Médicos fazem mutirão de cirurgias bariátricas gratuitas no Rio

16 pacientes que aguardam há tempos na fila do SUS no estado serão beneficiados. ‘Quero começar uma nova vida’, diz paciente

Cirurgia bariátrica é realizada por meio de videolaparoscopia (Foto: Divulgação)
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A auxiliar de produção Uiara Barbosa de Lima, de 41 anos, pesa 129 quilos e tem Índice de Massa Corporal (IMC) acima de 50. Enquadrada como obesidade grau 3, o mais grave (antes conhecido como obesidade mórbida), ela recebeu a indicação da cirurgia bariátrica em 2019. Desde então, aguarda na fila do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo procedimento que pode mudar a sua vida. Ela será operada nesta segunda-feira, dia 23, no Hospital Federal de Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro.

Uiara Barbosa, de 41 anos, pesa 129 kg e aguarda desde 2019 pela bariátrica pelo SUS (Foto: Acervo pessoal)

“Passei por todas as etapas do atendimento e estava apta a operar quando veio a pandemia. Nesse período ganhei 9 quilos e a hipertensão, diabetes, cansaço, falta de disposição se somam à dificuldade física e emocional que é viver assim”, conta. Ela já comemora antecipadamente os resultados esperados com a cirurgia: “Quero começar uma nova vida”.

Uaira é uma das 16 pacientes que serão beneficiadas por um mutirão que membros da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) realizarão, nos dias 23 e 24 de outubro, no Rio de Janeiro. A ação voluntária é voltada a ajudar a acelerar as cirurgias para tratamento da obesidade em pacientes que aguardam nas filas do SUS do estado.

De acordo com o sistema de regulação da Secretaria de Estado da Saúde do Rio de Janeiro, existem 3.698 solicitações de pacientes com indicação para bariátrica, em fila, aguardando pela primeira consulta em ambulatórios especializados. Em 2021, em parceria com a SES-RJ, a SBCBM realizou um mutirão de cirurgias.

Quase 3,7 mil pessoas na fila de espera por bariátrica no Estado do Rio

Os procedimentos realizados dessa vez deverão acelerar em cerca de três meses o tempo de espera dos pacientes que já se encontram em preparo no sistema público de saúde do Estado. Ao todo, serão realizadas 16 cirurgias em quatro hospitais federais: Hospital de Ipanema, Hospital da Lagoa, Hospital dos Servidores do Estado e Hospital do Andaraí.

Todos os pacientes operados já passaram pelas etapas pré-operatórias exigidas, como acompanhamento com endocrinologista, psicólogos, nutricionistas, e estão com os exames em dia e aptos para serem operados. Os 16 pacientes receberão alta em 24 horas, já que a cirurgia será feita por videolaparoscopia. Todos os materiais cirúrgicos foram obtidos por meio de uma parceria entre a SBCBM e a Medtronic, indústria fabricante.

Para o coordenador da ação, o presidente da regional da SBCBM no Rio de Janeiro, Luis Gustavo de Oliveira, essa ação conjunta com os hospitais federais do Rio de Janeiro será muito benéfica.

“Estaremos ajudando pacientes que estão aguardando na fila para realizar cirurgia bariátrica pelo SUS e ainda ressaltando a importância da cirurgia para melhorar a qualidade de vida e reduzir o alto risco que se encontram estes pacientes devido às comorbidades associadas”, afirma.

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Quem pode fazer a cirurgia bariátrica?

Entre os critérios previstos nas portarias 424 e 425 do Ministério da Saúde para realização da cirurgia bariátrica pelo SUS estão o encaminhamento de pacientes com IMC de 50 Kg/m2 e pacientes com IMC ³40 Kg/m², com ou sem comorbidades, sem sucesso no tratamento clínico por no mínimo dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos.

As portarias também permitem a indicação para cirurgia bariátrica de pacientes com IMC > 35 kg/m2 e comorbidades com alto risco cardiovascular, diabetes e/ou hipertensão arterial de difícil controle, apneia do sono, doenças articulares degenerativas ou outras que não tenham tido sucesso no tratamento clínico longitudinal, realizado por, no mínimo, dois anos e que tenham seguido protocolos clínicos.

Obesidade x bariátrica: uma conta que não fecha

No último dia 11 de outubro, Dia Mundial da Obesidade, a SBCBM divulgou dados que apontam crescimento de 20,5% nos procedimentos realizados através do SUS. Até agosto de 2023 foram realizadas 4.553 cirurgias, segundo o DataSus, sendo que no mesmo período em 2022, foram realizadas 3.777 cirurgias bariátricas.

Já o número de cirurgias realizadas pelos planos de saúde – segundo levantamento recente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) – foi de 65.256 cirurgias no ano de 2022. Ao todo, em 2022, foram realizadas 74.696 cirurgias se somados os números de procedimentos através do SUS, da ANS e de cirurgias particulares.

