Mulheres negras têm menos acesso a mamografias

Estudo aponta desigualdades no acesso de pessoas negras à saúde no Brasil. Morte materna por hipertensão aumenta 5% entre mulheres pretas

Enquanto 18,8% das mulheres brancas não fizeram pré-natal completo, com 7 consultas médicas, número sobre para 33% entre as mulheres negras (Foto: Canva)
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dia 27 de outubro é dedicado ao Dia Nacional da Mobilização PróSaúde da População Negra, data escolhida para lembrar que, apesar dos avanços conquistados na área da saúde, ainda persistem as desigualdades raciais. Um estudo do Centro de Estudos e Dados sobre Desigualdades Raciais (Cedra) confirma a disparidade entre mulheres negras e brancas no que diz respeito aos exames preventivos para detecção do câncer de mama precocemente.

Até o ano de 2019, 36,3% das mulheres negras adultas não haviam realizado nenhuma mamografia ao longo da vida. Para as mulheres brancas, essa taxa era 21,4%. Entre as mulheres de 50 a69 anos, em 2019, o percentual de mulheres negras que não fizeram mamografia foi de 27,7% e de mulheres brancas foi de 20,5%. Considerando as mulheres acima de 18 anos, 70% mais mulheres negras que brancas nunca fizeram exame clínico de mamas.

De acordo com a análise do Cedra, a partir de cruzamentos inéditos com bases estatísticas do DataSUS e do Ministério da Saúde, o problema é ainda maior quando os abismos começam ainda na gestação, no acompanhamento pré-natal, passando para o atendimento na infância, e assim seguem por toda a vida.

  • Em 2020, 72% mais gestantes negras do que brancas realizaram o pré-natal de maneira inadequada, intermediária ou não fizeram o exame. Em 2020, entre as gestantes negras, 31,1% realizaram o pré-natal de maneira inadequada, intermediária ou não fizeram o exame. Entre as gestantes brancas essa proporção era 18,1%.
  • Em 2020, entre as gestantes negras, 33,8% não realizaram o número mínimo recomendado de sete consultas pré-natal. Entre as gestantes brancas essa proporção era 18,8%. Em 2020, 76% mais gestantes negras do que brancas realizaram um número de consultas pré-natal menor do que o recomendado.

Morte materna por hipertensão aumenta 5% entre mulheres pretas

Ministra da Saúde Nísia Trindade com convidadas para apresentação do Boletim Epidemiológico Saúde da População Negra (Foto: Walterson Rosa/MS)

O número de mortes de gestantes por hipertensão caiu entre mulheres indígenas (quase 30%), brancas (-6%) e pardas (-1,6%), mas aumentou 5% entre mulheres pretas brasileiras entre 2010 e 2020. É o que apontam os dados do Boletim Epidemiológico Saúde da População Negra, lançado nesta segunda-feira (23) pelos ministérios da Saúde e da Igualdade Racial.

Os dados evidenciam o impacto do racismo enquanto um dos determinantes sociais de saúde e expõem a vulnerabilização da população negra em relação ao acesso das políticas já existentes. Exemplo disso são as causas de morte que atingem desproporcionalmente pessoas pretas e pardas, como a Covid-19, um dos principais motivos de morte materna no país em 2020.

Dos 1.965 óbitos registrados naquele ano, 22% (430) foram por Covid-19. Desses, 63,4% (273) foram registrados entre mulheres pretas e pardas. Além da mortalidade materno-infantil, o primeiro volume do boletim traz temas como acesso à assistência pré-natal e baixo peso ao nascer, doença falciforme, vacinação e mortalidade por raça-cor.

O documento também retoma a análise epidemiológica com critério raça-cor, que não era realizada desde 2015, e inova ao compilar, pela primeira vez, as doenças e agravos monitorados pelos diversos sistemas de informação da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.

Dividido em quatro volumes, o boletim é uma importante ferramenta de monitoramento dos indicadores de saúde entre as pessoas negras e vai guiar políticas públicas de combate ao racismo, redução das desigualdades e promoção da saúde ao longo dos próximos anos, em mais um passo pela igualdade racial no país, uma das prioridades do governo federal.

