnóstico precoce
Para os ortopedistas, a conscientização é a principal ferramenta para reduzir diagnósticos tardios. Como a doença costuma evoluir de forma silenciosa, a observação dos pais e responsáveis é fundamental para identificar possíveis alterações.
O que os pais devem observar:
Os principais sinais costumam ser visíveis e podem ser identificados durante atividades cotidianas, como ao trocar de roupa ou durante a prática esportiva. Entre eles estão:
- ombros em alturas diferentes;
- escápulas desalinhadas;
- assimetria da cintura;
- quadris desnivelados;
- elevação de um dos lados das costas ao inclinar o tronco para frente.
Com Assessorias