Em 2021, o número de cirurgias bariátricas realizadas no Brasil foi de 63.016 procedimentos, sendo 57.152 por meio de planos de saúde, 2.864 pelo SUS e cerca de 3 mil particulares. Em 2020 foram 52.715, com 46.437 cirurgias bariátricas por planos de saúde, 3.768 no SUS e 2.510 particulares.

“Se fizermos uma comparação da realização de cirurgias pelo SUS e o número de pacientes com indicação de cirurgia bariátrica, o número de procedimentos equivale a 1,5% da população elegível”, informa o presidente da SBCBM, Antônio Carlos Valezi.

Epidemia de obesidade só cresce no Brasil

No Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), no conjunto das 27 capitais e Distrito Federal monitoradas pelo programa, entre 2006 e 2021, a frequência de adultos com obesidade aumentou 10,6 pontos percentuais, variando de 11,8% a 22,4% em 2021.

No Sistema de Vigilância Alimentar (Sisvan), do Ministério da Saúde, o histórico de crescimento dos índices de obesidade entre 2010 e 2022 foi de 15,4 pontos percentuais, saindo de 16,48% para 31,88% da população. Em 2023, são 6.481.179 milhões de pessoas com obesidade no total. Este valor corresponde a 33.38% da população.

Já segundo o Atlas Mundial da Obesidade, produzido pela World Obesity Federation (WOF), a obesidade deve atingir 41% da população brasileira até 2035 com impacto econômico na saúde estimado em 19,2 milhões de dólares, cerca de 3% do Produto Interno Bruto (PIB).

O presidente da SBCBM, Antônio Carlos Valezi, destaca que a epidemia de obesidade segue em crescimento enquanto existem estados que não possuem serviços de cirurgia bariátrica credenciados ao SUS, como é o caso de Rondônia e Roraima.

“Dados do Sisvan mostram que a obesidade está presente em 31,8% da população e o sobrepeso é de 34,6%. Estamos em uma epidemia da doença obesidade, porta de entrada para inúmeras comorbidades que afetam a qualidade de vida da população e diretamente a saúde pública”, afirma Valezi.

Sociedade cobra mais transparência na fila do SUS

Diante do cenário atual, a SBCBM defende uma maior transparência no que se refere à informação sobre número de pacientes que aguardam o tratamento cirúrgico da obesidade nas filas do SUS, em estados e municípios do país.

Nos últimos anos, a entidade tem trabalhado com representantes do Ministério da Saúde para formalizar propostas de atualização das portarias que estabelecem as diretrizes da cirurgia bariátrica e metabólica no SUS.

Entre as revisões sugeridas pela SBCBM estão:

  • atualizações nos critérios e contraindicações do tratamento cirúrgico e códigos específicos para cada técnica cirúrgica;
  • rotinas de pré e pós-operatório;
  • regulação dos hospitais credenciados; disponibilização de polivitamínicos;
  • recursos para habilitação de estrutura física e equipamentos adequados;
  • reajuste da tabela SUS, que está congelada desde 2013,
  • incentivos para hospitais que atendem a indicadores de qualidade e produção,
  • incentivo à viabilização de cirurgias videolaparoscópicas e
  • aumento da remuneração de profissionais e serviços hospitalares envolvidos nos processos.

Proposta para ampliar bariátrica por videolaparoscopia pelo SUS

Galzuinda Maria Figueiredo Reis, diretora de Relações Governamentais da SBCBM, explica que a entidade fez uma proposição com o objetivo de aumentar o financiamento da cirurgia bariátrica no SUS, seja através de um reajuste ou pela viabilização da cirurgia videolaparoscópica.

“Para isso, criamos indicadores de qualidade que poderiam ser utilizados como parâmetros, entre eles o mínimo de produção de cirurgias bariátricas, taxa de reinternação, percentual de acompanhamento no pós-operatório, entre outros”, explica.

A proposta de revisão da portaria também prevê a realização de oficinas com gestores estaduais de unidades da federação onde não existam serviços habilitados e também nos que possuem para divulgação de informações. Atualmente, Amapá, Rondônia e Roraima não possuem nenhum hospital habilitado.

Trabalho para democratizar e ampliar o acesso à cirurgia no Brasil

O presidente da SBCBM, Antônio Carlos Valezi, explica que a Sociedade “tem trabalhado incessantemente para democratizar e ampliar o acesso à cirurgia bariátrica e metabólica no país e ações solidárias como esta são uma forma de externar este apoio”.

A SBCBM informa que busca a adequação de protocolos de atendimento pré e pós-operatórios em cidades e estados que necessitam de suporte ou ainda não possuem serviços credenciados ao Ministério da Saúde em cirurgia bariátrica.

Ao longo dos anos, a entidade também tem buscado oferecer subsídio técnicos e científicos para que sejam estabelecidos critérios de elegibilidade e priorização dos pacientes, seleção de equipes de atendimento.

Nos próximos dias 25 a 27 de outubro, mais de 2000 cirurgiões bariátricos estarão no Rio Centro, no Rio de Janeiro, participando do XXIII Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica.

Com informações da SBCBM

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