Veja mais no site do Ministério da Saúde aqui

O dobro de crianças negras em relação às brancas não fez teste da orelhinha

  • A desigualdade no acesso à saúde entre brancos e negros se perpetua entre novas gerações, como aponta o estudo realizado pelo Cedra. Em 2019, 24,2% das crianças negras menores de 2 anos não fizeram o teste da orelhinha. Essa proporção entre as crianças brancas era 12%.
  • A proporção de crianças negras que não fizeram o teste do olhinho é quase o dobro das crianças brancas. Em 2019, 28,2% das crianças negras menores de 2 anos não fizeram o teste do olhinho. Essa proporção entre as crianças brancas era 14,3%.
  • Em 2019, 38,9% das pessoas negras adultas haviam medido a glicemia há mais de um ano ou nunca haviam medido. Essa proporção entre as pessoas brancas era 31,1%. A pesquisa mosrou que 21,7% das pessoas negras possuíam plano de saúde médico ou odontológico. Entre as pessoas brancas essa proporção é de 40%. Ou seja, 85% mais pessoas brancas possuíam plano de saúde em 2019 em comparação a pessoas negras.
  • A pesquisa exclusiva com dados e análises recentes relativas à área da Saúde por características de cor e raça  apresenta um diagnóstico aprofundado das desigualdades que envolvem o acesso a esse direito essencial garantido pela Constituição.

“É necessário garantir que a população negra tenha acesso aos direitos humanitários, de forma acolhedora e livre de qualquer discriminação”, reflete Helio Santos, presidente do Conselho Deliberativo do Cedra, que reúne pensadores das relações raciais, especialistas em ciência de dados, estatísticos, economistas e cientistas sociais

Segundo ele, os dados permitem uma radiografia da situação de saúde da população negra brasileira, embora haja indícios que a pandemia da covid-19 tenha agravado essa situação e acentuado as desigualdades raciais em saúde. “Estes dados evidenciam que o racismo sistêmico está também na saúde, assim como nos outros campos da vida brasileira”, afirma Helio.

Para a nova rodada de dados no campo da Saúde, o Cedra analisou as informações coletadas na Pesquisa Nacional de Saúde (2019), na Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE, 2019) e no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (Sinasc, 2020). As análises de dados de saúde contaram com o apoio da Fundação Itaú e do Instituto Carê.

Agenda Positiva

Saúde da população negra: racismo como fator de adoecimento

Referências para a comunidade negra no Brasil, Maria Inês da Silva Barbosa, assistente social e doutora em Saúde Pública, e Arthur Lima, fundador da AfroSaúde, startup que cria soluções com objetivos sociais e organizacionais com atenção especial à população negra, confirmaram presença no II Simpósio Científico Reflexões e Caminhos Futuros para a Saúde Pública, organizado e promovido pelo Instituto de Responsabilidade Social Sírio-Libanês.

Eles palestrarão no painel Saúde da População Negra: O Racismo como Fator de Adoecimento”, que ocorrerá no primeiro dia do evento, às 15h20, para abordar a profunda influência do racismo sistêmico na saúde dos brasileiros negros, destacando como essa discriminação estrutural contribui significativamente para disparidades em saúde.

O debate visa sensibilizar a sociedade para a urgência de abordar o racismo como um fator de adoecimento que requer ações imediatas e políticas públicas eficazes para promover a igualdade na saúde da população negra. O simpósio, totalmente gratuito, acontecerá nos dias 8 e 9 de novembro, em São Paulo, mas também poderá ser conferido no formato online, estando aberto para pessoas de todas as regiões do Brasil. As inscrições são gratuitas, mas é preciso reservar ingresso por este link.

Empreendedor, cirurgião-dentista, mestre em Saúde, Ambiente e Trabalho, com doutorado em Medicina e Saúde pela Universidade Federal da Bahia, Arthur desenvolve estratégias que combinam conhecimentos da universidade e do empreendedorismo para desenvolver produtos e projetos com o objetivo de reduzir as disparidades raciais na saúde.

“É importante que o debate sobre racismo e saúde seja amplo e dialogue com diferentes públicos, principalmente para os profissionais que já estão no mercado e para aqueles que estão em formação. É uma maneira de racializar o cuidado para que a população negra tenha um cuidado mais direcionado para que a sociedade siga para um caminho em direção à redução das desigualdades em saúde”, afirma Arthur.

Em 2020, ele foi reconhecido pela lista Forbes Under 30 e em 2023 compôs a lista “Um dos 100 Afrodescendentes Mais Influentes do Mundo”, pelo MIPAD 100/ONU. Também é membro do Comitê Consultivo do Movimento Mente em Foco do Pacto Global da ONU do Brasil.

Militante de movimentos sociais e negros desde os 15 anos de idade, Maria Inês possui experiência em atuação comunitária e hospitalar, em gestão de Política de Promoção da Igualdade Racial, de Gênero, Educação e Saúde, em órgãos governamentais e agências das Nações Unidas (Unifem, atual ONU Mulheres, e OPAS, EUA e Brasil).

“Pensar a saúde vai além do biológico; envolve considerar a história, economia e sociedade. Na busca pela compreensão dos determinantes da saúde, é crucial reconhecer que o racismo desempenha um papel significativo no processo de saúde e doença”, ressalta.

Com Assessorias

 

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