Sem cheiro, sem gosto e sem alteração na aparência, o metanol é uma substância altamente tóxica que pode causar cegueira irreversível e até levar à morte. O alerta é da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML), diante do recente aumento de casos suspeitos de intoxicação por bebidas adulteradas no país.

O metanol é uma substância traiçoeira. Ele não tem um cheiro característico, um gosto forte ou repugnante que possa afastar a pessoa. A gente só percebe seus efeitos quando os sintomas já se manifestaram”, explica o médico toxicologista e patologista clínico Alvaro Pulchinelli Jr, presidente da SBPC/ML.

Segundo ele, o metanol é amplamente utilizado na indústria química, como solvente e matéria-prima na fabricação de tintas, plásticos e combustíveis, não devendo estar presente em nenhum tipo de alimento ou bebida. “É basicamente uma substância de uso industrial, não tem uso caseiro ou profissional voltado à ingestão. Quando aparece em bebidas, é sinal de adulteração grave”, reforça Pulchinelli.

Sintomas e riscos à saúde

Os primeiros sinais de intoxicação por metanol podem ser confundidos com os de uma embriaguez comum, como fala pastosa, tontura e reflexos diminuídos. Horas depois, porém, os efeitos se intensificam e surgem náuseas, vômitos e alterações visuais.

O comprometimento da visão é um dos sintomas mais característicos. A pessoa começa a enxergar borrado, com pontos brilhantes e perda progressiva da visão, podendo evoluir para um quadro de cegueira”, alerta o toxicologista.

Diagnóstico e atendimento

Pulchinelli destaca que não há forma caseira de detectar metanol em bebidas, apenas testes laboratoriais específicos podem identificar a presença da substância. “Essas análises exigem equipamentos e reagentes próprios de laboratórios de química. Em casa, infelizmente, não há como saber se a bebida foi adulterada”, esclarece.

Por isso, em caso de suspeita de intoxicação, o médico orienta procurar atendimento imediatamente. “Não espere os sintomas piorarem. O metanol é uma emergência médica. Quanto mais rápido o diagnóstico e a introdução do antídoto, maiores as chances de salvar a vida e preservar a visão”, reforça o presidente da SBPC/ML.

O papel dos laboratórios clínicos

A SBPC/ML reforça que o diagnóstico laboratorial é essencial para a confirmação de casos de intoxicação e para o direcionamento rápido do tratamento adequado. “Por meio da atuação técnica e do compromisso com a qualidade, os laboratórios clínicos contribuem diretamente para a segurança do paciente e a redução de riscos à saúde pública”, ressalta.

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Consumo de bebidas e alimentos falsificados podem causar sérios danos à saúde

Exames laboratoriais devem ser feitos na busca do tratamento mais adequado a um paciente intoxicado

As bebidas falsificadas são um perigo silencioso. O crime organizado tem investido na falsificação de bebidas alcoólicas no Brasil, tornando esse um risco real para os foliões. Whiskies, vodkas e até cervejas falsificadas podem conter substâncias altamente tóxicas, como metanol e etilenoglicol, usadas na adulteração para baratear os custos de produção.

O Anuário da Associação Brasileira de Combate à Falsificação de 2023 sinalizou que o Brasil perdeu R$ 345 bilhões em 2022 por causa da pirataria e o setor de bebidas é o segundo mais prejudicado. Além do enorme impacto à economia nacional, consumir produtos falsificados, como alimentos com defensivos agrícolas e bebidas, pode colocar seriamente a saúde em risco.

Esse é um risco silencioso porque a pessoa não percebe que está consumindo uma bebida falsificada, pois o gosto é praticamente idêntico ao da original”, alerta o presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML)

Segundo o médico patologista, os danos ao organismo podem ser graves. “O metanol, por exemplo, pode causar desde um quadro de embriaguez até coma e cegueira irreversível. Já o etileno-glicol pode levar à insuficiência renal e até à morte”, explica o toxicologista, acrescentando que é essencial que as pessoas só consumam bebidas de procedência confiável, evitando produtos vendidos de forma clandestina ou em locais suspeitos.

Nesses casos, a pessoa deve ser mantida deitada, com a cabeça virada para o lado, para evitar a aspiração de vômito. Não se deve oferecer café, água ou qualquer outro líquido, pois isso pode agravar a situação”, orienta,

No caso das bebidas alcoólicas falsificadas, é comum encontrar substâncias tóxicas desconhecidas como o metanol, que, dependendo da quantidade, pode levar o consumidor a óbito.

Para custear a produção e obter uma grande margem de lucro, os fabricantes deste tipo de bebida costumam adicionar diversos tipos de substâncias químicas aos produtos que são maléficos à saúde, como componentes de produtos de limpeza e de lavagem de automóveis, removedores de esmaltes, dentre muitos outros.

Essas substâncias químicas utilizadas no lugar do álcool etílico podem até causar os efeitos gerados pelo álcool como a sensação de embriaguez. Mas também podem levar a problemas de saúde como dores abdominais, vômitos, tonturas e sonolência, além de sequelas mais graves. O metanol, por exemplo, pode causar cegueira permanente, crises renais e morte”, ressalta o médico toxicologista  Álvaro Pulchinelli Júnior.

Outro ponto relevante é que nos casos de intoxicação por um produto pirata, os médicos podem ter dificuldades para tratar o paciente, já que não sabem qual é a real formulação da bebida ou alimento ingerido. Exames laboratoriais devem ser feitos na busca do tratamento mais adequado a um paciente intoxicado

Já o uso de defensivos contrabandeados e falsificados coloca a saúde das pessoas em risco e causa graves consequências para a flora e fauna. Além do risco de intoxicação da água, dos trabalhadores e dos produtores. “Por isso, alerta-se aos produtores que estejam atentos aos rótulos sem erros de digitação e lacres de segurança, além de selos metalizados. Usar produtos falsificados é crime”, finaliza.

Dicas para evitar bebidas falsificadas

· Escolha lugares confiáveis para comprar suas bebidas. Dê preferência a grandes lojas ou sites conhecidos e evite adquirir de terceiros ou em estabelecimentos pequenos e duvidosos.

· Desconfie de preços muito baixos. Saiba diferenciar valores promocionais de descontos exorbitantes. No caso de bebidas raras e, consequentemente, caras, esse cuidado deve ser redobrado.

· Cheque o lacre. No Brasil, as bebidas alcoólicas precisam apresentar o selo do IPI (Imposto sobre Produto Industrializado). Se a garrafa não tiver esse selo, significa que pode se tratar de uma bebida falsificada ou contrabandeada. Verifique também se o lacre que vem na boca da garrafa está intacto.

· Sinta o cheiro. Desconfie de bebidas que tenham cheiro muito forte e desagradável de álcool.

· De preferência a alimentos orgânicos, livre de defensivos agrícolas.

Palavra de Especialista

Fraude em bebidas: intoxicação por metanol pode causar cegueira e morte

Por Willian Barbosa Sales*

A recente onda de intoxicações por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas no Brasil acendeu um alerta urgente para autoridades, profissionais de saúde e população. metanol, solvente industrial altamente tóxico, não deveria estar presente em bebidas.

Quando ingerido, é metabolizado no fígado, formando formaldeído e ácido fórmico, substâncias altamente tóxicas. Os sintomas surgem entre 12 e 24 horas após o consumo, variando de embriaguez persistente, desconforto gástrico e alterações visuais até coma, convulsões, insuficiência renal e cegueira irreversível.

Segundo a Nota Técnica Conjunta nº 360/2025 do Ministério da Saúde, casos suspeitos devem ser notificados imediatamente e tratados como eventos de saúde pública. O protocolo oficial recomenda suporte clínico, exames laboratoriais específicos e uso de etanol farmacêutico como antídoto, além de ácido folínico e hemodiálise nos casos graves. O diagnóstico precoce é essencial para evitar sequelas permanentes.

A adulteração de bebidas com metanol é um exemplo clássico de Food Fraud, prática criminosa que visa lucro fácil à custa da saúde do consumidor. Muitas vezes, as bebidas são vendidas em locais informais, sem controle de origem ou nota fiscal.

Consumidores devem evitar bebidas de origem desconhecida e exigir qualidade. Estabelecimentos devem garantir a procedência dos produtos. Em caso de suspeita de intoxicação, é fundamental procurar emergência e informar o histórico de consumo.

Como biólogo e especialista em saúde única, reforço que a saúde humana está profundamente conectada à saúde ambiental e à integridade dos sistemas alimentares. A fraude alimentar ultrapassa fronteiras individuais e ameaça toda a sociedade, colocando vidas em risco, sobrecarregando o sistema de saúde e minando a confiança nas instituições. Proteger o indivíduo é proteger o coletivo, e a prevenção é sempre o caminho mais seguro.

A luta contra a intoxicação por metanol exige ação coordenada entre governo, setor produtivo e sociedade. Informar-se, exigir qualidade e denunciar irregularidades são atitudes que salvam vidas. Em caso de suspeita, profissionais de saúde e população podem buscar orientação imediata junto ao CIATox, pelo telefone 0800 722 6001 (Disque-Intoxicação Anvisa).

*Willian Barbosa Sales é biólogo, doutor em Saúde e Meio Ambiente e Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional Uninter

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